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Você já sentiu nostalgia por um
tempo que não viveu?

Câmeras analógicas, CD's, vinis e revistas impressas são algumas das mídias físicas que têm ganhado o coração dos jovens hoje em dia

Por: Júlia Ferreira e Gabriele de Oliveira

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LP Vinil de Gilberto Gil “História Da MPB” de 1982. / Foto: Júlia Ferreira.

Quem caminha pelo centro de Juiz de Fora e passa na Rua Barbosa Lima cruza as portas do Museu do Disco. O espaço comercializa CDs, DVDs e LPs desde o final dos anos 80, tendo passado por endereços clássicos como a Rua Batista de Oliveira e a Avenida Getúlio Vargas. Ao entrar na loja é quase impossível não ser fisgado pelo sentimento de nostalgia. As paredes tomadas por prateleiras com os mais diversos dvds, os corredores como os de uma biblioteca com cds organizados de A a Z e o ambiente calmo, sempre com música tocando de fundo. Enquanto do lado de fora a vida corre no ritmo frenético do digital, lá dentro o tempo parece desacelerar. Esse é o cenário onde Gerson Soares trabalha há cinco anos e vem testemunhando uma mudança no comportamento dos consumidores.

 

Se enganam os que pensam que o mercado de mídias físicas sobrevive apenas do saudosismo de quem viveu os anos 1970 ou 1980. Os lojistas do Museu do Disco têm testemunhado uma mudança de público que acontece de forma curiosa: é a própria internet que tem empurrado os mais jovens para o analógico. Gerson percebe que o interesse dessa nova geração muitas vezes começa na tela do celular, através de vídeos e artigos que resgatam clássicos da música. "Os jovens veem matérias na internet sobre o vinil, e ali geralmente se fala dos discos difíceis, do Tim Maia, do Pink Floyd. Então eles chegam aqui procurando essas raridades”, relata Gerson.

 

Ainda assim, a falta de familiaridade inicial ou a falta de equipamento para escutar as mídias físicas não afasta os novos rostos. Como estão no começo de suas coleções, os adolescentes e jovens adultos encontram nos discos mais populares e comuns o ponto de partida para criar seus próprios acervos. O fenômeno é tão puramente estético e comportamental que inverte a lógica tradicional de compra e consumo. Ao invés de adquirir o meio onde se escuta, o objeto físico virou um desejo tão grande que, obter vem antes mesmo da utilidade prática. "Tem uma galera nova que nasceu depois da internet, mas aderiu e gosta de ter a mídia. Às vezes, o pessoal não tem nem a aparelhagem em casa, mas compra para colecionar. Não tem onde tocar ainda, mas quer ter o CDzinho, o disco para talvez ter o aparelho no futuro", observa o curador, que vê os jovens dividindo espaço da loja com os colecionadores veteranos.      


É exatamente essa nostalgia por um tempo não vivido que move o cotidiano de Bruno Domingos, cuja paixão pelas mídias físicas começou quando decidiu desacelerar dos algoritmos e resgatar o hábito ritualístico de escutar discos de vinil. O estudante de comunicação conta que por sempre estar rodeado de mídias físicas em casa, ao longo de sua vida, criou uma imensa afeição por elas. Relembra que, quando criança, deu um CD do Kid Abelha para a sua mãe de presente de aniversário. O processo de voltar a essas mídias digitais aconteceu após a pandemia de Covid-19, declarada pela Organização Mundial de Saúde em março de 2020, que perdurou como estado de emergência até maio de 2023. Durante esse período, ele conta que passava por crises de ansiedade e dificuldades de socialização, tendo encontrado na música a ajuda que precisava.        

O streaming de música Spotify entrou na vida Bruno e virou parte de sua rotina. Mas ao ter informações sobre o investimento do CEO na indústria bélica começou a questionar a plataforma. Será que seu algoritmo está realmente certo? Será que ele dá visibilidade para todos os artistas igualmente? Porque tenho que pagar por esse acesso? Todas essas questões trouxeram à tona a vontade pelas mídias físicas. Antes disso, escutava músicas pelo aplicativo do Youtube ou baixava elas em pendrive. Até no mínimo detalhe buscava ter a mídia de uma forma “física": seja baixando em arquivos no computador ou passando para o celular da forma que podia. Esse processo de volta às mídias físicas veio pela vontade de escutar música sem contribuir para essas questões. Ele começou adquirindo discos de vinil há 1 ano e hoje já tem uma coleção. A partir dela, decidiu comprar e parcelar em 12 vezes o aparelho de toca discos, que hoje custa em média R$400 a R$800 reais, a depender do modelo. Afirma que nem é uma vitrola, que acopla caixas de som e amplificador, mas é apenas um toca disco que o permite escutar os vinis que já tinha e os outros que foi comprando ao longo do ano de 2025. Por fazer parte da empresa júnior da sua faculdade, Bruno trabalha muito com internet e marketing e conta que não aguentava mais tudo que tinha que fazer on-line, seja de trabalho ou de interesse próprio envolvendo cultura e diversão. “Eu precisava muito que alguma coisa que eu gostasse de consumir fosse material.”

 

Para Bruno, o interesse pelos discos de vinil nasceu não apenas do gosto pela música, mas também da experiência de ouvir, colecionar e pesquisar sobre os artistas. Segundo ele, esse movimento representa uma tentativa de se desvincular do consumo exclusivamente digital. "Acho muito necessária uma descentralização do mundo digital na forma como consumimos qualquer tipo de conteúdo", afirma. O estudante também chama atenção para a relação entre cultura e desigualdade social. Na sua perspectiva, o acesso a bens culturais ainda é fortemente condicionado pela renda e pelo mercado capitalista. "Por ser uma pessoa de classe média baixa, eu considero um privilégio conseguir consumir cultura." Ele explica que, em muitas famílias, os recursos são destinados apenas ao que é considerado essencial para a sobrevivência, como geladeira e fogão, enquanto produtos culturais acabam sendo vistos como supérfluos. Para Bruno, essa lógica deveria ser diferente. "A cultura também deveria ser entendida como algo funcional." Ele lembra, ainda, que o Brasil preserva sua produção cultural por meio de manifestações populares, como as rodas de samba e o funk, que desempenham um papel importante na construção da identidade cultural do país.

"Sinto muita nostalgia, mesmo não sendo algo que eu vivi”, assim começa a fala de Maria Eduarda da Silva Canfidelis, de 20 anos, que está cursando o 5° período do curso de Rádio, TV e Internet (RTVI) na  Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A estudante sempre gostou muito de ler livros, revistas em quadrinhos, como as da Turma da Mônica e, depois, da Turma da Mônica Jovem. Com isso, acabou criando apreço  pelo material físico e sente essa nostalgia de tê-los atualmente. Ela conta que faz um processo de curadoria nos sebos pela cidade, como  o Flamingo e a Banca do Vasco. Já as revistas mais atuais compra em bancas. Ela prefere tê-las impressas porque sente um contato maior, assim como com livros também. “Eu gosto de sentir, gosto de poder marcar ou destacar alguma parte.” Maria acabou descobrindo que prefere ter as revistas impressas por seu interesse em fazer colagens, pois muitas delas têm coisas legais, principalmente as mais antigas da Capricho. Ela então iniciou uma coletânea, ao longo dos últimos dois anos. “Sinto que a comunicação impressa é diferente da digital, em que você não tem o toque, não sente a textura, não vê as marcas do tempo, que é uma coisa que eu adoro, como a folha amarelada e  o cheiro que também muda totalmente.”

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Banca de jornal tradicional no Centro de Juiz de Fora. / Foto: Júlia Ferreira, 2026.

O vintage e a qualidade do analógico

​O mesmo desejo de fugir do automático das telas e materializar a própria personalidade  é o que move a rotina de Peterson Carvalho, de 20 anos. Para o estudante de Cinema, o encanto pelo que é antigo sempre esteve ligado a sua visão de mundo, acreditando que a engenharia do passado guardava um compromisso maior com a qualidade.


Peterson coleciona CD’s e lembra que o estalo definitivo para iniciar sua coleção aconteceu despretensiosamente quando visitou um amigo que tinha um home theater clássico. Ao notar a potência acústica do aparelho se incomodou com a baixa fidelidade das caixas de som portáteis modernas em relação à qualidade original das músicas e decidiu adquirir um também para mergulhar no mundo dos Compact Discs. "A complexidade das coisas antigas é muito maior do que tudo o que é atual.

 

Ter algo físico para mim é muito mais prazeroso do que ter algo que qualquer um pode acessar na nuvem", compara. Para ele, colocar um CD para rodar funciona como uma espécie de passaporte off-line. "É como se fosse um ingresso para sair do digital, pegar um trenzinho e deixar as telas do lado de fora. Hoje em dia a gente fica tão ligado no automático com o fone de ouvido que a música passa batida", afirma. Além disso, o formato físico o estimula a consumir a obra de forma concentrada nas produções. "Às vezes eu vou atrás de uma música muito específica de um álbum e para ouvir aquela faixa, acabo passando por todas as outras músicas do CD, me aprofundando na obra completa do artista,” conclui. Esse apego por coisas antigas e a vontade de sair um pouco do automático não é exclusividade dos fãs de música.

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Fotos tiradas com uma das câmeras analógicasdo fotógrafo Yan Gabriel. Foto: Acervo pessoal, 2026.

O fotógrafo Yan Gabriel compartilha desse mesmo amor pelo vintage, um interesse que ele também herdou do pai. Assim como aconteceu com o Bruno, o universo analógico acabou virando um ponto de fuga para Yan na época do colégio. Há cerca de dez anos, ele encontrou no filme e nas câmeras antigas um refúgio para aquele período da adolescência. O interesse pela fotografia começou de forma lúdica, utilizando uma câmera digital compacta Cyber-Shot de sua mãe para tentar replicar as imagens que via nas revistas de carros. A transição definitiva para o universo analógico ocorreu quando adquiriu sua primeira câmera puramente mecânica: uma robusta Zenit 122, de fabricação soviética. "Não era uma câmera muito legal ou confortável de usar, mas foi ali que queimei o meu primeiro filme na vida", recorda. 

Ao longo de sua trajetória, o profissional chegou a acumular simultaneamente entre 25 e 30 câmeras antigas. Só que percebeu que o acúmulo exagerado afastava os equipamentos de sua real função: a vivência. "Câmera é uma coisa que tem que ser usada, não pode ficar parada, senão estraga", pontua. Hoje, ele reduziu seu acervo para sete modelos principais, voltados para o desempenho prático e comercial. Com esses equipamentos ele vem produzindo editoriais de moda, capas de EP e materiais de bandas locais de forma 100% analógica. Sua grande joia é uma câmera de médio formato da marca Hasselblad, famosa por ter sido o modelo escolhido pela NASA para registrar a chegada do homem à Lua nos anos 1960.  Do ponto de vista técnico e estético, Yan explica que o meio analógico tem uma identidade e uma "cola" visual impossíveis de serem copiadas perfeitamente pelos sensores digitais. "O digital é quadrado, frio, mecânico e distante. O analógico preserva as altas luzes de uma forma linda, e mesmo as suas limitações nas sombras se tornam características charmosas”, compara. Recentemente, ao escanear o primeiro rolo de filme que fotografou na vida, o fotógrafo experimentou o peso real da qualidade analógica contra a volatilidade do digital. "Foi uma sensação muito doida, quase como se eu tivesse tirado uma memória de dentro da minha cabeça e segurando ela na mão”. Nessa reflexão, ele pontuou ainda que “se o Google decidir desligar seus data centers amanhã, a gente perde tudo o que é digital.” O analógico é importante para a gente restabelecer o contato com quem somos. É uma reabilitação de coisas que não foram feitas apenas para a funcionalidade e para a produtividade”.               

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Fotos tiradas com uma das câmeras analógicas do fotógrafo Yan Gabriel. Foto: Acervo pessoal, 2026.

Para o professor da Faculdade de Comunicação Ricardo Bedendo, essa provocação de que o digital nos afasta da nossa própria história e nos esgota faz todo sentido. Ele argumenta que a questão geracional é o ponto de partida para pensar sobre essa sociedade em que tudo é muito digitalizado. No entanto, há pessoas mais idosas, que não viveram e não foram educadas nessa cultura digital. Ele lembra que, em comparação com o que vivemos hoje, era um pouco mais lento, as possibilidades de conexões eram menores e as formas de repercussão dos fatos também. A evolução tecnológica é o contraponto daquilo que as gerações anteriores viveram. Por isso, acabam sendo forçadas a se adaptar para sobreviver no mundo digital. Essas mudanças também revelam relações de poder que atravessam o consumo cultural, assim, as plataformas digitais e seus algoritmos acabam moldando o acesso à cultura e os hábitos de consumo.

 

Bedendo defende a ideia de que “para se entender o que a gente está vivendo hoje, é preciso voltar ao passado.” Então, a história do presente se explica por aquilo que aconteceu no passado e tem uma perspectiva do que vem pela frente. “Na verdade, tudo que a gente vive hoje se constitui da inter-relação de diferentes eras. Isso não significa que uma era superou a outra, pelo contrário, elas coexistem.” Um exemplo são os livros, que passaram do físico para o digital e seguem até hoje com suas funções fundamentais na sociedade. “Quando a gente resgata um disco de vinil, é muito legal, porque você passa a compreender o trajeto até chegar no Spotify. E isso vai, obviamente, trazendo mais conhecimento e mais cultura, principalmente para a formação do jornalista.” A partir de sua própria experiência, ele considera que a memória afetiva e emocional é resgatada ao lembrar que cresceu em um mundo analógico e está vivendo agora em um mundo digital: “Eu me lembro da casa dos meus avós, onde tocava o disco de vinil, tinha aquela televisão mais antiga e eu ouvia o rádio de pilha.” O professor finaliza afirmando que para se inserir no mercado profissional, as pessoas precisam necessariamente se atualizar todos os dias. Mas, se por um lado o futuro exige constante atualização, o passado sempre estará a um clique de distância para nos lembrar de onde viemos.

 

Pensando nisso, convidamos você a deixar o piloto automático de lado por alguns minutos e mergulhar na nossa playlist nostálgica, inspirada em cada uma das histórias, discos e memórias que cruzaram o caminho desta reportagem. https://open.spotify.com/playlist/4VD8rROrYrENPMecHtQkJ2?si=e0ce5f311f5e4db4 
 

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