SAÚDE
Autocuidado ou autocobrança?
Como o discurso sobre rotinas de bem-estar se transformou em mais uma forma de cobrança e consumo
Por Carolina Itaboraí e Rafaela Lima

Foto: Freepik - Autocuidado diário: hábito de bem-estar ou exigência estética?
Com o crescimento das redes sociais, o autocuidado deixou de ser um simples hábito para se tornar uma verdadeira tendência. Academia, “skincare”, dietas e procedimentos estéticos passaram a ser vistos como essenciais para o bem-estar e a autoestima. Impulsionada por influenciadores digitais e marcas que movimentam a indústria da beleza, essa cultura levanta questionamentos importantes: qual o limite entre o cuidado e a cobrança? Até que ponto esses hábitos são realmente sobre saúde mental, e não sobre pressão estética?
Para falar sobre o tema, conversamos com a dentista Camila Genevain, com as influenciadoras Duda Grazzia e Khaoula Hammoud e com a psicóloga Erlaine Cristina. Elas compartilham experiências e reflexões sobre a rotina de bem-estar, os efeitos da exposição nas redes sociais e os riscos de transformar o autocuidado em mais uma forma de cobrança.
O que é autocuidado ?
Esse conceito remete a um cuidado pessoal, tanto do corpo quanto da mente, visando alcançar bem-estar e autoestima. Isso pode ocorrer através de diferentes formas, desde a adoção de práticas saudáveis, como a musculação, até métodos mais invasivos e arriscados, como cirurgias plásticas e procedimentos estéticos.
De modo geral, priorizar o autocuidado é algo positivo, trazendo benefícios, como mais disposição no dia a dia e maior autoconfiança. No entanto, esse hábito se torna um problema quando deixa de ser uma escolha pessoal e passa a ser uma obrigação, muitas vezes impulsionada pelas redes sociais, que exercem uma forte pressão estética sobre os indivíduos e alimentam a ideia de que é preciso estar sempre melhorando a própria imagem.
Para a influenciadora Khaoula Hammoud, o significado de autocuidado vai além da preocupação com a estética e com o físico, é, principalmente, um cuidado emocional. “É olhar pra mim com outros olhos, com carinho, com paciência. Ninguém melhor do que eu pra cuidar de mim”, afirma.
Pressão estética
Segundo a Pesquisa Global Anual sobre procedimentos estéticos e cosméticos, realizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), em 2023, o Brasil é o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Esse alto número revela que o autocuidado, muitas vezes apresentado como escolha pessoal, pode estar profundamente atravessado por cobranças externas.
Em um cenário onde a aparência é constantemente exposta e comparada, especialmente nas redes sociais, a busca pelo “padrão ideal” deixa de ser apenas uma questão de bem-estar e passa a refletir uma pressão estética constante. Essa pressão é alimentada por influências midiáticas, filtros de Instagram e uma cultura que associa beleza à aceitação social, transformando o cuidado com o corpo em uma exigência quase obrigatória.
A influencer digital Duda Grazzia afirma que já repensou algum conteúdo por medo de incentivar o exagero ou a comparação nos seus seguidores. Situações como essa se tornaram comuns no universo digital e, muitas vezes, podem estimular pessoas a recorrerem a procedimentos estéticos como forma de se enquadrar em padrões idealizados.
Na visão da dentista Camila Genevain, a ideia do que é bonito está mais padronizada: “muitas pessoas querem seguir um modelo de beleza que vêem nas redes sociais, como se só existisse uma forma de ser bonito, mas cada pessoa tem traços únicos, e é isso que deveria ser valorizado”. Para ela, o que funciona para um rosto pode não funcionar para o outro, e como profissional é fundamental saber lidar e explicar essa questão quando um paciente a procura em busca de procedimentos estéticos.

Arquivo Pessoal de Camila Genevain - Planejamento e análise facial são etapas fundamentais antes do botox.
Indústria do bem-estar
De acordo com os dados da pesquisa A Economia Global do Bem-Estar, do Global Wellness Institute (GWI), no Brasil, o mercado de bem-estar movimentou cerca de 96 bilhões de dólares entre 2020 e 2022. Nesse período, o segmento que mais movimentou dinheiro foi o de cuidados pessoais e beleza, um setor que tende a crescer cada vez mais no país.
A ascensão desse mercado reflete uma mudança cultural: cuidar de si se tornou uma obrigação e uma mercadoria. Não basta descansar ou comer bem. É preciso ter uma rotina de skincare de sete passos, frequentar academias boutique, consumir suplementos, fazer procedimentos estéticos regulares e, de preferência, compartilhar tudo isso nas redes. O bem-estar virou um estilo de vida e um nicho altamente lucrativo.
Os limites do autocuidado
Apesar de parecer inofensivo, o discurso do “autocuidado” pode facilmente escorregar para um lugar de cobrança e insatisfação. A psicóloga Erlaine Cristina alerta que “todo excesso é prejudicial” e que o limite entre o cuidado saudável e a obsessão estética é subjetivo: depende da cultura, rotina e estrutura emocional de cada pessoa. “Quando práticas sociais e laborativas passam a ser negligenciadas em função do autocuidado, ele deixa de ser saudável”, explica. Para ela, um dos sinais de alerta é quando a pessoa se torna ansiosa, sente-se sempre em dívida consigo mesma ou valoriza mais o resultado do que o processo.
Khaoula reconhece esse cenário: “Já me obriguei a treinar mesmo exausta, achando que isso era autocuidado, quando na verdade era pura autocobrança.” Para ela, a pressão para manter uma rotina perfeita é constante, especialmente para quem trabalha com a própria imagem. “Parece que existe uma vida ideal, mas não é assim. Hoje entendo que não adianta me forçar a viver algo que não combina comigo.”
Equilíbrio e naturalidade
A busca por um ideal inatingível, impulsionada por rostos cada vez mais padronizados, gera frustração e distorções na autoestima. Para a dentista Camila Genevain, que realiza procedimentos como botox, facetas e clareamento dental, essa padronização é visível na clínica. Também destaca que, como profissional, é sua responsabilidade orientar o paciente com sinceridade. “Já recusei procedimentos por perceber insegurança. Se a pessoa nem sabe o que quer, não faz sentido seguir em frente. É preciso conversar, explicar os riscos e, às vezes, pedir pra pensar melhor.”
O que a preocupa é ver pessoas colocando a estética acima da saúde: “Às vezes querem fazer tudo de uma vez (botox, faceta, clareamento) sem cuidar da gengiva ou da higienização. O autocuidado virou aparência, quando deveria começar pela saúde.”
Khaoula também percebe uma mudança de mentalidade. “Antes, parecia que todo mundo precisava ter lente, botox, o ‘rosto perfeito’. Hoje, vejo cada vez mais pessoas buscando naturalidade, tirando procedimentos, como sobrancelhas muito marcadas e harmonização facial. Na minha opinião, beleza é olhar no espelho e gostar do que vê, não o que é bonito pra todo mundo.”

Foto: Instagram @khaoula_hammoud - Khaoula em sessão de remoção de micropigmentação das sobrancelhas.
O real autocuidado
Khaoula reforça essa ideia com a própria experiência: “Hoje foco no que realmente faz sentido pra minha vida. Gosto de cuidar da pele, sim, mas sem exagero. Faço o que funciona pra mim, nada inventado. Isso é o que me mantém bem.” Sua rotina inclui hidratação, vitaminas, limpeza de pele e esfoliação. Sempre de forma leve. “Não durmo de maquiagem e isso já é muito. O resto, só se fizer sentido.”
Para Erlaine, a melhor versão de si mesmo não deve ser ditada pelos outros, mas sim aquela construída com base em quem você é, não no que o mundo quer que você seja. Afinal, entre o cuidado e a cobrança, há uma linha tênue. E respeitar esse limite pode ser, no fim das contas, o maior gesto de autocuidado possível.
