CULTURA
A tradição do teatro em Juiz de Fora e como ela se perpetua e resiste na atualidade
Com grupos históricos, escolas de formação e espaços culturais ativos, Juiz de Fora mantém viva uma tradição teatral construída ao longo de gerações.
Por Mariana Vargas e Yasmin Moraes

Fachada Cine-Theatro Central. Foto: Alexandre Dornelas/UFJF
Juiz de Fora tem uma relação histórica com a cultura. Entre grupos que atravessaram gerações, novas companhias que surgem para experimentar diferentes linguagens e espaços culturais que mantêm a programação ativa ao longo do ano, o teatro segue como uma das expressões artísticas mais presentes na cidade. O que torna o entretenimento uma parte da identidade juiz-forana.
A cultura teatral da cidade é uma das mais fortes do interior de Minas Gerais. A tradição passa por gerações, influenciada por sua posição entre Rio de Janeiro e Belo Horizonte, pelo desenvolvimento da cidade no final do século XIX e pela forte presença universitária. Hoje, Juiz de Fora combina formação artística, produção independente e patrimônio histórico.
Casas de Cultura
A trajetória do teatro passa pelos lugares que ao longo dos anos abrigaram espetáculos, artistas e diversas manifestações culturais diferentes. Atualmente, espaços como o Fórum da Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, o Cine-Theatro Central, Teatro Solar e o Teatro Paschoal Carlos Magno mantêm viva essa tradição. Além de receberem montagens locais e produções de outras regiões, eles também funcionam como pontos de encontro para artistas, estudantes e grupos ligados ao teatro.
Entre os primeiros e mais importantes palcos está o antigo Theatro Juiz de Fora, fundado em 1889, pelos irmãos Alfredo e Frederico Ferreira Lage, filhos do pioneiro Mariano Procópio. De acordo com o site do Cine-Theatro Central, apesar daquele ser o melhor espaço de Juiz de Fora naquele momento ainda era pequeno para as ambições culturais da cidade.
O Teatro Paschoal Carlos Magno está entre os mais tradicionais da cidade. Sua história começa em 1979 quando o dramaturgo esteve em Juiz de Fora para assistir uma peça do Grupo Divulgação e sugeriu ao prefeito, Francisco de Mello Reis, que criasse um Teatro Municipal. A obra teve início em 1981 mas foi travada por imprevistos com o terreno e a vizinhança, que levou ao estrangulamento orçamentário. Quase 30 anos depois, o prefeito Bruno Siqueira e alguns aliados políticos conseguiram viabilizar a conclusão da reforma que foi inaugurada em 2018. O espaço é gerido, atualmente, pela Funalfa.

Teatro Paschoal Carlos Magno inaugurado em 2018. Foto: Funalfa/Divulgação
Quando os espaços como o Theatro Juiz de Fora já estavam desativados, a cidade ganhou o Cine-Theatro Central. A casa colocou a cidade na rota de companhias líricas italianas, orquestras e companhias dramáticas nacionais, mais tarde abrigou um cinema e logo se consagrou como um excelente palco de shows musicais. No início da década de 80, o Central emergiu em um período de abandono. Somente em 1994 passou a ser administrado pela Universidade sendo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e passando por uma restauração em 1996, que colocou o teatro em funcionamento novamente.
O Fórum da Cultura da UFJF está entre os principais espaços culturais da cidade. Inaugurado em 1972 pelo reitor Prof. Gilson Salomão, a casa acolhe diversas entidades artísticas, dentre elas o Grupo Divulgação. Assim como outras iniciativas culturais oferecidas pela Universidade, o Fórum faz parte da cena artística e abre espaço para produção cultural de artistas de Juiz de Fora e de outros estados.
Por ser um espaço da UFJF a casa segue suas diretrizes, especialmente as definidas pela Pró-reitoria de Cultura. Portanto, as questões orçamentárias definidas pelo Conselho Superior impactam diretamente no recurso recebido. De acordo com a diretora do Fórum da Cultura, Marise Mendes, em virtude das dificuldades orçamentárias que as universidades passam, o principal desafio de manter o lugar funcionando é justamente a utilização desses recursos.

Edifício histórico no centro de Juiz de Fora alia patrimônio arquitetônico e produção cultural. Foto: UFJF/
Divulgação
Marise participou do Grupo Divulgação - o mais longevo e tradicional grupo de teatro da cidade - como atriz por quase 20 anos e hoje, sua ligação com o Grupo tem relação com os projetos de extensão junto à Faculdade de Comunicação Social. Segundo ela, Juiz de Fora está “antenada” com a produção cultural da região sudeste: “a cidade possui muitos grupos de teatro, o que mantém acesa a chama da cultura da encenação”, relata.
Grupo Divulgação: seis décadas de resistência e formação teatral em Juiz de Fora

Apresentação do Grupo Divulgação. Foto: UFJF/Divulgação
Foi em 1966 que a história do Grupo Divulgação começou em Juiz de Fora como centro de estudos teatrais, nas Faculdades de Filosofia e Letras da Universidade Federal da cidade. Fundado por estudantes apaixonados por teatro e com a vontade de transformar esse amor em algo concreto, ele foi fruto da resistência contra o cenário político da época que buscava acabar com as expressões artísticas.
“No período de maior repressão, nós começamos a encenar os grandes clássicos do teatro, que, em seus textos, falavam de tudo o que estávamos vivendo. A peça ‘Elektra’, por exemplo, uma das tragédias mais conhecidas da Grécia Antiga e que tratava sobre justiça, ódio e luto, fizemos quando saiu o AI-5, em 13 de dezembro de 1968”, relata José Luiz Ribeiro, coordenador do Divulgação, em entrevista para Diretoria de Imagem da UFJF.

Peça “Diário de um Louco”, apresentada em 1969. (Foto: Divulgação)
Inicialmente, o Grupo Divulgação apresentava seus espetáculos para estudantes universitários e comunidades com pouco acesso às atividades culturais. Com o passar dos anos, ampliou seu alcance e passou a dialogar com públicos diversos, construindo um repertório que vai dos clássicos gregos à dramaturgia contemporânea, incluindo também textos autorais.
Ao longo de quase seis décadas, o grupo se consolidou como uma das principais referências do teatro juiz-forano, mantendo a união entre prática artística, pesquisa e formação. Essa característica permanece presente na rotina dos integrantes para além dos ensaios, fazendo do grupo um espaço de formação técnica e humana. “Uma das coisas mais especiais é que aprendemos sobre todas as áreas do teatro: atuação, figurino, cenografia, sonoplastia, produção e muito mais. Mas, acima de tudo, o grupo é uma verdadeira escola de vida. É um espaço onde aprendemos a conviver, a trabalhar em equipe, a lidar com diferenças e a crescer como artistas e como pessoas”, relata a estudante e atriz Helena Vasconcelos.
Formada por voluntários, a companhia atua desde a montagem do cenário e figurinos até o impacto que as obras têm nos alunos e público, já que um de seus propósitos é a disseminação da cultura. “O objetivo é sempre buscar fazer um teatro de qualidade, que diga ao nosso tempo e que o público se sinta atravessado pelas mensagens que são transmitidas”, Márcia Falabella, co-fundadora do grupo.

Desde 1985, o projeto de extensão do Divulgação “Escola vai ao Teatro” leva gratuitamente estudantes da rede pública para assistir às apresentações do grupo. Além disso, o “Centro de Estudos Teatrais” e o “Workshop de interpretação para a terceira idade” são iniciativas de oficinas e cursos coordenadas pelo grupo e voltados para públicos de todas as idades.
O público é outro fator crucial para essa arte. “Quando as pessoas vão ao teatro, acompanham os grupos da cidade e valorizam o trabalho dos artistas locais, elas ajudam a manter essa cena viva”, explica a estudante Helena Vasconcelos. No entanto, Falabella aponta a redução do público após a pandemia, o que cria um obstáculo para a resistência da cena teatral. “A pessoa quando vai ao cinema e não gosta, acha o filme ruim. Mas quando vai ao teatro e não gosta, acha o teatro ruim, não a peça e por isso ela não volta”, o que evidencia que a resistência do teatro não depende apenas dos artistas, mas também da educação cultural da sociedade.
Márcia Falabella atuando na peça Todo Mundo, no ano de 1990. Foto: Jesualdo Castro
Vasconcelos também afirma que a continuidade de carreira na área também é uma questão negativa. “Juiz de Fora forma muitos artistas talentosos, tem grupos muito importantes e uma tradição teatral forte, mas muitas vezes quem quer viver exclusivamente de teatro acaba sentindo a necessidade de buscar oportunidades em polos maiores, como Rio de Janeiro e São Paulo.” O que faz com que muitos artistas não possam se dedicar à uma carreira na região.
No entanto Falabella destaca a vocação da cidade para as atividade culturais com o crescimento dos grupos de teatro musical e o surgimento de novas iniciativas. Para a diretora, a tradição teatral juiz-forana se sustenta justamente pela capacidade de dialogar com diferentes públicos e linguagens. “O teatro não morre. Enquanto houver seres humanos, haverá necessidade de contar histórias, refletir sobre o mundo e compartilhar experiências”, conclui a co-fundadora do grupo.
Novas gerações em cena: Close Formação Artística

Close festival 2026 após apresentação da peça Mona Lisa. Foto: Acervo Close Formação Artística
Se grupos históricos, como o Divulgação consolidaram a tradição teatral de Juiz de Fora ao longo das últimas décadas, essa história é perpetuada com o surgimento de novas escolas de teatro. Com o passar do tempo escolas independentes assumiram um papel importante na renovação da cena local, preparando novos atores e obras com diferentes linguagens e métodos.
Entre as novas iniciativas está o Close Formação Artística, que completa 15 anos de atuação em 2026, com mais de 600 estudantes e 53 obras artísticas. Surgida da percepção de que Juiz de Fora precisava de um espaço voltado à formação profissional de atores, a escola foi criada com a proposta de preparar artistas não apenas para o teatro, mas também para áreas como cinema, televisão e dublagem. O curso reúne mais de 24 disciplinas e aborda desde técnicas de interpretação até aspectos éticos da profissão. “É através da arte que construímos, instruímos, divertimos, trazemos reflexão e críticas”, explica Possas sobre a complexidade do ensino.
A proposta pedagógica também é percebida pelos alunos que passaram pela formação. Ex-aluno do Close, Thiago Peixoto afirma que a metodologia própria desenvolvida pela escola contribuiu para uma sensação constante de evolução ao longo do curso. “Você aprende uma coisa e a próxima complementa aquilo que já aprendeu. Tudo fazia sentido com o que vinha antes, então você sente que está sempre evoluindo”, relata.
Como ela argumenta, as escolas independentes são importantes para formação e difusão cultural. “Elas mantêm viva a tradição teatral da cidade ao mesmo tempo em que incentivam a inovação e a pesquisa de novas formas de expressão sem esquecer das raízes e da história que nos trouxe até aqui”, explica a atriz. Apesar do cenário desafiador para esse tipo de empreendimento cultural, ainda mais, de acordo com a fundadora, sem o incentivo público.

Apresentação "O homem do casaco verde", em 2024. Foto: Acervo Close Formação Artística
Embora a cultura esteja profundamente enraizada em Juiz de Fora, os artistas ainda enfrentam dificuldades para viver exclusivamente de sua produção artística, reflexo de um mercado limitado e da insuficiente visibilidade dada às manifestações culturais locais. Para Peixoto, um dos principais desafios está na valorização do setor e na ampliação das oportunidades para artistas iniciantes. “Poderia haver mais ações de incentivo tanto para o ator quanto para o público”.
Relações que transformam trajetórias
A Campanha de Popularização do Teatro e da Dança foi inaugurada em 2009, trazida pelo Sinparc/BH e produzida pela Associação de Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (APAC JF) com a intenção de democratizar o acesso às artes na cidade. Esse ano chega à sua 23ª edição e a cada ano traz novas atrações e experiências, consolidando a campanha como um patrimônio cultural do calendário local.
De acordo com Danyela Silvério, coordenadora da campanha e presidente da APAC, Juiz de Fora sempre teve uma produção teatral efervescente e o projeto surge da necessidade de oferecer à população uma programação cultural de qualidade com preços acessíveis. “A campanha tem evoluído ao longo dos anos. Isso reflete o crescimento do interesse da população pela cultura e a capacidade da APAC de mobilizar e apoiar o setor artístico local”, relata.

Coordenadora da Campanha de popularização do Teatro e da Dança, Danyela Silvério. Foto: Pedro Soares/Instragram
Em trecho de uma matéria publicada no site da Funalfa diz: “Começa nesta sexta-feira, 1º, em Juiz de Fora, a 22ª edição da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Até o dia 31, o público poderá assistir a 40 espetáculos com ingressos a preços acessíveis, a partir de R$10”. Este pequeno pedaço explicita que o projeto é mais do que um festival, ele funciona como ponte democrática permitindo que toda a população ocupe as poltronas dos teatros. “Os teatros foram vistos, historicamente, como espaços elitizados. Quando colocamos os ingressos a preços populares, estamos mandando um recado direto e afetuoso para a cidade: ‘esse espaço também é seu’’, diz Danyela.
Para a classe artística, a campanha garante espaços de apresentação sem custo para o produtor, ou seja, uma oportunidade de apresentar trabalhos autorais, recriar clássicos e capitalizar os grupos. A receita e visibilidade geradas pelos grupos através do projeto ajudam a ampliar pesquisas e manter espaços culturais funcionando. Além disso, a coordenadora destaca que há troca de bastidores, a campanha une a categoria: o artista consagrado divide o camarim e a experiência com o jovem que está estreando agora.

O projeto atrai população e democratiza o acesso às artes na cidade. Foto: Divulgação.
A Campanha de Popularização do Teatro e da Dança demonstra que existe tradição em Juiz de Fora e que ela acontece “no corpo dos artistas e na memória do público”. A tradição começa no século XIX, passa pela resistência política dos anos de chumbo e se manifesta na capacidade de resistência e teimosia do povo juiz-forano. “Se estamos na 23ª edição, é porque Juiz de Fora tem fome de teatro. E enquanto houver fome, nós estaremos aqui para servir o banquete”, conclui Danyela.
