COMPORTAMENTO
Plantão de Natal: o lado invisível do dia 25 de dezembro
Para muitos profissionais, a tradição natalina passa pelo trabalho. Em meio às luzes e jornadas estendidas, eles encontram formas especiais de manter o espírito da data vivo, mesmo longe do lar.
Por Yasmin Rangel
O fim de ano chega e logo pensamos nele: O Natal! A mesa montada para a ceia, a árvore de natal que ganha vida com os piscas-piscas, a troca de presentes antes do jantar. Todo ano a mesma tradição, mas nem todo mundo na mesma ceia. A realidade de algumas pessoas vai ser diferente, não terá luzes e nem presentes, não terá mesa farta e nem montada, terá escalas... escala 6x1, 12x36 ou os intermináveis turnos para que as metas sejam batidas. Há aqueles que trabalham para que o nosso natal não só aconteça, como seja incrível.
Essa é uma realidade enfrentada por parte da população brasileira e em Juiz de Fora isso não é diferente. Vitória Costa, enfermeira de 25 anos, trabalha na área da saúde há dois anos e meio. Durante esse tempo, sempre esteve trabalhando durante datas comemorativas como o Natal, já que atua na escala 12x36. “O maior desafio sem dúvidas é estar longe da minha família. Isso dói muito! Abrir mão de estar com quem a gente ama para trabalhar não é fácil. Na maioria das vezes a família entende mas, ainda sim, é difícil.”, relata.
Mas, apesar desse fato, Vitória conta que o contato com os pacientes ajuda muito nesse momento, uma vez que recebe muito carinho e compreensão deles. “Felizmente, nós sempre recebemos um carinho enorme dos pacientes e uma gratidão que aquece o coração. Além disso, precisamos ser ainda mais fortes nessas datas para sermos apoio e amparo para quem está hospitalizado, afinal, nós somos tudo o que eles têm nesse momento, então acaba que o nosso propósito é tão forte que nos consola.”, revela.

Vitória Costa, enfermeira (foto: arquivo pessoal)
Tradições
Em contrapartida, para algumas pessoas, passar o Natal longe de sua família é frustrante. Esse é o caso de Gabriel Rodrigues, vigia e padeiro, que precisa trabalhar nos dois empregos com horários muito distintos. Na padaria, trabalha em escala 6x1, mas como vigia trabalha na escala 12x36 e, por isso, não consegue passar o Natal com seus familiares.
“Se minha escala for véspera de natal, não participo da ceia, se for no dia 25, tenho o compromisso da noite. Por ser 12x36, se estou no Natal em casa, Ano Novo trabalho e vice e versa. Mas, a véspera de Natal para mim é mais difícil de aceitar, porque gosto da tradição familiar de juntar toda a família para ceiar, trocar presentes e, principalmente, agradecer a Deus por estarmos todos juntos. Minha mãe fazia isso, e eu procuro fazer o mesmo”, relata.
Ainda segundo Rodrigues, um dos desafios de trabalhar em datas comemorativas como o Natal, é saber que não vai poder estar presente em boa parte dessas comemorações, porque como trabalha em dois empregos e com duas escalas distintas, não consegue, por exemplo, programar um passeio ou até mesmo uma viagem, pois sempre vai estar preso a um de seus trabalhos.
Entre servir e sentir
Assim como Gabriel Rodrigues, outras pessoas podem ter esse sentimento de frustração por não conseguir comemorar o Natal com seus familiares, mas, por outro lado, existem pessoas que preferem trabalhar em datas como essa. Afinal, como fica o emocional desses trabalhadores?
Para a psicóloga, Stefanie Oliveira, essa análise é subjetiva, mas se for feito um estudo sobre o que as datas comemorativas simbolizam socialmente, como a ideia de união, momentos em família, férias, viagens, por exemplo, pode-se dizer que, para a grande maioria, o psicológico pode ficar abalado.
“Pode gerar frustração, exaustão emocional e física também, já que em muitos setores a carga horária pode inclusive aumentar significativamente nesse período. Essas pessoas podem estar trabalhando porque são autônomas e não têm os mesmos direitos trabalhistas que trabalhadores no regime CLT, ou estão trabalhando por algum serviço essencial, ou até mesmo atendendo a um público que estará comemorando, viajando, descansando”, explica.
Além disso, Stefanie comenta sobre o motivo dessas datas costumarem ter tanto peso emocional quando falamos de trabalho: “devido à construção social do que é o Natal e de como o mundo inteiro funciona a partir disso. Tem-se a expectativa do descanso, da união, da ceia, da viagem em família, dos reencontros improváveis ao longo do ano com quem está longe, com as crianças...
“É inevitável se sentir frustrado enquanto o mundo está funcionando em prol de uma data comemorativa e você está de fora porque não tem escolha”

Aeromoça Marcia Godói passando o Natal com sua mãe (foto: arquivo pessoal)
Em alguns casos, há pessoas que precisam trabalhar, mas que conseguem amenizar um pouco a saudade e a distância de casa. Esse é o caso de Márcia Godoi, comissária de bordo. Há seis anos, durante as festividades natalinas, reinventou a forma de comemorar a data. Um dos benefícios que seu emprego lhe proporcionava era ter a permissão para levar um acompanhante durante as viagens e estadias, e nesse caso, levava sempre sua mãe.
“Particularmente eu gostava de trabalhar no Natal, pelo motivo de poder levar minha mãe, sempre tínhamos experiências únicas nesta data. Me lembro de um Natal que fomos para João Pessoa, e apesar de não termos ficado nem 24 horas no destino, tivemos um Natal inesquecível, pois estávamos juntas e vivendo uma experiência única”, relembra.
Mas às vezes a comemoração pode ser com aqueles com os quais dividimos a maior parte dos dias. E esse é o caso de Leonardo Pereira, o inspetor de pintura, que trabalha embarcado em uma plataforma de petróleo a mais de 100km da costa.
Como precisa passar boa parte do mês ao lado dos colegas de trabalho, aos poucos eles foram se transformando também em família. “Na verdade, deixamos nossos familiares para comemorar a data com uma outra grande família, que são as pessoas com quem trabalhamos”, conta.
6X1: A escala que deixa o Natal impedido
Uma partida, dois times, um único vencedor. Nesse longo jogo do capitalismo, quem sai perdendo é o time dos trabalhadores e suas famílias, que precisam lidar com o distanciamento, a saudade e a ausência. Ao longo do ano, o tema da escala 6x1 foi debatido, comentado e se tornou o assunto do momento, mas como ele realmente impacta no cotidiano?
A advogada trabalhista, Milena Gomes, explica de que maneira a escala 6x1 contribui para que as pessoas precisem trabalhar em datas como o Natal. “A estrutura dessa escala aumenta a probabilidade de o empregado estar escalado para trabalhar em feriados, especialmente quando não há folga fixa ou quando a atividade empresarial funciona continuamente, como nos mercados, por exemplo. Quanto mais curta a frequência de folgas, maior a chance do trabalhador estar escalado justamente em datas comemorativas.”
Além disso, os trabalhadores acabam sofrendo impacto não só na convivência familiar como também em seus relacionamentos. A psicóloga Stefanie Oliveira afirma que as pessoas simplesmente não têm disponibilidade emocional e de tempo para se dedicar ao que é importante na vida pessoal.
“Isso gera um isolamento inevitável e, não havendo tempo, consequentemente a manutenção de todos os relacionamentos fica comprometida, podendo acontecer inclusive dessas pessoas serem cortadas de relações porque elas não estão disponíveis e a outra parte não quer estar se relacionando com alguém indisponível, ainda que essa indisponibilidade seja compulsória”, alerta a psicóloga.
Stefanie ainda explica que além do cansaço físico, as pessoas são privadas de suas outras necessidades fora do ambiente de trabalho. “Se essas pessoas não têm tempo suficiente para se recuperar física e emocionalmente, elas também não terão tempo para cuidar de si mesmas, das suas relações, e de suas casas, o que não se resume em simplesmente uma tarefa doméstica, mas em manter agradável o espaço que deveria ser um lugar de bem-estar”
O descanso e o bem-estar do ser humano é uma necessidade indispensável, e é por isso que a advogada Milena acredita que a escala 5x2 tornaria possível que os trabalhadores passassem datas comemorativas como o Natal com seus familiares: “essa escala oferece mais folgas, mais previsibilidade e mais possibilidade de revezamento, reduzindo o risco de que a folga semanal caia fora do feriado”, finaliza.
