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COMPORTAMENTO

O Brasil não estuda do mesmo jeito, mas faz a mesma prova

Entre ansiedade, desigualdade e persistência, milhões disputam uma corrida que nunca teve o mesmo ponto de partida

Por Júlia Damasceno e Luiza Carvalho

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Com mais de 5 milhões de inscritos e apenas 13% de vagas nas universidades públicas, o Enem evidencia desigualdades históricas e transforma o acesso ao ensino superior em uma disputa marcada por ansiedade e exclusão.

No dia 9 de novembro, pela manhã, João Vicente já havia conferido seus materiais e o local de prova pela segunda vez. Era seu terceiro Enem. A cada edição, repetia-se a rotina: o frio na barriga pela pela ansiedade, e a sensação de que sua vida dependia daquele domingo. E a pergunta que sempre rondava sua mente: “Será que desta vez eu consigo?”

 

No portão da escola, ele se torna apenas mais um entre milhares de jovens que, como ele, apostam todas as fichas nas 10 horas e meia de prova. Alguns gargalhavam alto para disfarçar o nervosismo, outros choravam antes mesmo de entrar. Em todo o Brasil, mais de cinco milhões de estudantes faziam naquele dia o mesmo percurso rumo ao caminho mais tradicional e, ironicamente, um dos mais desiguais para chegar ao ensino superior.

 

Apesar de ser apenas uma entre várias possibilidades de acesso à universidade, o Enem ainda é, para muitos, a única via possível. A cada prova, o abismo na preparação dos candidatos fica mais evidente. Segundo o Censo da Educação Superior, menos de 25% dos jovens entre 18 e 24 anos conseguem ingressar no ensino superior. E, entre os que chegam lá, a maioria vem das classes mais privilegiadas. Um contraste cruel com a multidão que lota os portões das escolas a cada novembro.


Para que o sonho da universidade não seja apenas isso, um sonho, o Governo Federal tenta construir pontes onde antes havia abismos. Iniciativas como a Lei de Cotas (2012) e o Programa Pé-de-Meia (2024) buscam democratizar o acesso e aproximar o ideal de educação da realidade brasileira. Mas, apesar dos esforços, a travessia rumo ao diploma permanece cheia de obstáculos e disputas exaustivas.

Quando a aprovação não vem

Segundo levantamento do Inep, cerca de cinco milhões de estudantes compareceram ao Enem 2025. Dois domingos marcados por expectativa, cansaço e esperança. Porém, ao comparar esse número às vagas disponíveis nas universidades públicas, o entusiasmo esbarra em um freio brusco: são pouco mais de 650 mil oportunidades, apenas 13% do total de inscritos. A conta é simples; o impacto, devastador.

 

A consequência imediata é uma concorrência desumana. Ano após ano, milhares de estudantes descobrem que não avançaram para a próxima etapa. Ficam presos em um limbo: não começam o capítulo seguinte, mas também não conseguem se desprender do anterior. Repetem estudos, simulados, expectativas e frustrações como um ciclo sem fim. Ou seguem para universidades particulares ou cursos de graduação a distância, como uma segunda opção para o sonho não realizado.

 

João Vicente conhece bem esse peso. Há três anos tenta ingressar no curso de Medicina, e descreve o processo como uma maratona física e emocional: “Acredito que o processo atual de ingresso não é capaz de medir o potencial acadêmico do candidato. A prova exige mais do que conhecimento. São 5 horas e 30 minutos de cansaço, além da pressão familiar e da necessidade de se manter dedicado por muito tempo. Isso dificulta o desempenho”, relata.

 

O que ele sente é reforçado pela estudante Jamilly Torreão, que a princípio por seu amor por animais sonhava em fazer medicina veterinária, mas a instituição mais próxima de sua realidade apenas ofertava o curso de biologia: “Medir o aprendizado de um aluno por uma única prova não é justo, porque fatores externos, como o nervosismo, afetam muito o desenvolvimento”, afirma.

Uma disputa que começa antes da largada

Além das dificuldades do exame, João sabe que sua bagagem educacional pesa. Aluno de escola pública, reconhece que a competição fica ainda mais desigual quando se compara o ensino público ao privado. O vestibular é visto como um teste de mérito, a chave que abre as portas da universidade. Mas será que é um processo realmente justo? Para a maioria, ele assume o papel de espelho ao refletir as desigualdades que já existiam desde o início da vida escolar.

 

O esforço individual é celebrado, mas poucos percebem que a disputa começa muito antes da prova: na qualidade das aulas, no acesso a materiais de estudo e na possibilidade de fazer cursinho. Oportunidades que não alcançam a todos.

“A invisibilidade e a desvalorização do ensino público neste  país são bizarras. O Inep gosta de acreditar que todos têm o mesmo acesso à educação. Não dá para igualar a avaliação de quem estudou a vida inteira na rede pública com a de quem estudou em escola particular”, critica Isabela Nascimento, aluna do 3º ano do ensino médio da rede estadual.

O Enem expõe um sistema que cobra desempenho igual de estudantes que enfrentam trajetórias educacionais profundamente desiguais. Vídeo: reprodução/@anaterra.oli

Para ela, a diferença é evidente. Enquanto estudantes da rede privada adaptam suas rotinas para focar no vestibular, os da rede pública seguem currículos rígidos das secretarias, sem preparação específica, apenas com material base e com número de aulas reduzidas a fim de abrigar todas as 15 disciplinas do novo currículo de ensino. Por sua vez, o colégio privado Santa Catarina, tradicional na cidade de Juiz de Fora, utiliza em suas aulas expositivas o material do renomado cursinho Bernoulli. A jovem, que sonha em ser professora, espera que, quando estiver na sala de aula, possa transformar essa realidade para seus futuros alunos.

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Nova resolução reduz a carga horária de Química no ensino médio estadual de SP para uma aula semanal, gerando críticas por possíveis prejuízos à aprendizagem. Foto: reprodução/@yeosector

A desigualdade se intensifica nos vestibulares tradicionais. Segundo Eliza Freitas, juiz-forana que foi candidata ao curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) através da Fuvest, esses exames reproduzem o elitismo de forma explícita. São questões densas, um processo seletivo com várias fases, taxas elevadas, deslocamentos para outros estados e até ausência de escolha de língua estrangeira. Desse modo, as provas deixam de selecionar candidatos e passam a eliminar aqueles que não tiveram acesso a condições semelhantes.

 

“Em uma prova de 90 questões, colocar 12 de inglês sem dar opção de escolha mostra claramente quem está sendo privilegiado. É um obstáculo para quem domina apenas o básico, que é a maioria no país”, explica Eliza. 

 

No fim, os vestibulares se tornam mais do que avaliação acadêmica: expõem desigualdades profundas. O desafio não é apenas estudar mais, mas enfrentar um sistema que pesa sobre alunos como João e Isabela desde o começo. 

Quando o “mérito” não dá conta da realidade

João sempre teve dificuldade em se imaginar como candidato às cotas, sendo um menino pardo que estudou a sua vida toda em escola pública, ainda não enxerga em sua caminhada a necessidade de aderir a tal aparato estatal. Cresceu ouvindo que “a vaga é para quem precisa” e internalizou a ideia de que recorrer à política diminuiria seus esforços. Mas, após três anos tentando entrar na universidade, entende que o debate não é simples e está longe de ser individual.

 

Ele reconhece que sua trajetória não se compara a de estudantes que enfrentaram obstáculos muito maiores. Entre eles, está Sophia Bispo, universitária de jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFJF, que considera as cotas uma ferramenta essencial de justiça social. Mulher negra e moradora da periferia, ela carrega na própria história o reflexo das desigualdades que a política busca amenizar.

 

“Hoje estou na universidade, mas é uma vitória acompanhada de peso”, admite Sophia. “O índice de mulheres negras no ensino superior ainda é muito pequeno. Então ocupar esse espaço é uma grande responsabilidade, mas também a prova de que as cotas funcionam.”

 

Em um país onde a maioria das oportunidades ainda se concentra nas mãos de quem sempre teve mais, as cotas ganham outro significado: tornam-se sinônimo de justiça. Sem elas, trajetórias como a de Sophia dificilmente cruzariam os portões da universidade.


No fim, a história de João Vicente mostra que a disputa por uma vaga vai além do acadêmico: envolve desigualdade, sobrevivência, escolhas e a tensão constante entre insistir e desistir. Evidencia que o sistema continua pesando mais sobre quem menos pode carregar e que políticas de reparação são essenciais para equilibrar um jogo que nunca começou justo.

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