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CULTURA

Leitura no Brasil: em qual capítulo a arte de ler se encontra?

Conheça projetos que incentivam a democratização do acesso aos livros

Por André Pires e Maria Luiza Costa

Desde às antigas escrituras aos livros pirateados que lemos nas telas dos nossos celulares e computadores, milênios vêm e vão e, mesmo entre trancos e barrancos, a arte da leitura nunca fraquejou nem demonstrou sinais de que se tornaria antiquada. Sim, a arte da leitura, mais do que fonte de lazer ou aprendizado, é a arte de brincar com a alquimia que fazemos com as palavras; de construir e se imaginar em diferentes realidades com o poder da imaginação; de ser atravessado por histórias que fazem a carapuça servir e reverberam com a forma como encaramos a vida. É o delicioso se esvaziar de si e se preencher com outras palavras e olhares que não os nossos, mas que podem, sim, se tornar ‘nossos’ através do “toque de Midas” da arte. 

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Sebo Aluados em Cataguases. Pendurados entre as prateleiras, poemas escritos por moradores da cidade para o concurso de lírica do sebo. Foto: André Pires

Um dado da Câmara Brasileira do Livro relata um suposto aumento na quantidade de leitores no Brasil: 18% das pessoas comprou pelo menos um livro em 2025. Quais eram esses livros? Eles foram realmente lidos do começo ao final? Quantas páginas essas pessoas leram por dia? Independentemente das respostas e de ainda termos muito terreno para capinar, esse número já representa uma grande mudança de capítulo. Em 2024, esse percentual foi de apenas 16%. Entre um ano e outro, houve um crescimento de três milhões na quantidade de leitores no país.

 

Do outro lado da moeda, a pesquisa Relatos da Leitura no Brasil indica que contamos com apenas 93,4 milhões de leitores em atividade. Esse número representa 47% da nossa população, enquanto, em 2007, beirava os 55%. A pesquisa ainda traz um clímax pessimista: nos últimos quatro anos, perdemos 6,7 milhões de leitores. Esse número inclusive gera preocupações sobre o aumento do analfabetismo funcional e das dificuldades de interpretação e compreensão entre o público.

 

Considerando esses sucessivos encontros e desencontros da leitura com os nossos tempos, como podemos elencar o panorama em que a prática se encontra? Será que, em tempos futuros, o único conteúdo literário que vamos ter à nossa mercê serão legendas de Instagram feitas pelo ChatGPT e mensagens motivacionais no WhatsApp?

Formar leitores, não só consumidores de livros

Se os números sobre a leitura no nosso país parecem contraditórios, algumas iniciativas mostram que o interesse pelos livros talvez esteja relacionado à falta de oportunidade. Em uma escola municipal localizada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a professora de geografia Marina Cunha Rodrigues vem provando isso na prática. Apaixonada por literatura, ela sempre sonhou em criar um clube do livro para seus alunos. O projeto, porém, esbarrava em um obstáculo comum à realidade de muitos educadores brasileiros: a falta de recursos. “Livro é caro. Se é caro para mim, imagina para jovens da rede municipal que não trabalham”, relata.

 

A oportunidade surgiu de forma inesperada. Durante uma conversa na escola, um benfeitor, se interessou pela ideia e ofereceu os primeiros 20 livros para que o projeto pudesse sair do papel. A partir dali, o que começou como uma pequena iniciativa ganhou proporções maiores. Vídeos publicados nas redes sociais mostrando os alunos comemorando a chegada dos livros chamaram atenção de leitores de diferentes partes do país, que passaram a doar exemplares novos e usados para o clube.

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Unboxing dos novos livros do Clube com os alunos. Foto: Arquivo Pessoal Marina Cunha

Nos últimos anos, a leitura encontrou nas redes sociais um espaço de divulgação sem precedentes. O principal exemplo é o BookTok, uma comunidade formada por leitores dentro do TikTok que compartilham resenhas, recomendações e reações a livros. Em 2025, a hashtag #BookTok acumulava cerca de 370 bilhões de visualizações e mais de 52 milhões de publicações na plataforma, consolidando-se como um dos maiores espaços de discussão e divulgação literária na internet. 

 

O fenômeno tem impacto direto no mercado editorial brasileiro. De um lado, contribui para aproximar novos leitores dos livros, popularizando títulos e estimulando o hábito da leitura entre jovens. Do outro, também recebe críticas por associar a experiência literária ao consumo constante de novos exemplares, edições especiais e coleções. A discussão ganha relevância diante dos dados econômicos do país: enquanto o faturamento das editoras brasileiras cresceu 7,7% entre 2024 e 2025, o rendimento mensal da população aumentou 5,4% no mesmo período. A diferença sugere que, embora o mercado de livros esteja em expansão, acompanhar esse consumo pode se tornar cada vez mais difícil para parte dos brasileiros.

 

Então, surge uma questão que também apareceu durante a entrevista com a professora Marina: a diferença entre formar leitores e formar consumidores de livros. Embora reconheça a importância da divulgação literária nas redes, a educadora defende que o contato com a leitura não deve estar ligado à compra constante de novos títulos. Ela revela que deseja que os alunos descubram se gostam de ler, do que gostam de ler e que o objetivo não é fazer alguém comprar livros, mas mostrar que a leitura pode ser algo prazeroso.

 

Hoje, o acervo do clube reúne quase 400 livros e continua crescendo.  A professora destaca que muitos estudantes nunca haviam tido contato frequente com livros fora das leituras obrigatórias da escola. Um dos episódios que mais a marcou aconteceu logo na primeira reunião do clube, quando um aluno, conhecido por nunca demonstrar interesse por leitura, decidiu participar e foi questionado pelos colegas, mas respondeu: “Eu nunca li mesmo, mas agora tenho a oportunidade de começar”. Segundo Marina, muitos jovens não rejeitam a leitura, eles simplesmente nunca tiveram a chance de experimentá-la de forma significativa. Por isso, o trabalho do clube não se resume apenas no empréstimo dos livros. Os alunos recebem orientações de acordo com seus gostos pessoais, hábitos culturais e faixa etária, para encontrar maior identificação com a leitura.

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Estudantes participantes do clube do livro, leem após concluir as atividades em sala de aula. Reprodução: Arquivo Pessoal Marina Cunha

Os resultados já são perceptíveis dentro da escola. Estudantes que antes passavam o recreio sem atividades agora podem ser encontrados lendo pelos corredores e pátios. Outros, que não eram alunos de Marina, começaram a procurar espontaneamente o clube para participar. “Tem gente que chega e fala: ‘Você não me conhece, mas eu queria entrar no clube’. Isso é muito marcante”, conta.

 

Embora a escola possua uma sala de leitura, a falta de profissionais responsáveis por ela limita o acesso dos estudantes aos livros fora do ambiente escolar, já que não é possível levá-los para casa. E por isso o clube criado pela professora é tão essencial. Mas apesar dos avanços, ela demonstra preocupação com o futuro da iniciativa, pois manter o acervo, organizar os empréstimos e garantir que novas gerações de alunos tenham acesso aos livros exige apoio constante. O projeto, que funciona durante o horário de almoço da professora, não possui financiamento público e é sustentado principalmente por doações e investimentos pessoais. Sem apoio institucional, sua continuidade depende da mobilização de leitores e da dedicação de quem acredita que o acesso aos livros pode transformar trajetórias.

Sociedade dos Poetas Mortos

Assim como o artista deve estar de coração aberto para o mundo e os colegas de profissão ao seu redor para que sua arte persevere, o escritor deve estar antenado com o seu público para saber em quais braços aquilo que ele está escrevendo vai cair (e vice-versa). Nunca um sem o outro. Enxergamos essa relação como um yin-yang, um jogo de forças em que o significado da arte só passa a existir a partir da fusão entre aquilo que o artista idealiza para sua obra e o que o público absorve dela.

 

Considerando a arte como laços que nos unem, achamos válido questionar se as dificuldades que nos afastam da leitura também afetam aqueles que escrevem? Afinal, um dos únicos requisitos para ser um artista é ser humano. Sentir e doer o mundo e refletir isso na arte. Levando isso em conta, o que exclui os artistas de também terem seu processo criativo afetado por dificuldades psicológicas e financeiras? Será que a leitura está tão precarizada porque os escritores e leitores vêm doendo em uníssono?

 

João Scaldini é escritor em Juiz de Fora e trabalha nesse ramo desde quando era jovem adulto. Ele explica que, como muitos dos autores precisam de outro trabalho além da escrita para se manter, tempo e energia se tornam limitados, e escrever pode deixar de ser um hobby e se tornar uma tarefa abrasiva e cansativa. Para o autor, isso pode ser evitado pela conciliação na rotina.

 

Quanto a sua experiência pessoal, João explica que sempre teve como inspiração muitos professores e jornalistas, que trabalhavam com prazos curtos e pouca disposição, como referência. “Às vezes, você se adapta a essas condições insalubres de sobrecarga. Mas isso te dá uma perspectiva de disciplina. Te faz entender que se você não fizer o seu trabalho todo dia, você não consegue resultado”, ele reflete.

 

O escritor também denuncia os contratos desfavoráveis com editoras como outros elementos que tornam o trabalho com a literatura precário. A desvalorização da produção literária, remuneração escassa e complexidades burocráticas com direitos autorais e royalties afastam muitos artistas da possibilidade de publicar os seus livros.

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Mesa redonda: escrever e publicar hoje - da criação à circulação. No debate, escritores locais expuseram dificuldades enfrentadas no mercado editorial e estratégias para persistir com a escrita em um espaço onde ela não é tão valorizada. Da esquerda para a direita: Daniel Medeiros, Fernanda Castilho, Júlia Gama e João Scaldini. O evento foi um oferecimento da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. / Foto: André Pires

O artista lançou seu primeiro livro, “Pedra no Caminho”, em 2017. Depois de pesquisar diferentes formas de publicação, a opção que lhe pareceu mais vantajosa foi usar o serviço de publishers da Amazon, o KDP (Kindle Direct Publishing). Embora reconheça a empresa como uma facilitadora no processo, ele reconhece que o acordo não foi tão favorável para ele como imaginado. “A Amazon te oferece uma ferramenta que estrutura todo o seu processo e o seu livro. Em troca, a plataforma fica com parte dos seus lucros, direitos autorais e consegue outras vantagens em cima desse material”, ele desabafa.

 

No mercado da Amazon, João pôde perceber que concorria com inúmeros outros livros e produtos. Suas expectativas de que seus trabalhos deslanchariam na plataforma foram frustradas. “Migrei totalmente para o cenário independente porque percebi que essa capilaridade menor fazia mais sentido com o tipo de projeto que eu queria entregar. Algo mais artesanal, direto para o público e sem as grandes pretensões que eu tinha no início. Comecei a ter mais paciência“, revela.

 

Ainda em 2017, João Scaldini publicou outro livro, ‘A Pergunta no Espelho’. Dessa vez, sob selo independente: ficou responsável pela arte de capa, diagramação e editoração. Embora brinque que o processo ocorreu de forma amadora e cite decisões diferentes que tomaria, percebe que isso o ajudou a repensar seu segundo lançamento independente, ‘Réquiem para um Amor”, de 2024.

 

Para arcar com os custos das publicações, financiamentos coletivos e captação de recursos pré-venda entre seu público se tornaram estratégias produtivas. “Todos que compraram o Réquiem para um Amor têm seus nomes nos agradecimentos e meio que fazem parte daquelas histórias”, ele relembra.

 

Durante a época de lançamento, João conseguiu articular a possibilidade de doação de livros para a realização de oficinas de leitura em escolas públicas da cidade. No mesmo estilo feito no filme Sociedade dos Poetas Mortos, pelo professor Keating. Ao invés de seguir o cronograma excessivamente opressivo e antiquado no internato Academia Welton, o tutor propunha oficinas e dinâmicas inspiradoras em suas aulas, que verdadeiramente dialogavam com a realidade dos alunos, ensinando que a educação não era um fardo, mas uma ponte que os permitiria realizar seus sonhos.

 

Com a parceria, João recebeu recursos para realizar oficinas em 10 instituições. Até o momento, o escritor já pôde construir novas histórias com o PEMSE (Pólo de Evolução de Medidas Socioeducativas), a Escola Municipal José Calil Ahouagi, a Escola Municipal Santos Dumont e o Instituto Amargen. Embora o projeto tenha sido inicialmente idealizado como temporário, João explica que conteve sua pressa para encerrá-lo rapidamente. Isso se deu por causa da inesperada adesão dos estudantes e da vontade do escritor em realizar esse trabalho de forma mais eficiente e duradoura.

 

Voltando aos índices do hábito da leitura no Brasil, outro decréscimo observado foi o do prazer encontrado na arte de ler. Em 2019, 31% das pessoas consultadas pelo Instituto Pró-Livro afirmaram gostar de leitura (o que por si só já é assustador). Em 2024, esse percentual despencou para 26%. Entre o limitado público que ainda vê lazer na leitura, 87% são crianças de 5 a 13 anos. Já entre aquele que desgosta da atividade, 57% é composto por pessoas acima dos 50 anos.

 

Levando em conta que a maior parte do público que ainda lê no Brasil diz ter levado a prática adiante por influência da família na juventude, talvez movimentos como as oficinas literárias aplicadas por João representem uma estratégia eficaz para ampliar esse público . Para que tenhamos adultos leitores, o primeiro passo necessário é garantir que eles cresçam como crianças leitoras. “Se a gente forma leitores, a possibilidade do que eles podem fazer aumenta muito. A literatura amplia o horizonte das crianças como nenhuma outra atividade”, o escritor explica.

 

Diante dos extremos entre a falta de incentivo para que os jovens leiam, e a forma excessivamente burocrática que as escolas inserem a leitura na rotina dos alunos (além, óbvio, do instinto natural desses em se rebelar contra quaisquer figuras de autoridade), João considera as oficinas pontuais para conter o ruído deixado por incentivos ineficazes. “A ideia é mostrar que ler também pode ser interessante e divertido. Com o tempo eles vão gostando de se engajar, de mostrar que sabem, de que tem o que dizer a respeito do que estão lendo, de que tem opiniões e referências próprias sobre o que lêem”, o autor comenta.

 

Ainda com tantas iniciativas, João considera que um dos maiores déficits que afasta as pessoas da literatura é o fato dela ser cult, mas não pop. “A música é pop. O cinema é pop. Mas a literatura se tornou enviesada por essa perspectiva”. Para que a literatura dialogue mais com a realidade das pessoas, João sugere o barateamento dos livros, a ampliação do reconhecimento das diferentes expressões literárias e o incentivo à formação de comunidades de leitura como bons começos.

A união faz a força: como fazer a diferença?

Filmes brasileiros vêm sendo cada vez mais prestigiados, alcançando bons números de bilheteria e sendo aclamados pela crítica. A música produzida por aqui também se encontra em um de seus melhores momentos. A MPB caiu nas boas graças da nova geração e ouvir Jorge Ben Jor se tornou mais cool do que ouvir Radiohead. Nossos artistas vêm ganhando destaque no mercado e as pessoas finalmente estão de mente aberta para conhecer novos talentos.

 

De acordo com a Câmara Brasileira do Livro, entre as categorias consumidas no Brasil em 2025, 27% dessas foram telefones celulares, e 21% ingressos para cinema. Quanto aos livros, o percentual registrado foi de 18%. Por que a literatura não está seguindo esse ritmo? Contamos com a sorte de ter bons lançamentos literários: mas onde está o reconhecimento merecido e o discurso de “apoiar produções locais”? Como João já disse, o cinema e a música já são pop. Será que o que falta para a literatura é também ser pop?

 

Além da elitização e da institucionalização excessivas, pode ser que outro aspecto desfavorável da leitura seja o quão solitária essa arte pode ser. Em uma era de hiperconectividade, em que sempre existe algum “pão e circo” para se alienar ou algum assunto fútil para meter o bedelho, aceitar a solidão e se recolher na quietude de um livro pode ser o maior medo das pessoas. Mas a jornada não precisa ser de um só soldado! Ainda falando em conexões excessivas, existem várias comunidades on-line em que leitores se reúnem para debater obras de seu interesse e são sempre receptivos com novas vozes e discussões. Praças digitais afetivas surgem em torno de um propósito em comum: os livros e as conexões que fazemos a partir deles.

 

Mas se for para sair das telas e frear um pouco do apodrecimento que elas vêm causando no nosso cérebro, juntar a um clube do livro presencial é uma boa possibilidade. Aqui em Juiz de Fora, o Book Room é uma nova iniciativa que busca trazer mais leitura para a cidade.

 

O projeto começou como uma brincadeira feita no TikTok da sua fundadora, Victória Fernandes. Além de leitora ávida, Victória tem 22 anos e é estudante de Publicidade e Propaganda no UniAcademia. Ela postou uma sequência de fotos dizendo para seus seguidores que planejava criar o clube. A postagem atingiu proporções para além do que Victória imaginava e várias pessoas se interessaram. O grupo de WhatsApp do Book Room, em que são feitos os comunicados e marcados os encontros, conta atualmente com 220 integrantes.

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Encontro do clube do livro realizado no mês de maio. No Museu de Arte Moderna Murilo Mendes, integrantes do Book Room debateram suas interpretações e impressões deixadas pelo clássico "O Morro dos Ventos Uivantes". / Foto: Mariana Almeida

Desde as primeiras ideias do clube, Victória sempre teve em mente que não haveria limitações de quem poderia participar. “Eu não queria que fosse só para mulheres nem para pessoas de determinada faixa etária”, diz. A fundadora ainda comenta que essa diversidade é um dos aspectos mais únicos do clube. Através de trocas com pessoas diferentes, quem participa do clube pode enxergar ideias e sentimentos semelhantes entre si e perceber, através da literatura, que não são tão diferentes quanto imaginam.

 

Por perceber que a literatura vem se tornando cada vez mais elitizada, Victória faz questão de que as atividades do clube do livro sejam gratuitas. “Eu vejo muitas atividades culturais que eu gostaria de fazer, mas reconheço que não cabem no meu bolso. O clube do livro veio dessa revolta: eu quero que quem não tenha dinheiro também possa participar”, desabafa. Essa frustração remonta Victória de sua própria infância. Em meio à precariedade, a literatura representava uma válvula de escape em que ela poderia imaginar possibilidades mais dignas para sua vida.

 

Devido à rotina exaustiva, a criadora do clube diz que sentia muita falta de motivação para ler. “Agora, com o Book Room, eu coloco em mente que preciso ler para participar dos debates e logo arrumo disposição”, comemora. As primeiras impressões dos participantes do clube com os encontros vêm sendo “muito gostosas”, nas palavras da própria Victória. Seu único remorso é o de não ter disponibilidade para se dedicar ao Book Room. “Eu gostaria muito de ter tempo para produzir alguns conteúdos para as redes sociais sobre os livros que a gente lê, mas fica para planos futuros”, promete.

Epílogo

Tendo as histórias de Marina, João e Victória em mente, quais considerações conseguimos fazer a respeito da situação em que a leitura se encontra no Brasil? Será que estamos mesmo condenados a uma eternidade com Café com Deus Pai, ou temos bons autores e livros com que podemos contar? Mesmo que os empecilhos não sejam poucos, essas estratégias brotam como sementes em rachaduras e nos mostram que ainda há, sim, agentes preocupados em relembrar o caráter libertador e formador da leitura. Ainda não chegamos lá, mas juntos, temos certeza de que podemos escrever bons capítulos e contar e ouvir histórias cada vez melhores.

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