POLÍTICA / CIDADE
O dólar sobe, o preço aumenta: o impacto da variação
cambial na vida dos microempreendedores brasileiros
A instabilidade da moeda norte-americana afeta desde o custo dos alimentos até o preço de equipamentos importados. Especialistas e
empreendedor es apontam a necessidade de políticas públicas e apoio técnico para quem sustenta a economia real
Por Gabriel Cardoso
A oscilação do dólar costuma ser manchete em noticiários econômicos e termômetro para investidores, mas, na prática, ela pesa também no caixa de quem trabalha por conta própria. Entre os pequenos empreendedores brasileiros, a variação cambial se reflete no aumento de custos, na dificuldade de repor produtos e em um sentimento constante de incerteza. Enquanto economistas explicam as causas, quem vive do próprio negócio busca estratégias, e apoio, para não deixar o câmbio derrubar seus planos.
Nos últimos meses, o dólar tem se mantido em um patamar elevado, variando entre R$5,10 e R$5,40. Para o professor de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Lourival Batista, essa instabilidade reflete uma combinação de fatores internos e externos.
“O dólar é sensível a praticamente tudo: decisões políticas, instabilidade fiscal, juros internacionais, conflitos e até desastres climáticos. Quando há qualquer sinal de insegurança, investidores retiram capital do Brasil e o câmbio sobe”, explica o professor.
Segundo Batista, a alta do dólar não afeta apenas grandes empresas ou importadores diretos. “Mesmo o microempreendedor local, que vende produtos nacionais, sofre os efeitos. Isso ocorre porque o dólar impacta o preço de insumos, energia, combustíveis e transporte. É uma cadeia longa e interligada.” Ele também ressalta que o câmbio alto influencia a inflação. “Quando o dólar encarece, os custos de produção sobem e o repasse chega ao consumidor. Esse efeito é gradual, mas constante. Por isso, o pequeno empreendedor precisa redobrar o controle financeiro e o planejamento.”

No início do Plano Real, a moeda brasileira esteve pareada com o dólar (Foto: Domínio público)
"Trabalhamos no limite"
Quem sente isso na pele é Carlos Daniel Maia, que trabalha no escritório do Mercado do Vô, pequena mercearia em Tocantins, cidade há cerca de 98 quilômetros de Juiz de Fora. Há seis anos no ramo, ele afirma que nunca viu um período tão instável quanto o atual.
“O dólar sobe e parece que tudo sobe junto. O transporte fica mais caro, o fornecedor aumenta o preço e a gente tem que repassar. Mas o cliente não entende, acha que o comerciante está ganhando mais. A verdade é que o lucro diminui a cada mês”, desabafa.

Localizado na Zona da Mata Mineira, o Mercado do Vô tem como característica ser um empregador de jovens que estão ingressando no mercado de trabalho (Foto: Nathan Marcelino)
Maia explica que, mesmo vendendo produtos básicos como arroz, feijão, óleo e farinha, o impacto da cotação é inevitável. “Muitos desses produtos usam embalagens importadas, e o combustível do caminhão que traz até aqui depende do petróleo, que também é cotado em dólar. No fim, tudo se encarece.”
Para ele, falta amparo do poder público. “O governo deveria ter políticas para proteger o pequeno empreendedor nesses momentos. Quando o dólar sobe, grandes empresas têm crédito e reserva. O microempreendedor não possui. Trabalhamos no limite, muitas vezes sem conseguir repor estoque. Uma política de incentivo ou subsídio para compra de insumos faria muita diferença”, defende
Apesar das dificuldades, Carlos tenta manter o negócio funcionando com criatividade e controle de gastos. “Aprendi a comprar em grupo com outros comerciantes do bairro. Juntando os pedidos, a gente negocia melhor. Mas não dá pra negar: cada centavo a mais no dólar pesa aqui no caixa”.
Na academia, o peso é outro
Em outro setor, o impacto do câmbio assume forma de ferro. O proprietário de uma academia no centro de Juiz de Fora, Gustavo Duarte, enfrenta dificuldades para renovar os equipamentos.
“Tudo que a gente usa aqui é importado: esteiras, bicicletas, máquinas de musculação. O fornecedor repassa o preço conforme o dólar. Quando eu comprei os primeiros aparelhos, o câmbio estava em R$4,30. Hoje está acima de R$5,50, e o orçamento saltou quase 40%”, relata.
Com isso, Gustavo teve que adiar a compra de novos equipamentos e investir na manutenção dos antigos. “Tenho uma esteira com quase cinco anos de uso. O conserto fica caro, porque até as peças de reposição vêm de fora. É sempre assim: o dólar sobe, a peça encarece, o conserto atrasa e o cliente reclama."
O empresário conta que busca alternativas nacionais, mas ainda são poucas. “O Brasil não produz muitos equipamentos de qualidade nessa área. Se houvesse incentivo à produção nacional, seria diferente. Hoje dependemos do dólar pra tudo, até pra trocar um rolamento”, comenta.
Mesmo com as dificuldades, Duarte não pensa em desistir. “Essa academia é o projeto da minha vida. O jeito é planejar melhor, economizar e acompanhar o mercado. A gente aprende a ser gestor na marra.”
A visão técnica do Sebrae: apoio, prevenção e políticas públicas
Para o analista técnico do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Tarcísio Fagundes, a realidade de Carlos e Gustavo é a de milhares de microempreendedores que enfrentam diariamente as consequências da variação cambial.
Segundo Fagundes, o primeiro passo é entender como o câmbio afeta o negócio. “Durante as consultorias, mostramos como calcular o custo real dos produtos, levando em conta insumos que variam com o dólar. Também ajudamos a traçar planos de contingência e estratégias de negociação com fornecedores.”
O analista destaca que há formas práticas de se proteger das oscilações cambiais:
“O importante é ter uma boa gestão do negócio e acompanhar o comportamento do mercado, para que decisões estratégicas possam ser tomadas em tempo hábil, minimizando os efeitos das oscilações
cambiais."
Mas, para ele, o apoio técnico não é suficiente sem uma estrutura pública sólida. “Na minha visão, o governo precisa criar mecanismos de incentivo à produção nacional e controle de gastos públicos. Isso ajudaria a estabilizar o câmbio e reduzir a dependência de importações. O microempreendedor precisa de um ambiente previsível para planejar e crescer”, defende o analista.

Tarcísio atua há 18 anos no Sebrae (Foto: Arquivo pessoal)
Entre o câmbio e o caixa
O professor Batista reforça que a estabilidade cambial é essencial para o desenvolvimento sustentável. “Um país que depende do dólar para importar insumos precisa de políticas fiscais e cambiais sólidas. Sem isso, o microempreendedor continuará vulnerável às oscilações externas.”
Ele aponta que o fortalecimento da indústria nacional e o incentivo à inovação são caminhos possíveis. “Produzir mais internamente é uma forma de reduzir a dependência cambial. O problema é que isso exige planejamento de longo prazo, e o Brasil ainda peca nesse ponto.”
Enquanto o debate econômico avança, microempreendedores como Carlos e Gustavo continuam adaptando suas rotinas. Carlos faz malabarismo com o estoque e busca fornecedores alternativos. Gustavo alonga a vida útil dos equipamentos e renegocia contratos.
“O empreendedor brasileiro é, acima de tudo, resistente”, resume Fagundes. “Mesmo com o dólar alto, ele encontra um jeito de seguir em frente. Mas resiliência sozinha não basta — é preciso apoio, capacitação e políticas públicas eficazes.
A variação do dólar, muitas vezes vista apenas como dado técnico do mercado financeiro, têm rostos, nomes e histórias por trás. Ela influencia o preço do pão, o custo da esteira de academia e o planejamento de quem sustenta o próprio negócio com esforço diário.

Lourival acredita num desenvolvimento interno do Brasil, ainda que dependa de muito planejamento. (Foto: Arquivo pessoal)

Variação do Dólar em relação a compra e venda em Real entre setembro e outubro de 2025 (Imagem feita com o auxílio de Inteligência Artificial/Fonte:Portsl Gov.br)
Trabalho redigido por Gabriel Cardoso e produzido por Hugo Morethe, Luiz Fernando Rangel, Nathan Marcelino, Rafael Alves, Renan Bastos, sob supervisão de Talison Vardiero
