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CULTURA

Como os brechós e os bazares podem ajudar você a encontrar o seu estilo

Peças com história, moda consciente e a construção de um guarda-roupa com identidade

Por Taís Alves

A moda de brechó (1).gif

Algumas das roupas achadas pelas entrevistadas nos bazares e brechós da cidade

Em tempos de fast fashion acelerado e coleções que mal chegam aos cabides antes de serem substituídas, uma nova (ou velha) forma de consumir moda ganha força entre as gerações mais jovens: os brechós e bazares. Esses espaços de garimpo, que unem moda, sustentabilidade e história, vêm se consolidando como verdadeiros laboratórios de estilo.


De acordo com o Conselho Federal de Administração (CFA), o número de brechós ativos no Brasil ultrapassa os 118 mil, um aumento de 31% nos últimos cinco anos. Segundo a projeção da Folha de São Paulo feita em 2022, o setor pode ultrapassar o fast fashion no país até 2030. Entre os principais responsáveis por esse fenômeno estão os consumidores da geração Z, nascidos entre 1997 e 2010, que vêm recorrendo com frequência aos brechós e canais de revenda, segundo dados da WGSN Brasil.
 

Para Aline Honorato, estudante de Cinema, o encanto está nas peças com personalidade. “O que mais me atrai nos bazares e nos brechós são as roupas de personalidade, que fogem do óbvio e do que está nas grandes lojas. Os produtos que eu encontro nesses lugares são como tesouros escondidos, cada peça tem algo único”, afirma.


Essa busca por exclusividade é um dos motivos pelos quais os brechós vêm ganhando um novo status dentro do universo da moda. “Você vai nessas lojas de departamento que a gente conhece. Tem muita coisa de sequência. O brechó lhe dá uma vantagem de você ver roupas diferentes. São roupas únicas, exclusivas. Peças que você não encontra em outro lugar”, diz Karla Peçanha, de 62 anos, proprietária do Espaço K Brechó. “Você não sabe o que vai encontrar. Isso acaba movimentando muita gente.”

A diferença entre brechó e bazar

Embora muitas vezes usados como sinônimos, brechós e bazares têm propostas distintas. Os brechós costumam ser lojas fixas, com curadoria especializada e um olhar mais atento para moda e estilo. Muitas vezes, as peças são organizadas por tipo, tamanho ou estação, facilitando o garimpo.

É o caso do Brechó das Etiquetas, administrado em Juiz de Fora por Ariele Dutra. O espaço começou pequeno, com roupas da própria família, e hoje se tornou uma boutique de segunda mão. “Muita gente ainda chega com preconceito, esperando encontrar peças velhas ou fora de moda. Faço questão de surpreender: nossas roupas passam por um processo de curadoria e são apresentadas de forma sofisticada”, afirma Ariele.

Já os bazares têm, geralmente, um caráter social ou comunitário. Podem ser temporários, promovidos por ONGs, igrejas ou instituições beneficentes. Ana Paula Cassimiro, de 43 anos, é responsável pelo Bazar Arco-Íris, também em Juiz de Fora, que começou como um projeto voltado ao acolhimento da população LGBTQIAP+ e hoje se transformou em uma fonte de renda. “Muita gente procura nossos bazares em busca de itens com memória afetiva. Cada peça carrega histórias”, diz Ana Paula.

Gabriela Felix, formada em Moda, explica as diferenças entre brechó e bazar

Segundo Marta Helena de Resende, coordenadora do Bazar da Fundação Maria Mãe, essa mudança de olhar impactou diretamente as doações e o engajamento da comunidade. “Hoje, recebemos muito mais doações e voluntários. As pessoas entendem que doar e comprar em bazares é uma forma de fortalecer causas sociais”, afirma.

O estilo que nasce do garimpo

Encontrar o próprio estilo nem sempre exige uma visita ao shopping ou seguir as vitrines das grandes redes. Para a Geração Z, essa descoberta está nas referências, nas roupas antigas das famílias e até mesmo no autoconhecimento.

Amanda Soares, estudante de Moda da UFJF, encontrou nas roupas da mãe e da tia a base do que viria a ser seu estilo pessoal. “Acho que o autoconhecimento é o mais importante. Criei referências no Pinterest e passei a buscar em brechós peças que refletissem minha personalidade. Mas é sempre bom começar pelas peças coringa.”

Fernanda Ferrari, professora de moda da UniAcademia, reforça que essa relação com o vestir vai além da aparência: “Relacionar moda com expressão da individualidade é comum, mas ela também está atrelada ao social. É uma identificação do indivíduo com um grupo que compartilha gostos e valores semelhantes”.

Para Fernanda, o crescimento dos brechós e bazares representa um movimento coletivo: de revalorização do passado, de práticas mais sustentáveis e de escolhas conscientes. “Há um aspecto econômico importante, claro, mas também um viés afetivo. A roupa pode carregar memória, história, e o processo de identificação não é só com a peça — é também com quem compartilha daquele mesmo olhar.”

“Depois que comecei a frequentar brechós e bazares, percebi que passei a me expressar muito mais através da roupa. Encontrar peças que tenham mais a ver comigo, com meu gosto e com minha visão estética, principalmente aquelas com um toque vintage." diz Aline.

Dicas de quem entende do assunto

Respostas das entrevistas

Com o aumento do interesse por roupas de segunda mão, o garimpo virou quase um ritual. Maria Eduarda Xavier, estudante de Letras da UFJF, acredita que a chave é se permitir experimentar. “Cada lugar tem uma curadoria diferente. É preciso testar de tudo para descobrir o que combina com você.”
 

Aline complementa que ter referências visuais ajuda. “Sempre penso em looks que vi em filmes, em pessoas que sigo nas redes ou em décadas que admiro. Isso me ajuda a imaginar como cada peça pode funcionar no meu estilo.”
 

Amanda reforça a importância de dedicação ao processo. “Você não encontra uma peça incrível em dois minutos. É preciso paciência.”
 

As três compartilham dicas essenciais para quem deseja se aventurar nos achados:

  • Tenha paciência: boas peças podem estar escondidas;
     

  • Explore tudo: olhe cada arara com atenção;
     

  • Sinta os tecidos: evite materiais que não te agradam, observe a etiqueta;
     

  • Leve referências: isso ajuda a visualizar combinações e evita compras por impulso;
     

Experimente sempre que possível: o caimento faz toda a diferença.

A influência das redes sociais

Com a popularização do consumo consciente, muitos criadores de conteúdo também passaram a divulgar suas experiências com brechós e bazares. Marcelo Castellani, estudante de Moda da UFJF, ganhou visibilidade nas redes sociais mostrando seus looks montados a partir de achados em bazares da cidade. O sucesso o levou a divulgar promoções, estabelecimentos e endereços para seguidores interessados nesse tipo de consumo.


Seguindo a mesma linha, a estudante de Moda da UFJF, Breia Ferr, responsável pelo perfil @breiaferr compartilha o dia a dia universitário, vídeos de “arrume-se comigo” e dicas de achadinhos. Sua produção de conteúdo tem fortalecido o comércio de roupas usadas, aproximando o público de práticas de consumo mais acessíveis e conscientes.

O futuro da moda de segunda mão no Brasil

Há uma mudança cultural em curso: o que antes era visto como alternativa para quem tinha menos recursos, agora é reconhecido como uma escolha de estilo. De acordo com o relatório anual do ThredUp, um dos maiores marketplaces de moda usada dos Estados Unidos, o mercado global de roupas de segunda mão deve alcançar US$ 367 bilhões de dólares até 2029, com uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 10%.

No Brasil, iniciativas como o crescimento de plataformas de revenda digital, como Enjoei e Repassa, reforçam essa tendência. Com a expansão de plataformas digitais, o garimpo ganha novas possibilidades, conectando consumidores a curadorias cuidadosas, seja no ambiente físico ou online. O futuro da moda de segunda mão no país aponta para uma fusão entre tecnologia, propósito e estética — onde valor não se mede apenas pelo novo, mas pela história que cada peça carrega.

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