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SAÚDE

Mulheres e o envelhecimento: Como cuidar de si após os 60 anos?

Muitas idosas vem dedicando seu tempo em manter estudos, hobbies, prazeres e provando qual a melhor fase da vida

Por Camily Cocati e Rayane Nascimento

Para muitas pessoas, o envelhecimento pode ser temido, visto como um futuro distante em que você será dependente, infeliz e incapaz. Até 2024, a expectativa de vida média do Brasil era 76,6 anos. E de acordo com o Censo 2022 do IBGE, ⅕ da população brasileira tem 60 anos ou mais.

 

Para as mulheres, a pressão que vem junto com a idade é ainda pior. Socialmente vistas como cuidadoras, a missão de finalmente aprender a cuidar de si chega quase como uma obrigação, mas que também pode ser um prazer. Através da volta aos estudos, de hobbies, exercícios físicos e atividades que estimulam a sociabilidade, as mulheres vem reinventando o processo de envelhecimento.

De volta aos estudos

Para a grande maioria, a possibilidade do estudo sempre foi um luxo, muitas vezes impossibilitada. Lenir Soares, de 78 anos, conta que, quando era jovem, andava a pé todos os dias pela estrada rural, até chegar à cidade mais próxima de sua casa, onde havia uma escola. Durante sua vida, estudar não foi prioridade, mas não por falta de vontade, e sim pela dificuldade. “No final do caminho, minhas pernas até tremiam de tanto que andava”, conta ela.

 

Quando era criança, chegou a morar de favor na casa de uma de suas professoras, para conseguir frequentar as aulas. Nesta casa, ela cuidava do filho pequeno da professora. Aos 18 anos, já estava casada e trabalhando na roça, onde criou seus nove  filhos com muito esforço. Além de trabalhar na roça, a Dona Lena, como é conhecida, trabalhava em uma das escolas estaduais da pequena cidade de Tocantins, MG, a Escola Estadual Dr. João Pinto, onde mais tarde concluiu seu ensino médio, aos 63 anos. 

 

Lenir era cozinheira da escola e contou que ela e as amigas do trabalho decidiram participar do projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA) porque ouviram que aumentaria 50 reais no seu salário. Ela, que já estava com 59 anos, viu também uma oportunidade de retomar um desejo antigo, de criança. No final, os 50 reais a mais nem vieram, mas Dona Lena se apaixonou pelo aprendizado. “Eu adorava ir para escola, adorava minhas amigas, elas fizeram até uma festa uma vez, e eu ganhei a medalha de mais velha da turma!” Ela conta rindo, se lembrando das memórias.

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Lenir e seus colegas de turma do EJA. Ela e o senhor do seu lado estão com a medalha de mais velhos da turma 

A psicóloga Andreza Lazarotto, especialista em adultos e idosos, argumenta que atividades mentais estimulam a memória, atenção e raciocínio. Além disso, mantém a sensação de capacidade e competência nos idosos. Auxilia também na vida social, que muitas vezes é negligenciada, tem impacto direto no bem-estar, reduzindo a solidão, aumentando o senso de pertencimento. “Atividade, nesta fase, é menos sobre desempenho e mais sobre prazer, conexão e qualidade de vida.” 

 

A presença de idosos em sala de aula se estende ainda para o ensino superior. Em estudo realizado pelo Mapa do Ensino Superior no Brasil e apresentado pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior em março de 2025, constata-se que entre 2013 e 2023, houve um aumento de 22% nas matrículas de pessoas com 60  anos ou mais em faculdades presenciais. 

 

“A experiência de estudar nessa idade está sendo fantástica”, diz Eliza Bertildes, de 68 anos, que é artesã e estudante de Artes Visuais na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Assim como Lenir, Eliza não teve a oportunidade de estudar quando era mais nova, mas sua paixão pelo artesanato a acompanhou durante toda vida. Para ela, existem desafios na faculdade, como: a dificuldade de enxergar no quadro por conta da vista cansada e a falta de habilidade com as novas tecnologias. Mas, estão sendo superados com a ajuda dos colegas, que são mais novos. “Fui bem recepcionada pelos meus colegas, minha turma é bem novinha, minha colega mais velha tem 23 anos. Eles me adoram e eu a eles”, diz Eliza.

 

Dona Lena não teve a oportunidade de continuar na vida acadêmica, por morar na região rural, falta de conhecimento e  de dinheiro. Mas, contou que, durante o EJA, sua turma realizou uma visita à UNIFAGOC - Centro Universitário Governador Ozanam Coelho, universidade mais próxima de sua cidade, em Ubá e que ela e os colegas ficarão encantados com essa possibilidade, chegando a fazer planos. A visita demonstra o incentivo da escola em inserir os alunos na experiência universitária.

 

Para além do estudo, Eliza e Lenir mantêm outra coisa em comum: a independência física e mental. Dona Lena, que ainda mora na roça, acorda cedo todos os dias, limpa a casa, o quintal, cuida dos animais, faz almoço para ela, o marido e os filhos que trabalham lá, assiste às missas na TV, reza seu terço diariamente e sempre que possível, vai a igreja. E claro, qualquer oportunidade de dar um passeio, ela é a primeira a confirmar! No caso de Eliza, ela diz nem perceber o envelhecimento: “Costumo brincar com minhas amigas quando elas me perguntam, como eu tenho essa idade e não tomo nenhum tipo de remédio. Eu respondo que não deixo as doenças perceberem que eu estou envelhecendo.”

 

Mas o fato é que nem todos têm a mesma oportunidade. Muitos idosos sofrem com discriminação, falta de acessibilidade e, em alguns casos, falta de suporte familiar. A psicóloga Andreza, alerta sobre a importância de incentivar a autonomia nos idosos. Para isso, é importante respeitar o ritmo deles e valorizar suas decisões. Isso inclui permitir que a pessoa participe das escolhas do dia a dia, expressando preferências e mantendo o protagonismo sobre a própria rotina. “Cuidar não é fazer tudo pelo outro, mas oferecer apoio quando necessário, sem retirar a capacidade de agir. Equilibrar segurança com independência evita a infantilização e fortalece a autoestima. Pequenas decisões, como escolher roupas, organizar objetos ou participar das finanças, fazem grande diferença.”

Arte como válvula de escape

A solidão e o luto são desafios constantes da vida, que se agravam com o envelhecimento. Eles podem afetar tanto o emocional, quanto o físico. Neuza Maria Soares, tem 75 anos, é aposentada mas trabalha até os dias de hoje como professora de costura. Ela conta que há 14 anos, quando perdeu seu marido para o câncer, entrou em uma depressão profunda. Já estava sem dar as aulinhas, como ela disse, há cinco anos, para cuidar do seu esposo, mas quando ele se foi, ficou sem ocupação alguma. 

 

A depressão veio tão forte que a Neuzinha chegou a confundir datas, horários, se perder na rua. Mas foi a costura que a salvou. Um dia, ela teve coragem para abrir seu quartinho de novo e voltar a fazer o que mais amava. Foi dar aulas na igreja, onde atuou por sete anos, até a pandemia. Hoje ela dá aulas no apartamento em que mora sozinha todos os dias, de 7h às 18h, recebe muitas visitas e sempre tem uma pausa para o cafezinho.

 

Neuzinha fala com carinho do Clube da Luluzinha, seu grupo de amigas que faz encontros todas as sextas-feiras, único momento em que ela dá uma pausa nas costuras. Ela também não perde uma oportunidade de passear, conhecer lugares novos, viajar e se divertir. “Eu não posso parar, nunca. É isso que me mantém, eu não tomo remédios, todo dia faço minhas coisas, não posso parar”

A melhor coisa é a minha liberdade, eu faço o que eu quero, vou pra onde eu quero, não sou dependente dos meus filhos”, ressalta Neuza.

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'Neuzinha' é professora de costura

A psicóloga Andrezza afirma que uma forma efetiva de combater o luto e a solidão é participação em atividades coletivas, como grupos de dança, encontros religiosos, centros de convivência, clubes de leitura, artes, projetos culturais ou voluntariado. Estar com outras pessoas permite trocas afetivas, amizade e pertencimento, elementos fundamentais para o bem-estar emocional“


Para Joseane Pinhatti, produtora cênica e artista da dança, a maturidade - forma que ela gosta de se referir à fase após os 60 - é um ótimo momento da vida para voltar a fazer o que gosta e descobrir novas paixões. Joseane é professora de dança livre para uma turma de mulheres que já alcançaram a maturidade, ela conta que em suas aulas tenta trabalhar equilíbrio - emocional e físico - , socialização, coordenação motora e a ocupação dessas mulheres, mas sempre prezando pelo limite de cada uma.

Quando se alcança uma certa idade, atividades como a dança são vistas como “batidas” ou “não adequada” para esse público. Porém, é nessa fase que a socialização se torna de extrema importância para garantir um envelhecimento mais saudável.

 

O assistente social Natan Honorato destaca que ao alcançar essa etapa da vida, os laços familiares e de comunidade vão ficando enfraquecidos, por isso atividades em grupos como aula de dança e costura são tão relevantes. As aulas com a professora Joseane são cheias de surpresas, ela conta que o grupo sempre tem dinâmicas temáticas: como natal, carnaval, festa junina, dia das mães e até mesmo um desfile da meia maluca! Pode parecer algo simples, porém essas atividades ajudam a fortalecer os laços entre o grupo e também em casa. Por exemplo: para a produção das “meias malucas” as participantes contaram com a ajuda dos filhos, netos, maridos e também aguçaram a criatividade.

“A dança representa para mim uma produção de endorfinas e me dá mais ânimo. É muito interessante perceber a diferença antes e depois da aula”, conta Miriam Aparecida Oliveira, 64 anos que é aluna de dança livre, junto com Ednea Fajardo, 61 anos ambas aposentadas. Segundo elas, a prática das atividades trouxeram muitos benefícios e melhorias na rotina, seja de forma física ou mental.

 

Outra aluna, Cláudia Lúcia de Oliveira, contou que estava desanimada antes da aula, mas logo se animou: “E eu quero ressaltar aqui o quanto foi importante eu ter vindo, porque a dança tem um papel muito importante na vida da gente, principalmente para quem já está na terceira idade”, disse ela. O relato de Cláudia ilustra da melhor forma como não só a dança, mas toda atividade, principalmente em grupo, nesta idade é uma ferramenta de melhoria da qualidade de vida.

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Sempre que possível, as alunas podem escolher o som do dia, colocando muitas vezes músicas que lembram o casamento, os filhos, a profissão e outros elementos que causem boas memórias. Segundo Gerson Tomanari, professor do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de São Paulo  (USP), a música tem um papel crucial em integrar o cérebro e as emoções, promovendo desenvolvimento, saúde e conexão social. É comum que referenciamos uma canção a um certo período da vida, e quando se alcança a maturidade, isso pode acarretar ainda mais conforto. “Chamamos de dança livre porque faz uma passagem pelas danças dos anos 70 e dos anos 50. Buscamos uma música que faz um resgate de lembranças, de memória afetiva. Elas falam até dos lugares onde estiveram: ‘me lembro dessa música, dancei em tal lugar’, ‘eu saía com meu marido e dançava essa música’. Então, assim, a dança, no todo, eu acho que é completa”, destaca a professora Joseane. 

Arte como válvula de escape

Relatos como os de Neuza, Lenir, Eliza e Cláudia se relacionam em diversos aspectos. São histórias de mulheres que tiveram que se reinventar e aprender a lidar com o luto -  seja de entes queridos falecidos, de perdas profissionais e pessoais - , com dores da idade, questões hormonais e estéticas. São histórias de superação e recuperação que demonstram coragem para dar um novo sentido ao viver. Elas tiveram que aprender a cuidar de si quando tudo que conheciam era sobre o cuidado com o outro, seja maridos, filhos ou casa. Dançar, costurar, estudar não são apenas hobbies, para essas pessoas, se tornaram uma forma de se agarrar no novo e entender que após os 60 a vida continua.

A psicóloga Andrezza, reitera que: descobrir novos hobbies começa com uma pergunta simples: o que sempre despertou curiosidade, mas nunca houve tempo para tentar? Assim, muitas pessoas podem se surpreender ao resgatar desejos antigos que ficaram guardados por décadas. “A ideia de que existe idade certa para começar algo é uma crença social que limita a experiência. O envelhecimento pode justamente ser o momento ideal para experimentar, brincar e permitir-se viver novidades com mais liberdade e menos cobranças”, reforça ela

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