CULTURA
Conheça as faces do artesanato que movimenta Juiz de Fora
De peças únicas a grandes feiras coletivas, o trabalho manual constrói histórias na cidade
Por Maria Fernanda Braga

Feira São Mateus acontece todos os sábados no bairro homônimo (Foto: Divulgação / Vidas Sem Paredes)
Definida como uma prática que consiste em produzir manualmente objetos de decoração e utilitários, o artesanato ocupa espaço em diferentes cidades do Brasil, como, por exemplo, Juiz de Fora. Seja por peças com EVA, biscuit, materiais recicláveis, pintura em tecido, crochês, tricôs e bordados variados; esse tipo de criação está presente em muitas vidas juiz-foranas, tanto como fonte de renda, quanto como meio de terapia e aprendizado.
De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em 2022 o país somava mais de 8,5 milhões de artesãos, sendo a maioria composta por mulheres que vivem diretamente da própria produção. Por se tratar de um trabalho flexível, é comum a existência de profissionais que vendem suas obras em feiras locais, de maneira independente, sob demanda ou em lojas fixas.
Em Juiz de Fora, foi possível perceber a presença constante de trabalhos em tecido e a produção de objetos de decoração, realizados, principalmente, por mulheres. Assim, alguns locais que reúnem essas obras são a Feira São Mateus, a Galeria Secreta e o Mercado Municipal. Além disso, o grupo Mulheres Empreendedoras Empoderadas (MEE) e o projeto Salte Alto, do Instituto Albert Sabin, auxiliam na capacitação desses profissionais.
A Feira São Mateus
A Feira São Mateus ocorre há mais de 20 anos no bairro São Mateus, próximo ao centro de Juiz de Fora, e reúne 41 barracas de artesãos todos os sábados, das 9h às 14h. “A gente tem uma variedade muito grande de produtos, e por isso há uma divisão por segmentos, como copa e cozinha, costura criativa, acessórios, além de antiguidades e da gastronomia”, afirma o diretor financeiro voluntário da Associação de Artesãos de São Mateus, Nelson Júnior, mais conhecido como Juninho Sobreira.
Juninho lembra que durante muito tempo, o perfil dos expositores era, em sua maioria, de pessoas aposentadas. Poucos dependiam exclusivamente da feira como fonte de renda, sendo mais como um complemento. “Pra mim, o artesanato é muito importante, não só como forma de ganhar dinheiro, mas como um movimento de economia criativa na cidade. Um exemplo disso é o surgimento de várias iniciativas particulares, justamente porque a prefeitura não oferece muito espaço. Mesmo assim, existe uma quantidade muito grande de empreendedores, considerando o tamanho do público consumidor da cidade”. Ele ressalta que nos últimos anos começaram a participar pessoas mais jovens, que estão aprendendo sobre a área.
Atuando na organização da feira há mais de 18 anos, Juninho iniciou na área a partir de vendas de velas artesanais. “Comecei com as velas como uma forma de terapia, por conta da depressão, depois trabalhei com difusores e sabonetes. Hoje em dia, quase não produzo mais, só administro a minha loja em Bichinho, perto de Tiradentes, e a feira de forma on-line. De vez em quando ainda invento alguma coisa pra dar de presente”, relata.
Espaços fixos de artesanato
Fundada no ano de 2015, a Galeria Secreta, localizada no bairro São Mateus, é um espaço colaborativo que contém diversas sessões que expõem produtos de mais de 100 empreendedores locais. Além disso, o ambiente contém diferentes atrativos para o público, como um empório, um café colaborativo e um espaço de literatura.
“A Galeria Secreta tem uma história legal. O nome é porque, na loja, que lembra uma Galeria, tem peças e que, atrás de cada peça tem uma pessoa desconhecida.. uma pessoa secreta”, afirma a artesã e expositora no espaço Gláucia Morato. Ela relata que “a Galeria é composta por boxes de tamanhos variados. Você aluga o box e paga também uma porcentagem sobre cada produto vendido. Em compensação, você não tem custo extra com máquina de cartão, funcionário e publicidade.” A loja funciona de segunda a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados, das 10h às 14h.

Galeria Secreta recebe compradores há 10 anos (Foto: Divulgação / Galeria Secreta)
Dicas de quem entende do assunto

Outro espaço onde é possível encontrar produtos locais é o Centro de Referência do Artesanato, que fica no Mercado Municipal. “O propósito da iniciativa é promover a geração de renda e estimular o empreendedorismo e a autonomia dos artesãos, atuando como uma forma de inclusão desse contingente da população no mercado de trabalho”, defende o Secretário de Desenvolvimento Sustentável e Inclusivo, Ignácio Delgado.
A ocupação do espaço foi realizada por meio de edital e, a partir disso, algumas artesãs locais puderam comercializar suas obras no Centro. Ele contém diversos tipos de produtos, como roupas em crochê, trabalhos educativos com EVA, produtos personalizados, lembrancinhas da cidade e artigos religiosos. O Centro de Referência do Artesanato funciona de segunda a sexta, das 9h às 19h, aos sábados das 9h às 14h e aos domingos, das 9h às 13h.
Centro de Referência do Artesanato recebe artesãs que utilizam variadas técnicas de criação (Foto: Divulgação / Redes Sociais)
Para Ignácio Delgado, o artesanato é uma prática que envolve habilidade, criatividade e singularidade. Assim, ele defende que há um grande potencial de prosperidade para o setor, especialmente se houver incentivo à profissionalização e à incorporação de recursos tecnológicos — como design digital, planejamento de negócios e divulgação on-line — sem perder a essência do fazer manual e do talento individual.
Tal cenário ganha força à medida que esse tipo de produção manual movimenta cerca de R$100 bilhões por ano, aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do País, de acordo com os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Uma rede de apoio e desenvolvimento
Além de espaços físicos e privados, organizações de Juiz de Fora realizam cursos de capacitação de profissionais. Exemplo disso, é o trabalho do Grupo de Mulheres Empreendedoras e Empoderadas (MEE), idealizado pelo Centro Universitário Estácio Juiz de Fora e o projeto social Salte Alto, uma iniciativa do Instituto Albert Sabin.

Grupo de Mulheres Empreendedoras Empoderadas já atingiu mais de 180 mulheres em Juiz de Fora e região (Foto: Divulgação / Acervo pessoal)
Desde 2021, o MEE oferece suporte gratuito a mulheres em cenários sensíveis e recebeu o reconhecimento do município este ano com o “Troféu Mulher Cidadã”. “Além de me colocar em contato com o curso de administração (que me auxiliou muito na parte de marketing), o grupo também me conecta com outras artesãs. É um espaço de troca de experiências, vivências e, inclusive, onde conquistei alunas”, expõe Gláucia Morato, uma das integrantes.
Dona do ateliê GlauciArte, ela conta que desde criança vem aprendendo diversas técnicas. Trabalhando em feiras há 10 anos, atua com costura criativa e utiliza o artesanato como fonte de renda extra.

Grupo de Mulheres Empreendedoras Empoderadas já atingiu mais de 180 mulheres em Juiz de Fora e região (Foto: Divulgação / Acervo pessoal)
O projeto Salte Alto, do Instituto Albert Sabin, visa promover uma noção de autonomia na carreira profissional, para que as mulheres se preparem para ocuparem vagas em empresas. O projeto busca fortalecer competências e encorajar habilidades, de acordo com a organização.
"Sou sócia da Cláudia Braida e temos uma empresa chamada Entre Amigas Ateliê. Começamos a costurar por causa de um curso da Escola de Samba União das Cores. A Cláudia já costurava, mas eu nem conseguia passar a linha na agulha. Com esse curso, a gente foi aprendendo cada vez mais”, relata uma das integrantes Gracienne Moreno.
Maria Aparecida Condé, também integrante do Salte Alto, faz crochê, tricô e também costura. “Eu diria pra quem está começando: não desista, nunca, jamais. Um dia você vende, outro dia não, mas é uma coisa que está dentro de você. Se você ama, faça. O amor é muito grande. Eu não consigo parar, quero mais e mais. Fazer aquilo que você gosta é maravilhoso.”
