ESPORTE
O grito de gol nunca mais foi o mesmo em Juiz de Fora
A cidade que já viveu dias de glória nas décadas de 70 e 80, hoje tenta entender como perdeu seu protagonismo no futebol do interior
Por Igor Neves e Lucas Emanuel
Um passado que ainda ecoa no Estádio Municipal Radialista Mário Helênio
Até quem não acompanhou de perto o auge do futebol juiz-forano sabe que ele existiu — e foi grande. Nas décadas de 1970 e 1980, Juiz de Fora era referência regional, com estádios cheios, clubes competitivos e uma atmosfera que colocava a cidade entre as mais relevantes do interior do país. O tempo passou, mas a queda foi brusca demais para ser esquecida.
Hoje, o cenário é tão diferente que parece outro esporte. Clubes sem calendário, projetos interrompidos, categorias de base muitas vezes inexistentes e torcedores que, pouco a pouco, foram trocando a arquibancada pelo sofá de casa. E o pior: para acompanhar somente jogos de times de outras cidades. Para entender esse declínio, seis vozes ligadas diretamente ao futebol local — três jornalistas, um ex-jogador, um torcedor e um técnico — ajudam a reconstituir uma história marcada por sucessos, fracassos e abandono.
Do protagonismo regional à perda de espaço
Durante décadas, Juiz de Fora ocupou uma posição de destaque no futebol do interior mineiro. Clubes estruturados dentro da realidade da época, rivalidades locais e uma forte presença popular ajudaram a consolidar esse protagonismo. O futebol era parte da identidade da cidade, mobilizava a população e tinha importância social e cultural.
Jornalista e referência na cobertura esportiva local, Márcio Guerra acompanha essa trajetória desde os anos de maior visibilidade. Ele relembra que, nos anos 1970 e 1980, o futebol juiz-forano era amplamente respeitado em Minas Gerais, com Tupi e Sport figurando entre as principais forças do interior. À época, os clubes integravam uma liga independente, anterior à filiação definitiva à Federação Mineira de Futebol, o que reforça o protagonismo regional da cidade.
Para Márcio, a decadência não ocorreu de forma imediata. À medida que o futebol se profissionalizou, os dirigentes locais não conseguiram acompanhar as transformações estruturais e econômicas do esporte. Ainda assim, ele destaca que a inauguração do Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, em 1988, representou uma oportunidade concreta de retomada que acabou sendo subaproveitada.
Gestão instável e decisões que custaram caro
Com o passar dos anos, os problemas administrativos passaram a se acumular. A falta de planejamento de longo prazo, somada à troca constante de dirigentes, impediu a consolidação de projetos esportivos consistentes.
O jornalista Matheus Brum, que pesquisa e acompanha o futebol da região, aponta que erros básicos de gestão foram determinantes para o enfraquecimento dos clubes. Segundo ele, decisões guiadas por interesses políticos, má administração financeira e a ausência de profissionalização em setores estratégicos criaram um ambiente instável. Em suas análises, Matheus reforça que momentos decisivos acabaram desperdiçados: quando o Tupi se aproximou de patamares mais altos em competições nacionais, não houve estrutura para sustentar o crescimento. Cada avanço era seguido por retrocessos, com desmontes frequentes de elencos e comissões técnicas.
Dinheiro curto, patrocínio escasso e impacto no campo
A fragilidade financeira tornou-se um entrave central para o futebol juiz-forano. Sem patrocinadores fortes e receitas recorrentes, os clubes passaram a conviver com dificuldades para manter suas atividades básicas, afetando diretamente o rendimento esportivo.
A instabilidade refletiu no cotidiano de atletas e comissões técnicas. Atrasos salariais, contratos frágeis e estruturas precárias passaram a fazer parte da rotina, afastando profissionais qualificados e diminuindo a competitividade das equipes. O futebol local, aos poucos, passou a ser visto como um ambiente de risco, o que aprofundou o ciclo de decadência.
Torcida distante e a dificuldade de mobilização
Outro fator apontado como determinante para o declínio foi a baixa mobilização do público. O jornalista Ivan Elias observa que, em momentos importantes, o apoio popular ficou aquém do esperado, mesmo em competições nacionais.
Ele lembra que os horários pouco atrativos e a lógica da televisão impactaram o comparecimento, mas avalia que isso não explica tudo. “É de conhecimento geral que os dias e horários da Série B são complicados, muitas vezes pensados para preencher a grade das emissoras. Ainda assim, a torcida local deixou a desejar”, afirma. Ivan recorda que, na estreia do campeonato, em uma sexta-feira à noite, o público foi bastante reduzido, o que acabou se repetindo ao longo da competição.
O jornalista também chama atenção para outro aspecto positivo historicamente presente na cidade: a capacidade de formar treinadores. Ele destaca que Juiz de Fora revelou profissionais que chegaram a patamares relevantes do futebol nacional, como Léo Condé, Felipe Surian e Alex Nascif, mas que a cidade falhou em manter projetos duradouros que valorizassem esse capital humano.
Dentro de campo, os reflexos da má administração
Ídolo recente do Tupi, o ex-atacante Ademilson Corrêa viveu de perto os impactos da instabilidade administrativa. Para ele, o problema central do futebol juiz-forano nunca foi técnico, mas estrutural.
“Quando eu jogava em Juiz de Fora, sentia falta de pessoas que realmente entendiam de futebol e sabiam administrar um clube”, relata. Ademilson afirma que a constante troca de gestores comprometia qualquer tentativa de continuidade. Projetos eram interrompidos, comissões técnicas desmontadas e o ambiente se tornava cada vez mais inseguro.
Ele também relembra que atrasos salariais se tornaram frequentes, mesmo em períodos nos quais o clube recebia recursos. “Chegou um momento em que precisei acionar o Tupi na Justiça. Nunca imaginei que faria isso, mas foi necessário”, afirma, evidenciando o grau de desorganização institucional vivido no período.

Ademilson, ídolo do Tupi, comemorando um gol no Estádio Municipal de Juiz de Fora - Foto: reprodução Leonardo Costa - Tribuna de Minas
O olhar do torcedor comum
Para quem acompanhou o clube das arquibancadas, o sentimento é de frustração. O torcedor Leonardo Lima avalia que o distanciamento entre a cidade e seus clubes também passa por uma questão cultural.
Ele observa que a forte influência do futebol do Rio de Janeiro em Juiz de Fora fez com que grande parte da população priorizasse clubes cariocas, enfraquecendo o vínculo com as equipes locais. Ainda assim, Leonardo aponta que as diretorias também falharam ao não criar estratégias eficazes de aproximação com o público, deixando de transformar o estádio em um espaço atrativo e integrado à cidade.

Léo Lima curtindo uma das maiores paixões de sua vida: acompanhar o Tupi de perto - Foto: reprodução Leonardo Lima - Instagram @leolimajf
A resistência das organizadas
Mesmo em meio à crise, alguns grupos mantiveram viva a identidade do futebol local. Integrante da Tribo Carijó, torcida organizada do Tupi, Lucas Mokdeci representa essa resistência.
Para ele, a torcida organizada sempre tentou suprir, em alguma medida, a ausência institucional. “A arquibancada fez o possível para manter o clube vivo, com mobilizações, ações e presença constante, mesmo nos piores momentos”, afirma. No entanto, Lucas reconhece que o esforço do torcedor tem limites. Sem transparência, planejamento e projetos claros, o engajamento tende a se desgastar.
Segundo ele, o torcedor precisa enxergar perspectivas reais para continuar acreditando e apoiando.
Base abandonada e talentos perdidos
No setor formativo, os problemas se repetiram. O treinador de categorias de base Sérgio Moraes afirma que Juiz de Fora sempre revelou bons jogadores, mas falhou em dar sequência ao trabalho.
Segundo Sérgio, muitos jovens sequer tiveram a chance de treinar com o elenco profissional. Faltou integração entre base e time principal, além de confiança no que era produzido localmente. Como consequência, inúmeros talentos deixaram a cidade ainda jovens, reforçando clubes de outras regiões e ampliando a sensação de desperdício esportivo.
O que ficou e o que ainda pode voltar
O declínio do futebol profissional em Juiz de Fora é resultado de uma soma de fatores: má gestão, instabilidade financeira, ausência de patrocínios, baixa mobilização das torcidas e negligência com a base. Mais do que perder competições, a cidade perdeu parte de sua identidade esportiva.
Ainda assim, há consenso entre as fontes ouvidas de que a retomada é possível. Para isso, será necessário planejamento, profissionalização e continuidade. Juiz de Fora precisa decidir se quer voltar a ter futebol profissional. Se quiser, o caminho será longo — e exigirá algo que o futebol local já desperdiçou demais: tempo.
