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COMPORTAMENTO

Pertencer para resistir: como os fandoms moldam identidades e movem a economia

Da busca por acolhimento ao empreendedorismo, grupos de fãs subvertem estereótipos e se consolidam como rede de apoio e objeto de estudo acadêmico no ambiente universitário

Por Julia Gaspar

Onde você se sentiu realmente visto pela primeira vez? Para muitos jovens, a resposta está fora dos círculos tradicionais, escondida nas redes sociais, grupos de Whatsapp e filas de shows. Onde a escola, o trabalho ou a família falharam em oferecer um espaço de aceitação, o fandom chega para acolher.

 

Enquanto a internet é frequentemente criticada por isolar as pessoas e polarizar debates, os grupos de fãs oferecem um contraponto poderoso, como comunidades que fomentam o desenvolvimento pessoal e movimentam a economia, especialmente para as novas gerações.

 

Nesta reportagem, mergulhamos nas diversas facetas que compõem a cultura de fãs hoje. Através dos relatos de Eliza Atalaia, Maria Isabel Friedrich e Ana Clara Moraes, exploramos como o engajamento em um fandom pode impulsionar o aprendizado de novos idiomas, a formação de vínculos reais que superam distâncias e a criação de negócios familiares. Além das histórias pessoais, a análise da pesquisadora Daiana Sigiliano revela como essa rede de afeto desafia estigmas de gênero e se consolida como uma força econômica e acadêmica de extrema relevância no cenário brasileiro.

Formação da identidade e novos idiomas

Enquanto vivíamos o isolamento social durante a pandemia, a vida migrou para as telas. Para milhões de pessoas, a internet deixou de ser apenas entretenimento para se tornar uma forma de escapismo da realidade e, principalmente, uma ferramenta de conexão. Foi nesse cenário que a fisioterapeuta Eliza Atalaia conheceu os Bangtan Boys (BTS), que surgiram em sua timeline do TikTok.

 

A conexão com o grupo de K-pop nutriu, também, um amor pela cultura coreana, a ponto de a barreira do idioma se tornar inaceitável. Eliza conta que não queria mais depender de traduções ao assistir entrevistas e, por isso, se dedicou a aprender a língua. Atualmente, ela é professora de nível básico de coreano.

A música Fake Love, do BTS, aborda o amor próprio e o encontro com sua essência

Mas o que transforma um ouvinte casual em um fã apaixonado é a identificação. Para a fisioterapeuta, o BTS se destacou por construir sua discografia a partir de temas como a autoaceitação e saúde mental, pautas pouco exploradas no pop tradicional. "Pra mim, hoje não existe Eliza sem falar do BTS, sem falar da cultura coreana. Faz parte de mim", revela.

Do virtual para o real

Se a cultura de fãs ajuda a formar a identidade individual, ela também é fundamental na criação de laços. Foi a partir das comunidades online no X, antigo Twitter, que as estudantes de letras e engenharia eletrônica, Maria Isabel Friedrich e Ana Clara Moraes, se conheceram. 

 

Entusiastas da atriz Melissa Benoist, que protagonizou a série Supergirl, as duas se conheceram em um grupo dedicado a comentar a série e se aproximaram justamente pela timidez para interagir com outros membros. Ao longo do tempo, elas perceberam que também tinham outros interesses em comum, como música e teatro. Mesmo após o cancelamento da série em 2021, a amizade permaneceu sólida.

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As amigas virtuais Ana Clara e Maria Isabel se conheceram pela primeira vez na turnê "The 5 Seconds of Summer Show", em 2023. Foto: reprodução/Instagram @clara.moraaes

No entanto, morando em lados opostos do país, as amigas não imaginavam que essa aproximação poderia se dar, também, de forma física. Foi com a mudança de Maria Isabel, do Pará para São Paulo, que elas se conheceram pela primeira vez: no show da banda 5 Seconds of Summer, em 2023.


Hoje, a amizade deixou de ser virtual para se concretizar na vida real. Mesmo morando em cidades diferentes – uma distância de aproximadamente 293 quilômetros –, as duas viajam para shows e eventos, conhecem a família uma da outra e celebram ocasiões importantes juntas.

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Isabel esteve presente na comemoração dos 21 anos de Clara, em dezembro. Foto: reprodução/arquivo pessoal

“Eu fiz muitas amizades por ser fã das coisas. Então eu sinto que isso é algo muito importante na minha personalidade. Mas o fandom foi somente o ponto de origem”, diz a estudante de letras.

O fandom e os estigmas de gênero

A mesma intensidade, nomes diferentes. Enquanto o grito de um homem em um estádio de futebol é lido como “paixão", o entusiasmo de uma mulher por um ídolo é rotulado como histeria. Esse padrão não é apenas uma questão de percepção, mas uma ferramenta de diminuição dos interesses femininos.


“Um homem pode reagir de maneira emocionada a um gol, mas quando demonstramos a mesma empolgação por um artista, dizem que é exagero ou falta do que fazer", analisa Ana Clara. Ela sentiu isso na pele ao enfrentar as filas para comprar ingressos para a The Eras Tour, de Taylor Swift. Com uma enorme demanda e ingressos esgotando em minutos, ela optou por acampar com grupos de fãs na bilheteria do Allianz Parque, em São Paulo. Apesar de garantir o ingresso, ela precisou lidar com comentários depreciativos de quem passava.

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Fila para compra de ingressos de show de Taylor Swift ficou marcada pela tensão entre fãs e cambistas. Foto: reprodução/G1

O estigma, no entanto, ganha camadas mais densas quando a paixão cruza fronteiras geográficas. Eliza relata que a estigmatização de ser fã caminha lado a lado com outros preconceitos. “Embora o Brasil seja um país multicultural, a xenofobia ainda é um obstáculo difícil, principalmente quando associada ao fato de ser mulher e defender o direito de ser fã. É algo que a gente vai aprendendo a lidar, já estamos até acostumadas e sabemos o que responder”.

 

Essa desvalorização do entusiasmo feminino reflete uma estrutura que historicamente classifica o que é consumido por mulheres como “fútil”. Para além da música ou da série, o fandom se torna um espaço de enfrentamento. Ao ocuparem esses espaços, as mulheres estão desafiando a ideia de que seus sentimentos e interesses são menos válidos do que os masculinos.

Impactos da cultura de fãs

No Brasil, cerca de 38% da população se enxerga como fã. Os dados são de um levantamento elaborado em parceria entre o instituto de pesquisa comportamental Floatvibes e a agência de marketing Monks. Esse engajamento movimenta a economia: o fã brasileiro gasta, em média, R$200 por mês para alimentar a relação com seus ídolos.

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Encontro promovido para fãs de K-pop em Juiz de Fora ocorreu em junho de 2025. Reprodução/Instagram @dorarmy.7

É o caso de Eliza que, ao lado de sua mãe e irmã, gerencia uma loja de produtos temáticos associados ao entretenimento asiático, além de participar de feiras e organizar eventos para esse segmento em Juiz de Fora. A história delas prova que o fandom pode contribuir, também, para a geração de renda.

 

Para além da economia, no meio acadêmico, a cultura de fãs também está se tornando uma área de conhecimento consolidada. Essa linha de estudo se institucionalizou a partir dos anos 90, com o trabalho do pesquisador de mídia, professor e autor americano, Henry Jenkins, que demonstrou que o fã não é apenas um receptor passivo, mas alguém que ressignifica a produção de sentido dos conteúdos que consome.

 

Segundo a professora Daiana Sigiliano, doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenadora do Observatório da Qualidade no Audiovisual, as práticas dos fãs exigem não somente criatividade, mas um entendimento crítico sobre a representação e os processos midiáticos. Recentemente, a criação de uma rede de estudos de cultura de fãs voltada para a América Latina marcou um passo estratégico na legitimação da área. “Ao trazer essa rede para a América Latina, estimula-se a importância de olhar para produtos locais e entender como isso traz reflexões sobre o modo como nos vemos, a relação com a identidade, a representação e a diversidade", explica Daiana.

 

O impacto dessas comunidades prova que o ato de ser fã é muito mais do que uma distração meramente superficial. Em meio a um mundo repleto de estigmas, essas redes de apoio oferecem pertencimento, transformando a paixão individual em uma ferramenta de transformação coletiva, econômica e social.

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