COMPORTAMENTO
Juiz de Fora para Imigrantes
Como a cidade acolhe pessoas de outras nacionalidades que vêm reconstruir suas vidas longe de casa
Por Ana Beatriz Klen e Isadora Ferreira

A história de duas mulheres de pontos opostos do mundo, Síria e Venezuela, se cruzam em um destino inusitado: na princesa de Minas Gerais, Juiz de Fora. Mesmo nunca tendo se encontrado, Regina e Maebel compartilham muito mais do que apenas o título de “imigrantes” no Brasil. (Fotos: Reprodução/Arquivo pessoal de Regina e Maebel)
Sendo recebida em uma noite fria, ruas desertas e uma família que não falava sua língua, Regina Hwijh, 27 anos, tem suas primeiras memórias de Juiz de Fora passando de carona pelo portão Norte do campus da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Era ali que começava uma nova etapa de sua vida, longe da Síria e de tudo o que lhe era familiar.
Regina não se lembra muito bem como chegou na sua nova casa e conseguiu dormir nesse país estrangeiro. Acordou no dia seguinte e ficou em pé em sua varanda por um bom tempo olhando para o céu, o relevo montanhoso e as árvores. A paisagem era diferente da Síria, mas o sentimento de acolhimento viria a ser o mesmo. “Árvores longas e o portão da universidade…”, refletiu Regina naquela manhã.
Um tempo depois, Regina entende que aquele primeiro contato com a cidade foi o início de um processo de reconstrução pessoal e profissional, marcado por desafios, descobertas e recomeços.
Histórias como essa se repetem em Juiz de Fora. Pessoas que chegam de diferentes partes do mundo, movidas por estudos, trabalho, refúgio ou pela simples esperança de uma vida melhor. Segundo dados da Polícia Federal, atualmente 3.141 imigrantes estão regularizados no município. A inserção dessas pessoas na cidade passa, muitas vezes, pelo apoio de instituições e projetos de acolhimento, que auxiliam desde a documentação até a adaptação cultural.
Uma dessas histórias é a de Maebel. Depois de deixar a Venezuela há oito anos, ela teve sua primeira parada no Brasil no Sul de Minas, na cidade de Machado. Há seis meses, no entanto, decidiu recomeçar mais uma vez. Apaixonada pela cidade após uma visita, encontrou em Juiz de Fora um lugar com mais possibilidades. Mudou-se primeiro, enquanto o marido permaneceu resolvendo questões burocráticas para, posteriormente, alcançá-la. “Essa decisão representou para mim coragem, esperança e a vontade de construir uma vida melhor”, diz Maebel.
Dificuldades no recomeço
Embora Regina e Maebel não se conheçam, suas experiências como imigrantes se cruzam em muitos pontos. A adaptação cotidiana, as saudades, os desafios culturais e a busca por pertencimento criam pontes invisíveis entre trajetórias distintas.
Quem diria que ingredientes básicos de seus países seriam tão difíceis de encontrar em terras tupiniquins? E que o strogonoff é um ponto de ligação entre Venezuela, Síria e Brasil?
“Eu adoro comida árabe. Aqui no Brasil há uma certa dificuldade de encontrar alguns ingredientes. Eu procuro nos mercados e pergunto se eles têm os que busco. Não têm. Eu busco pela internet, mas acabam saindo muito caros. Compro apenas de vez em quando. Já que não posso cozinhar da forma que é na maioria das vezes, eu mudo a receita e faço com o que tenho disponível”, relata Regina.
Para Maebel também não é fácil se manter na receita original. “Encontrar os ingredientes da Venezuela nem sempre é fácil, mas eu sempre dou um jeito. Às vezes preciso adaptar, uso substituições, mas continuo fazendo o possível para manter os sabores da minha terra presentes no meu dia a dia.”
Ao mesmo tempo, ambas incorporaram pratos brasileiros à rotina. O estrogonofe, o feijão tropeiro, o salpicão e até receitas típicas do interior de Minas passaram a fazer parte do cardápio. “Quando voltei para visitar a Síria, eu cozinhei estrogonofe para minha família e eles amaram, estava uma delícia. Eu cozinhei também arroz e feijão preto com cordeiro”, afirma Regina.
Saudades e novos encontros
A culinária, no entanto, representa apenas uma dimensão das dificuldades. Ser uma pessoa imigrante não é fácil. Independentemente do motivo de mudança de país, há coisas que não podem ser substituídas. O sentimento é o mesmo, a saudade é a mesma, o medo e a confiança também.
Regina sente falta da família, dos amigos, da casa, da cidade e até das flores que cultivava na Síria. “O tempo todo eu sinto saudades de tudo na Síria. Eu amo a Síria”, compartilha Regina. E para Maebel a situação não é diferente. Ela carrega a saudade, especialmente da família e da avó, figura central em sua vida.
Em meio às diferenças culturais, religiosas e linguísticas, o sentimento de pertencimento surge nos pequenos detalhes. Para Maebel, caminhar pelo Calçadão do Centro despertou lembranças da cidade natal na Venezuela, com seu comércio ativo e o fluxo constante de pessoas. Para Regina, os festivais e celebrações brasileiras revelam semelhanças universais: o desejo de reunir pessoas, compartilhar alegria e fortalecer laços comunitários.
Muitas lições foram aprendidas pelas duas, que compartilham suas diferentes visões de vida para uma situação que vivem em comum. O medo sempre estará presente, mas é a coragem, esperança e confiança que guiam essas duas mulheres a se desafiarem constantemente a viver a melhor parte de suas vidas.
Regina destaca que morar em um novo lugar não apaga quem ela é. Pelo contrário, reforça suas raízes e revela aspectos essenciais de sua identidade. Aprendeu que há coisas imutáveis como as memórias, o idioma e os vínculos com quem ficou e outras que se transformam, como a forma de se comunicar, de lidar com o tempo e de enxergar novas oportunidades.
Maebel resume o recomeço como um ato de coragem. Para ela, viver em outro país é descobrir uma força interna que, muitas vezes, só se revela diante das dificuldades. Sua mensagem a outros imigrantes é de fé, persistência e resiliência: o caminho não é fácil, mas está cheio de possibilidades que só quem vive essa jornada consegue compreender.
Escuta e acolhimento em Juiz de Fora
Diante do crescimento da população imigrante, iniciativas de acolhimento se tornaram fundamentais em Juiz de Fora. Uma delas é a Pastoral Arquidiocese do Imigrante, lançada em 2018 pelo arcebispo metropolitano Dom Gil Antônio Moreira. Antes mesmo da iniciativa, o sacerdote já auxiliava nos trabalhos da Associação dos Amigos (Aban) no atendimento aos imigrantes, principalmente venezuelanos. A Pastoral , porém, surgiu para oferecer um suporte a mais aqueles que chegam à cidade vindos de outros países.

A Pastoral Arquidiocese do Imigrante fica localizada no endereço: Av. Barão do Rio Branco, 4516 - Alto dos Passos, Juiz de Fora. A Arquidiocese tem horário de funcionamento das 08h às 17h, de segunda a sexta.
A iniciativa busca acolher e orientar os imigrantes quanto à documentação necessária para permanecer no país, além de ajudar na busca por um trabalho e na fixação de residência no município e região. Para a voluntária Nilda Gaudareto, a pastoral procura fazer o máximo que pode para ajudar. “Nem sempre conseguimos soluções ideais, mas, na medida do possível, tentamos dar o suporte mínimo necessário”, ela afirma
A pastoral atua principalmente por meio do trabalho voluntário e de doações, que incluem roupas, alimentos, utensílios domésticos e outros itens essenciais. Eletrodomésticos e móveis são mais difíceis de conseguir, mas a solidariedade da população sempre nos surpreende e acabamos conseguindo o básico para eles se instalarem com simplicidade”, diz Nilda.
Além da Igreja Católica, outras instituições religiosas e organizações da sociedade civil também desenvolvem ações de apoio a imigrantes na cidade, especialmente em momentos de maior fluxo migratório, como ocorreu a partir de 2018.
A UFJF como agente ativo no acolhimento e na permanência de refugiados
A Universidade Federal de Juiz de Fora também desempenha papel importante nesse processo por meio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM). Vinculada à UFJF, a iniciativa busca não apenas facilitar o ingresso de estudantes refugiados, mas também garantir sua permanência e promover a construção de políticas públicas voltadas para essa população.

É possível fazer contato com funcionários e estagiários da Cátedra Sérgio Vieira de Mello no prédio da Diretoria de Relações Internacionais (DRI) localizada ao lado dos Prédios das Reitorias na Praça Cívica da UFJF. A DRI funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h
Para Rodrigo Christofoletti, coordenador da cátedra, o papel do projeto não é somente incluir os alunos na universidade, mas também, estabelecer pontes com a cidade e a Prefeitura para a construção de políticas públicas que impactem positivamente esse contingente que cada vez mais cresce no município. “A compreensão do universo do refúgio não pode ficar restrita aos alunos que estão hoje no campus. É necessário que a Universidade tenha um papel proeminente na proposição de políticas públicas voltadas para a própria cidade”, destaca.
Entre os principais projetos desenvolvidos na iniciativa está o ensino de português como língua de acolhimento, visto que, o idioma é o primeiro grande obstáculo para quem chega. ”Isso ocorre mesmo com latino-americanos, que muitas vezes têm dificuldade para compreender o português. Esse primeiro contato com a língua é fundamental”, explica.
Além do ensino de português, a Cátedra também oferece acolhimento psicológico e assessoria jurídica, auxiliando na regularização de documentos e no entendimento dos direitos no Brasil, assim como desenvolve projetos culturais que buscam preservar a identidade e o patrimônio das populações refugiadas.
E quando se fala em “comunidades”, no plural, é porque, embora os venezuelanos estejam cada vez mais presentes no cotidiano da cidade, há uma infinidade de outras nacionalidades: haitianos, afegãos, sírios, entre outros, cada qual com sua cultura, línguas, culinárias e modos de vida distintos.”
Portanto, a Cátedra não realiza assistencialismo social; esse não é seu objetivo. Ela se dedica à pesquisa, ao ensino e à extensão sobre o universo dos refugiados, sem ignorar, contudo, as necessidades humanas e materiais dessa população. “E esse é o ponto fundamental de manter uma Cátedra dessa natureza na Universidade’, destaca o professor.
Adaptações, apoio e recomeço
Entre memórias, adaptações e recomeços, as trajetórias de Regina e Maebel revelam que migrar é mais do que atravessar fronteiras geográficas: é reconstruir a própria vida em diálogo constante com o novo. Em Juiz de Fora, o acolhimento institucional, o cotidiano da cidade e os pequenos gestos de pertencimento ajudam a transformar o estranhamento inicial em possibilidade de futuro. As histórias dessas mulheres mostram que, apesar das dificuldades, é na troca, na escuta e na coragem de seguir que o recomeço se torna possível, e que nenhuma identidade se perde quando encontra espaço para existir.
