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CULTURA

Quem ocupa a noite: minorias ganham visibilidade na cena noturna de Juiz de Fora, mas enfrentam limites

 Apesar dos avanços, a inclusão de pessoas LGBTQIAPN+ e negras nos bares e casas noturnas da cidade ainda é parcial e depende de nichos específicos.

Por Nickolas Pereira

Sob luzes coloridas e batidas dançantes, a noite juiz-forana se transforma em um palco de encontros, expressões e resistências. Mas, para corpos que historicamente enfrentam exclusão, como os LGBTQIAPN+ e pessoas negras , estar nesses espaços não significa, necessariamente, pertencer a eles. A cidade tem testemunhado o crescimento de festas voltadas à diversidade, mas também revela os limites de uma inclusão que, muitas vezes, se esgota na superfície.

Ocupação parcial

Na última década, Juiz de Fora viu surgir bares, festas e coletivos com foco na diversidade. Embora o discurso de inclusão esteja mais presente na noite local, ainda são comuns os relatos de discriminação, invisibilização ou tratamento desigual. Para quem faz parte de grupos minorizados, ocupar esses espaços exige mais do que disposição para sair de casa.


“Aqui a gente ainda escolhe muito bem onde ir. Não dá pra sair em qualquer lugar achando que vai ser tranquilo”, afirma Ana Beatriz Santos, 26 anos, mulher trans e produtora cultural. “Tem bar que te olha de cima a baixo e te trata com descaso, principalmente se você for trans ou travesti.”


Segundo Ana, apesar de algumas iniciativas mais acolhedoras, grande parte dos espaços continuam hostis ou apenas “toleram” a diversidade. “Tem lugar que só nos aceita porque sabe que é moda dizer que é inclusivo. Mas, na prática, na hora de resolver uma situação de preconceito, a gente continua sem respaldo.”


Ela também relata situações mais sutis, mas igualmente incômodas. “Já entrei em festa que ninguém olhou na minha cara. Parece besteira, mas você sente no ar quando está sendo tolerada, e não recebida.”

Espaços alternativos e segmentação

O Rocket Pub é um dos locais citados como referência positiva entre pessoas LGBTQIAPN+. Segundo Vitor Folk, 34 anos, sócio-proprietário da casa, o ambiente sempre foi pensado como um lugar seguro, embora ele reconheça que essa segurança não é absoluta.


“A gente tem uma política interna de respeito à diversidade, mas sabemos que isso precisa ser reforçado o tempo todo”, diz. “Já tivemos que lidar com casos de assédio e falas preconceituosas dentro do bar. O problema não é o espaço em si, mas o que entra junto com o público”, relata.

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Na escuridão da noite, as minorias se libertam / Foto: Instagram RocketPub

Para Vitor, o desafio é manter a coerência entre o discurso e as práticas. “Não adianta só ter bandeira na parede. É preciso agir quando alguém se sente desrespeitado, e isso dá trabalho. Mas é parte da responsabilidade que assumimos.”


O bar organiza festas temáticas e recebe artistas de diferentes estilos, apostando em uma programação que privilegia diversidade de gênero, orientação sexual e raça. "Mas mesmo a curadoria artística tem que ser pensada. Às vezes, a pressão por atrair público grande pode levar a escolhas que não condizem com o que queremos defender", explica.


Ele também pontua a diferença no tipo de público que frequenta o bar aos fins de semana e durante eventos especiais. “Tem dias que o ambiente é mais diverso, tem outros que não. Tudo depende da festa e de como ela foi pensada”, complementa Vitor.

Representatividade seletiva

Nem toda festa é para todos. Quem está nas pistas ou nos palcos sente as limitações do que se entende como “inclusão”. Kauan Ferreira, de 29 anos é DJ e produtor de eventos e relata que as oportunidades de trabalho aparecem mais em festas segmentadas, voltadas para públicos já engajados com a diversidade.

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O barulho dos leques indica diversidade presente / Foto: Instagram Rocket Pub

“Em festas mais generalistas, você vê um padrão que se repete: DJs homens, brancos e héteros. Quando chamam alguém como eu, é quase como cota. E, mesmo assim, te jogam no começo da festa, antes de o público encher.”


Kauan também aponta um padrão nas escolhas musicais. “Tem lugar que te chama pra tocar, mas já avisa: 'só não exagera nos funks ou nos sons muito alternativos’. Ou seja, querem diversidade até a página dois.”

 

Ele afirma que muitos colegas deixam de tocar em festas locais por não se sentirem respeitados profissionalmente. “Já recebi cachê menor que outros DJs que tocaram depois de mim. Quando questionei, falaram que era por tempo de pista. Não bate. Era o mesmo tempo.”

“Mesmo quando a gente entrega um set bom, é como se nunca fosse o suficiente. Não é só estar na line, é ser respeitado como artista”, completa.

Dados e distâncias

Segundo uma pesquisa feita pelo departamento de cultura da Universidade Estadual de Belo Horizonte em 2024, 74% dos eventos com line-up alternativo ainda têm maioria de atrações brancas e cisgêneras. A pesquisa, feita com base em cartazes de festas locais, reforça a percepção de uma diversidade mais estética do que estrutural.


A pesquisadora Luciana Andrade, doutoranda em Antropologia pela UFJF, diz que a ideia de representatividade na noite muitas vezes ignora as camadas sociais e raciais. “Existe uma certa glamourização da presença LGBTQIAPN+ nesses espaços, mas sem considerar que a maior parte do público ainda é branco, de classe média e com capital simbólico para circular nesses ambientes.”
Ela destaca que o modelo de festa que se repete em Juiz de Fora é importado de grandes centros, mas sem uma reflexão profunda. “É uma diversidade que cabe dentro do consumo. Fora disso, as portas continuam fechadas.”


Luciana também ressalta que a cena noturna ainda depende muito de iniciativa privada. "O poder público não está inserido nessa discussão. Não há fomento direto para festas e projetos voltados à diversidade. É tudo por conta de coletivos ou empresários específicos."


Ela menciona que esse vácuo de políticas públicas também impacta a segurança. “Não há protocolos municipais de segurança voltados para populações LGBTQIAPN+. Isso faz com que, mesmo nos espaços considerados seguros, não exista garantia efetiva.”

Segurança e discriminação ainda preocupam

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Décima edição da Festa Treta / Foto: Instagram Rocket Pub

Relatos de violência verbal ou simbólica são comuns, mesmo em locais que se dizem inclusivos. Uma enquete feita pelo perfil "JF Alternativa", que cobre a cena cultural da cidade, recebeu 132 respostas sobre experiências negativas na noite: 59% relataram algum tipo de constrangimento, desde olhares hostis até recusa de atendimento.

Renata Luz, 32 anos, advogada e integrante de um coletivo de apoio jurídico à população LGBTQIAPN+, afirma que muitos casos não são levados adiante. “As pessoas não denunciam porque não acreditam que vai dar em alguma coisa. E muitas vezes, realmente não dá.”

Ela alerta que a responsabilização dos estabelecimentos ainda é frágil. “O que mais ouvimos é: ‘foi um caso isolado’. Mas quando os casos isolados viram padrão, é sinal de que o problema está na estrutura.”

Para ela, falta regulamentação e fiscalização. “Juiz de Fora não tem protocolos claros sobre diversidade na noite. Quem se importa, se importa porque quer, não porque é obrigado.”

Renata também critica a falta de articulação entre os estabelecimentos e os movimentos sociais. “Raramente os bares chamam coletivos para conversar sobre segurança ou acolhimento. Preferem resolver sozinhos ou ignorar.”

Mais do que presença: poder

A presença de corpos diversos na noite juiz-forana aumentou, mas isso não significa que esses corpos detenham o controle dos espaços. Como aponta Luciana Andrade, “a representatividade verdadeira se dá quando essas pessoas não só frequentam os espaços, mas também decidem, contratam, produzem e lucram com eles.”

 

Kauan concorda: “Estar presente é só o primeiro passo. O problema é que muita gente acha que isso já é suficiente. Não é.”

A pesquisadora também reforça que a pauta da representatividade precisa dialogar com questões econômicas. “A entrada nesses espaços, muitas vezes, é cara. O consumo também. Se você não tem renda, sua participação é limitada. Isso também é exclusão.”

Enquanto a cidade continua expandindo sua vida noturna, a ocupação de corpos minorizados seguirá sendo negociada entre o que é permitido, o que é tolerado e o que é, de fato, valorizado.

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DJ Vitor Urdinalli agita a pista / Foto: Instagram Rocket Pub

E para que a diversidade não se limite a uma hashtag ou à estética da pista, os caminhos passam por mais diálogo, regulação, protagonismo e presença crítica. Representar não é só estar: é também decidir, resistir e transformar.

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