COMPORTAMENTO
O ônus da responsabilidade: a saudade de casa em contraste com o trabalho
Longe da família e amigos, muitos jovens sentem dificuldades de voltar para
casa durante as férias da faculdade por causa das obrigações no estágio
Por Nathan Marcelino
Sabe aquele momento típico de seriado onde o sinal da escola toca anunciando o começo das férias? Pessoas correndo, planejando as viagens e se divertindo com os amigos? Esse sonho de verão, inspirado em séries e sitcoms, se torna um pesadelo para os estudantes que saem de casa para estudar em outra cidade e jogam fora os planos de descanso das aulas por causa de outros compromissos, entre eles, o estágio. Com o calendário igual a de um empregado e, em alguns casos, ganhando menos de meio salário mínimo, a falta de flexibilização pode transformar a oportunidade de aprendizado em um martírio.
Se mudar para fazer faculdade em uma cidade estranha é enfrentar o desconhecido. Normalmente, a saudade de casa, no princípio, é sazonal, mas com o passar do tempo, as responsabilidades e os encargos que o sonho de seguir na área em que o aluno escolheu estudar tornam a volta para o lar mais raras.
Para os estudantes de Design do Instituto de Artes e Design (IAD) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Vinícius Ferreira e Bruna Souza, a rotina longe da família já virou comum. Ambos fazem estágio na Secretaria de Comunicação (Secom) da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) e tentam conciliar a rotina do estágio com as viagens para ver a família.
Natural de Manhuaçu, do outro lado da Zona da Mata mineira, Bruna alega já ter se acostumado de certa forma com a rotina do estágio e dos 290 km que separam o município natal de Juiz de Fora: “Como é muito longe, não vou com muita frequência e acabei me acostumando. No início da faculdade eu sentia muita falta. Vim sem conhecer ninguém aqui e ainda me sinto um pouco sozinha”, relata. A jovem lembra já ter sido estagiária dentro da UFJF, onde seguia o calendário da Universidade. Na repartição pública, é a primeira vez que seguirá trabalhando durante as férias da instituição de ensino.

Bruna ao lado da avó em Manhuaçu (Foto/Arquivo Pessoal)
De acordo com Ferreira, o sentimento é parecido. Fluminense – tanto no gentílico, quanto no time de coração –, o jovem nascido na cidade de Resende, região Sul do estado do Rio de Janeiro, compartilha um sentimento similar com a colega de faculdade.
“Vejo meus pais ainda quando eu viajo ou quando eles vêm para Juiz de Fora, mas o restante da família é mais complexo. Eles só se reúnem em feriados como o Natal e Ano Novo. Por isso fiquei preocupado com o calendário do estágio no fim de ano”, comenta. O calendário no qual ele se refere é o da prefeitura, que a princípio funcionará nos dias 29 e 30 de dezembro.
No meio do caminho havia um estágio
A rotina dos dois estagiários é de como qualquer jovem. Bruna estuda durante a tarde e à noite, enquanto tenta manter uma rotina saudável na academia e se reunir com os amigos. Já Vinícius, além da faculdade e do trabalho, toca em uma banda que se apresenta cerca de quatro vezes ao mês. Dessa forma, ambos tentam canalizar o estresse da rotina nova na cidade enquanto guardam lembranças da cidade natal.
No olhar de quem fica, ver o filho lidar com a faculdade, estágio é um misto de sensações. Para a profissional de Educação Física e mãe de Vinícius, Roseli Ferreira, a melhor forma de lidar com a distância é tentar se comunicar diariamente: “Acompanho por vídeo chamada ou conversas por whatsapp toda a rotina na faculdade, nos cuidados de casa e também no trabalho”, afirma.
Segundo Roseli, o estágio é uma forma do filho criar independência financeira mas critica a forma como o serviço atrapalha a dinâmica para o jovem voltar para Resende: “Deveria ser mais flexível. A viagem de ônibus é a mais viável economicamente, mas por causa do estágio fica pouco viável porque o tempo gasto na estrada é maior”, comenta. O jovem atua como estagiário de Design na prefeitura local de segunda a sexta, e nessa circunstância, só conseguiria ir para o sul Fluminense no sábado à tarde para voltar à Juiz de Fora já no domingo. A mãe de Bruna, Gislaine Souza, também acredita que o estágio deveria ser mais flexível em relação às férias da faculdade. A profissional do setor financeiro diz que o serviço dos jovens deveria ser melhor remunerado, já que, segundo ela, mesmo estagiando por quatro horas, a filha trabalha tanto quanto um contratado. Hoje, o salário de estagiário na Secretaria de Comunicação da PJF é de 500 reais, menos de um terço do valor do salário mínimo atual, que gira em torno de R$1518,00.

Vinícius e família em Resende (Foto/Arquivo Pessoal)
Basta saber ter gestão
A Lei Federal 11.788 de 2008, regulamenta o estágio como parte do projeto pedagógico do curso escolhido pelo estudante. Essa legislação determina a atividade profissional ligada ao processo de aprendizado do aluno, de forma que ele se insira no mercado de trabalho de forma gradual e sem a mesma pressão que um contratado possui.
Ex-professor da Faculdade de Comunicação (Facom) da UFJF e atual Secretário da Secretaria do Bem-Estar Animal (Sebel), Márcio Guerra compartilha a opinião que o estágio deva ser uma forma pedagógica de se inserir no mercado de trabalho: “Eu passei pelo estágio e vivenciei na prática o que via na faculdade. Quando fui para a Prefeitura, tinha 40 estagiários. Foi muito bom vê-los mostrando as qualidades e a vontade de aprender. Isso é de uma riqueza inestimável”, comenta.
Para Guerra, é possível que haja flexibilização nos horários dos jovens que estão começando a vida fora de casa durante as férias da faculdade: “É natural sentir saudade da família. É possível resolver essa situação como gestor, fazendo trocas de horários durante as férias para que eles consigam viajar. Basta saber ter gestão”, argumenta.
Um olhar sobre a solidão
Os males emocionais que a ausência da família e os amplos afazeres da rotina universitária junto com o mercado de trabalho interferem na vida dos jovens são temas de discussões na área da psicologia. A terapeuta Júnia Amaral, ressalta a importância de encontrar mecanismos para ressignificar a saudade do lar: “É importante o jovem pensar que a distância também é uma escolha além da faculdade. Lembrar qual o objetivo de vida que te fez ficar distante é uma forma de amenizar a falta. Quando você escolhe ficar longe dos pais é preciso aceitar o ficar longe”, enfatiza. A psicóloga alega ainda que o estágio não deve servir como uma pressão psicológica para o aluno: “Nele você tem o direito de errar, não tem como burlar esse processo. É no estágio que o aprendizado fica mais leve e serve de amadurecimento para o jovem”, comenta. Júnia enfatiza que falta a muitos empregadores habilidades para dar suporte emocional para o estagiário, que muitas vezes está aprendendo como funciona a vida adulta.
Contudo, mesmo concordando com apossibilidade de ajustar o calendário dosestagiários durante as férias, o secretáriotambém ressalta a necessidade do estudantesaber lidar com os compromissos do início davida adulta, mesmo que haja dificuldades de seacostumar com a nova rotina.

Márcio Guerra ao lado dos estagiários na reitoria de imagem da UFJF nos anos 90 (Foto/Arquivo Pessoal)
