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ARTIGO

Quando a infência vira responsabilidade

Por Luiz Fernando Rangel

Nas férias escolares, muitos imaginam crianças e adolescentes aproveitando dias longos de descanso, brincadeiras e liberdade. Mas há um grupo que raramente aparece nas fotografias ensolaradas dessa época: os irmãos e irmãs mais velhos que, silenciosamente, assumem responsabilidades adultas quando os pais não podem parar de trabalhar. É um fenômeno comum, mas pouco discutido, e justamente por isso, injusto.

 

Enquanto alguns jovens viajam, descansam ou simplesmente desfrutam do ócio que as férias permitem, outros passam a desempenhar tarefas que vão muito além de suas idades. Cuidar dos irmãos mais novos, preparar refeições, organizar a casa, garantir a segurança e o bem-estar da família. Tudo isso sem salário, sem reconhecimento e, muitas vezes, sem a compreensão da sociedade. É o que podemos chamar de “trabalho invisível”, aquele que não aparece nas estatísticas e também não costuma ser considerado um trabalho, embora carregue todas as responsabilidades de um.

 

Esse cenário é ainda mais evidente em famílias que dependem de longas jornadas de trabalho para sobreviver. A economia brasileira, marcada pela informalidade e pela falta de políticas adequadas de conciliação entre vida profissional e familiar, empurra pais e mães para a rua, enquanto empurra seus filhos mais velhos para dentro de casa. E não por vontade própria: por necessidade.

 

Mas precisamos nos perguntar a que custo isso acontece. Ao assumir responsabilidades domésticas e de cuidado durante as férias, esses jovens sacrificam algo que jamais pode ser devolvido: tempo. Tempo de descanso, tempo de lazer, tempo de ser apenas adolescente. E esse sacrifício costuma recair mais sobre meninas, o que reforça desigualdades de gênero que se perpetuam na vida adulta.

 

É claro que a solidariedade familiar faz parte da vida. Ajudar em casa, cuidar uns dos outros, aprender responsabilidade: tudo isso tem valor. O problema começa quando a ajuda se transforma em obrigação permanente, imposta pela ausência de políticas públicas que reconheçam a complexidade da vida das famílias. Falta acesso a creches, programas de contraturno escolar, espaços públicos seguros e, sobretudo, uma discussão séria sobre o direito das crianças e adolescentes ao lazer e ao desenvolvimento integral.

 

Ignorar esse trabalho invisível é normalizá-lo. E normalizá-lo significa aceitar que milhares de jovens, especialmente os mais velhos, passem pela infância e adolescência carregando pesos que não deveriam ser apenas seus.

 

Se queremos uma sociedade mais justa, precisamos começar reconhecendo esses jovens que trocam férias por responsabilidades. E, a partir disso, construir políticas que permitam que o cuidado não seja um fardo concentrado em quem nasceu primeiro, mas um compromisso compartilhado entre famílias, Estado e comunidade.

 

Até lá, é preciso dizer em voz alta o que muitos vivem em silêncio: irmãos e irmãs mais velhos não deveriam ser a rede de proteção que falta no país. E definitivamente merecem ter férias também.

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