COMPORTAMENTO
Milhas, estradas e tradições:
o destino dos juiz-foranos na virada do ano
Enquanto o Brasil se consolida como principal polo turístico mundial para o Réveillon, cidades mineiras como Juiz de Fora esvaziam suas ruas em busca de praias, festas e reencontros familiares.
Por Arthur Aguiar

Réveillon de 2025, Praia de Copacabana, Rio de Janeiro. Imagem por: Prefeitura do Rio de Janeiro.
O último pôr do sol do ano carrega consigo mais do que simbolismos. Carrega malas, expectativas e milhares de brasileiros em direção a praias, cidades históricas e serras relaxantes, próximas à natureza. São destinos que prometem transformar a passagem de 2025 para 2026 em uma memória inesquecível. Segundo dados divulgados pelo Ministério do Turismo, o Réveillon deste ano despertou em mais de 35% dos brasileiros o desejo de viajar pelo país, um percentual que representa aproximadamente 75 milhões de pessoas em movimento, tanto pelo céu quanto pela terra.
Internamente, a geografia do desejo brasileiro já está mapeada. Uma pesquisa recente realizada pela plataforma de turismo Booking revela que Rio de Janeiro, Florianópolis e Ubatuba despontam como os principais destinos entre os próprios brasileiros para a virada do ano. Mas o que essa estatística nacional diz sobre os moradores de Juiz de Fora? Para onde migra a população da Zona da Mata mineira quando os fogos de artifício começam a ser preparados?
“É uma cidade que se concentra no movimento de comerciantes e estudantes”, pontua o economista
juiz-forano Luciano Costa, “ou seja, uma cidade em que o público circula bastante entre os meses de férias. Tem todo um esvaziamento local, pois o público busca pelo litoral das cidades próximas.”
Até porque, as festas de fim de ano funcionam como um rito de transição geográfica peculiar. Para alguns, essa transição é modesta: o percurso entre o bairro onde moram e a casa dos avós, atravessando avenidas conhecidas e ruas de memória afetiva. Para outros, é uma jornada ambiciosa que cruza estados inteiros, reunindo famílias dispersas pelo mapa brasileiro ou até grupos de amigos que se reencontram anualmente em praias eleitas como ponto de encontro sagrado.
Quando a virada do ano vira dinheiro
O impacto econômico das festividades de fim de ano transcende o romântico desejo de celebração. Trata-se de “um aumento tanto na circulação de pessoas entre cidades e na renovação de vários setores da economia, tais como hospedagem, alimentação e transporte”, pontua Luciano Costa, “quase 40% da renda do ano do turismo se concentra no fim do ano”.
Os números são eloquentes quando se observa os três principais destinos nacionais. O Rio de Janeiro, líder dos destinos dos brasileiros, estrutura uma operação logística e comercial gigantesca para receber cerca de 2 milhões de pessoas na orla de Copacabana. A festa carioca, reconhecida internacionalmente, representa não apenas um espetáculo pirotécnico de 12 minutos, mas uma cadeia econômica que envolve desde vendedores ambulantes até redes hoteleiras de luxo.
A prefeitura do Rio investiu aproximadamente 15 milhões de reais na festa de Copacabana para a virada de 2024/2025, segundo informações divulgadas pela Riotur, empresa de turismo municipal. Esse valor cobre estrutura de palcos, segurança, limpeza urbana e a queima de fogos, mas representa apenas uma fração da movimentação financeira real gerada pelo evento. Hotéis, restaurantes, bares, casas noturnas e o comércio informal multiplicam esse valor dezenas de vezes.
Por outro lado, o esvaziamento de cidades do interior durante o Réveillon representa um fenômeno econômico ambíguo. Tendo comerciantes locais registrando queda nas vendas e no movimento. O economista finaliza: o que diferencia Juiz de Fora dos pólos turísticos próximos, é a falta de um apelo para quem é de fora. Falta de atrações. Não atrai um nível grande de turismo.
Hospedagens variadas
A preferência maciça dos brasileiros por destinos litorâneos durante o Réveillon não é acidental nem puramente emocional. Há elementos concretos que explicam por que praias dominam o imaginário da virada do ano.
“Minas Gerais é um dos estados com maior potencialidade para receber turistas”, pontua a turismóloga Lúcia Helena, “a gente recebe mais visitantes que envia e somos o segundo estado mais procurado do Brasil.” O dado, que ela confere no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apenas não prevê que “no entanto, muita gente sai de Minas para fazer o turismo de sol e praia durante o Réveillon, ainda mais pela proximidade.”
A força do Rio está em múltiplos fatores. A paisagem de Copacabana, com seus edifícios históricos abraçando a praia. A queima de fogos lançada de balsas no mar, visível de diversos pontos da orla. Os shows gratuitos com artistas de primeira linha e, principalmente, a mística carioca, a ideia de que celebrar o Ano Novo no Rio é participar da maior festa da virada do Brasil. “A preferência dos juiz-foranos, hoje, é muito diversificada. Com viagens, tanto dentro do Brasil quanto para o exterior”, explica Ana Carolina Malta, que trabalha na Agência de Turismo Pasadena. “Quem costuma viajar nesse período, se programa com bastante antecedência. Tendo outros destinos, como: Nordeste brasileiro, Europa e Estados Unidos.”
Para onde vai o juiz-forano?
Se as estatísticas nacionais apontam para Rio, Florianópolis e Ubatuba, o que dizem os moradores de Juiz de Fora? A geografia específica da Zona da Mata mineira, relativamente próxima do litoral fluminense, influencia decisivamente os destinos escolhidos.
“Não tenho costume de passar o Réveillon em Juiz de Fora”, afirma a estudante universitária e natural da cidade, Ana Luiza Tostes, “eu passava quando era mais nova. Agora eu costumo passar no Rio de Janeiro, já que busco me conectar com a natureza e com a praia nesse final de ano.”
O perfil de Ana Luiza reflete o comportamento crescente entre jovens de cidades médias: a substituição das festas familiares tradicionais por viagens com grupos de amigos da mesma idade. Essa mudança geracional redesenha o próprio conceito de Réveillon, transformando-o de celebração familiar em experiência de autonomia e liberdade.
A proximidade geográfica favorece Juiz de Fora. São aproximadamente 280 km até o Rio de Janeiro, distância percorrida em cerca de três horas pela BR-040, rodovia que conecta Minas Gerais à capital fluminense. Essa acessibilidade faz do litoral carioca opção viável até para quem planeja viagens mais curtas, de dois ou três dias. Ana Luiza destaca:
“Muita gente fica fora da cidade na virada do ano. O movimento jovem ainda é bem fraco por aqui. Eu gosto sempre de estourar um espumante e seguir os rituais! Comer as 12 uvas, pular as 7 ondinhas e estar com os meus amigos.”
Há também o perfil dos que viajam para o interior: fazendas na região, casas de campo em cidades serranas como Alto Caparaó, Visconde de Mauá, ou mesmo encontros familiares em outros pontos de Minas Gerais, como Ibitipoca. Esses deslocamentos, embora menos espetaculares que as viagens para o litoral, representam parcela significativa do movimento de fim de ano.
“Já estamos vendidos, full.” Comenta Heliane Machado, que trabalha no Ibiti Projeto, próximo à cidade de Lima Duarte e nas margens do Parque Estadual do Ibitipoca. “Nosso público é principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro e fora do Brasil. O Réveillon é uma data, que para a hotelaria, já se vende. Uma data que todo ano é um ponto alto e cheio.”

Ibiti Projeto, Ibitipoca, Minas Gerais. Imagem por: Ibiti Projeto.
PARA QUEM FICA: Juiz de Fora também celebra
A cidade não se rende completamente ao esvaziamento. Para os milhares de moradores que permanecem, seja por opção, compromissos profissionais, ou impossibilidade de viajar, Juiz de Fora prepara programação própria de Réveillon.
Diferente de Ana Luiza, a estudante universitária, Ana Júlia Belini, vai começar 2026 por aqui mesmo. “Eu vou passar com os meus amigos, num sítio aqui em Juiz de Fora”, mas acrescenta, “foi uma decisão minha, misturada com uma desorganização minha.” Ana Júlia trabalha como jornalista e devido à organização de escalas dentro da empresa, ela acabou ganhando um Réveillon em dia útil. “Tem três anos que eu passo o ano novo em Juiz de Fora, por conta do meu trabalho e eu não acho que compensa tanto gastar tanto dinheiro com uma data com uma viagem que posso fazer depois.”
Os planos da estudante ilustram, ainda que dentro da escala municipal, um desejo por escapar da cidade. Uma experiência que compartilha com Ana Luiza Tostes e tantos outros jovens juiz-foranos. Para quem fica e quer tentar a última chance em uma festa, tradicionalmente, bairros como o Centro, São Mateus e áreas próximas ao Parque Halfeld concentram movimentação na noite de 31 de dezembro. Bares e restaurantes apostam em ceias especiais, festas temáticas e contagem regressiva coletiva.
Clubes sociais e associações comunitárias organizam confraternizações para associados e convidados, como é o caso do Ritz Plaza Hotel, com show ao vivo da banda Applausi; o Cultural Bar, com open de comidas e bebidas madrugada adentro; e o Hotel Green Hill, com shows, comidas e bebidas liberadas e, claro, queima de fogos na virada.
A prefeitura de Juiz de Fora, nos últimos anos, tem investido em programação cultural gratuita para o fim de ano, embora em escala bem mais modesta que as grandes capitais. Shows, apresentações artísticas e queima de fogos em pontos estratégicos da cidade tentam oferecer alternativa para quem permanece.
Para muitos moradores, permanecer em Juiz de Fora não significa renunciar à festa, mas redefini-la. Confraternizações familiares em residências, jantares entre amigos, celebrações religiosas e até a opção de simplesmente descansar fogem ao estereótipo da viagem obrigatória para o litoral.
Essa diversidade de escolhas, viajar ou ficar, praia ou interior, festa grandiosa ou jantar íntimo, espelha a própria diversidade da cidade e de seus habitantes.
