COMUNIDADE
Personagens invisíveis: a importância dos TAE na UFJF
Greve dos técnicos administrativos expôs a essencialidade da categoria na rotina universitária e a falta de valorização dos trabalhadores
Por Kamila Magalhães e Maria Fernanda Esteves

Fachada do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação de Juiz de Fora/ Foto: Kamila Magalhães
Invisíveis para muitos, mas indispensáveis para o funcionamento da UFJF, os técnicos administrativos em educação (TAEs) tiveram sua importância evidenciada pela greve iniciada em fevereiro deste ano. A paralisação afetou desde aulas práticas até atendimentos à população, revelando que, por trás da rotina universitária, há uma categoria essencial que ainda enfrenta falta de reconhecimento e valorização.
“Nós, técnicos administrativos, somos os tentáculos da universidade”. É dessa maneira que o Coordenador Geral do Sindicato dos Trabalhadores Técnicos Administrativos em Educação de Juiz de Fora (Sintufejuf), Carlos Augusto, define a categoria. A greve dos TAEs, que perdurou de fevereiro a junho de 2026, mostrou que a categoria é peça fundamental no funcionamento das universidades federais.
Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), os impactos atingiram diferentes setores, desde o funcionamento administrativo, até aulas práticas em diversas faculdades. Mesmo fazendo o maquinário rodar dia após dia, a invisibilidade dos TAEs ainda são muito presentes no imaginário coletivo da comunidade. Por trás de cada aula lecionada, de cada atendimento de saúde oferecido à população e de cada apoio acadêmico ofertado, existe um técnico administrativo auxiliando os docentes, os médicos e os estudantes. E essa falta de reconhecimento se expande também para os direitos trabalhistas desses funcionários.
Por trás dos bastidores
O produto final chega até a população, mas a produção fica limitada ao anonimato. Como comentou Rogério da Silva, Coordenador dos aposentados no Sintufejuf e ex técnico administrativo da faculdade de farmácia, a universidade é constituída por um tripé: TAEs, professores e estudantes. Mas o pilar dos TAEs tem se mostrado sem força perante à sociedade.
Para o Coordenador Geral do sindicato, isso é um problema que ultrapassa o território acadêmico: “Na verdade, isso aí é uma falta de conhecimento da população como um todo, porque quando você fala em universidade, você fala em ensino, e você falando em ensino, você fala em quê? Em professor”.
Tudo passa pelos técnicos, as aulas práticas, seja nas faculdades da área da saúde ou de humanas, são preparadas por esses funcionários. As disciplinas são lecionadas pelos docentes, mas isso só ocorre porquê, nos bastidores, existem funcionários trabalhando para a montagem dessas aulas. A esterilização, a montagem e a preservação dos equipamentos utilizados são realizados por esses funcionários, que, como ressaltou Carlos, há alguns anos, têm procurado qualificação dentro de sua área de atuação. Como Rogério, hoje aposentado, conquistou sua graduação aos 52 anos para continuar oferecendo um serviço de excelência dentro da universidade.
Esse trabalho também se mostra fundamental nos atendimentos prestados à população juiz-forana nos hospitais universitários e nas clínicas presentes dentro da própria universidade. Além de Coordenador Geral do sindicato, Carlos também trabalha como auxiliar de enfermagem no Hospital Universitário (HU), e relata que a orientação prática vem exclusivamente dos técnicos: “ Um professor chega no hospital escola, ele não sabe onde fica uma seringa, não sabe onde fica uma medicação. Quem acaba orientando nessa questão mais prática são os próprios técnicos administrativos que trabalham no dia a dia”.
Os impactos no dia a dia
Se o trabalho dos TAEs costuma passar despercebido na rotina universitária, a paralisação da categoria evidenciou o quanto suas funções são primordiais para o funcionamento dos cursos e serviços da universidade, principalmente na área da saúde, onde suas atividades vão desde a documentação e registros estudantis, até o atendimento nas clínicas.
Segundo a professora Flávia, atual coordenadora do curso de Odontologia da UFJF, os TAEs estão presentes em todas as etapas do atendimento realizado pela faculdade, desde a recepção e triagem de pacientes até setores como almoxarifado, central de materiais, laboratórios e esterilização dos instrumentos utilizados nas clínicas. “A gente é impactado de uma maneira bem completa, em todos os setores”, afirma.
Como grande parte do currículo em Odontologia acontece dentro da própria faculdade, a interrupção dessas funções afetaram diretamente as atividades acadêmicas e a prestação de serviços à comunidade. Durante boa parte da greve, as clínicas permaneceram paralisadas e os atendimentos ao público foram suspensos.
A percepção dos estudantes reforça o impacto. Letícia Soares, aluna do 5º período de Odontologia, conta que a greve interrompeu justamente a fase em que os alunos iniciam os atendimentos clínicos, fundamental para a formação profissional.
Sem a possibilidade de utilizar as clínicas, parte das atividades práticas precisou ser transferida para os laboratórios. Para a estudante, no entanto, a substituição não oferece a mesma experiência de aprendizagem. “Quando você está na clínica, está lidando com um paciente real. No laboratório, a prática é muito diferente e não consegue reproduzir as situações que encontramos no atendimento”, explica.
A discente afirma que antes da paralisação, não sabia dimensionar o valor dos técnicos-administrativos para o funcionamento do curso. “Não tinha muita noção da importância dos TAEs no dia a dia da Odontologia, mas a realidade é que precisamos muito desses profissionais para que a clínica e todo o resto aconteça.”
A retomada de algumas atividades clínicas ocorreu a menos de um mês, apenas após a resolução de um acordo interno entre organizações estudantis como o Diretório Acadêmico e o Diretório Central dos Estudantes (DCE), e órgãos da própria universidade, a Direção e Pró-Reitoria de Graduação. O acordo estipula um sistema de revezamento na esterilização e a adaptação das equipes docentes para realizar parte das tarefas operacionais. Atualmente, a faculdade conta com duas técnicas administrativas, Cláudia e Luziane, que operam em turnos alternados para suprir a demanda.
Letícia ainda explica sobre a realização da nova escala na prática. “A gente voltou graças a esse acordo, mas tudo continua reduzido. Em vez de atendermos dois pacientes, muitas vezes atendemos apenas um, porque a capacidade de funcionamento ainda não voltou ao normal”, relata.
Apesar dos impactos na rotina do curso, o calendário acadêmico não precisou ser alterado como nas outras greves. Segundo a coordenação, a estratégia adotada foi intensificar a carga horária prática para recuperar as atividades pendentes até o início do próximo período letivo, que inicia em agosto.
Para Flávia, a greve também serviu para evidenciar a importância dos técnicos-administrativos para toda a universidade. “É essencial. Em qualquer esfera da universidade, a ausência deles gera prejuízos. Não tem outra palavra: é uma categoria essencial”.

Prédio da faculdade de Odontologia da UFJF / Foto: Kamila Magalhães
Do anonimato ao cenário nacional
Em 2024, as instituições federais ficaram vazias por quase dois meses. Reivindicando pautas como reajustes salariais, reestruturação de carreira e verba para o ensino superior, os professores e servidores das universidades públicas foram às ruas exigindo negociações e diálogos com o governo federal. Das 26 propostas assinadas no acordo feito com o Ministério da Gestão e Inovação (MGI), 18 não foram cumpridos até o momento, entre elas a redução da jornada para 30 horas semanais sem redução salarial e o reconhecimento de saberes e competências para aposentados e pensionistas.
Neste ano, a UFJF voltou a ficar parcialmente vazia com a adesão da greve por parte dos técnicos administrativos em educação. Essa é uma nova tentativa de diálogo com o governo federal para o cumprimento do acordo estabelecido no ano passado. Para Eduardo dos Santos, assistente administrativo na faculdade de farmácia da UFJF, a paralisação perde força por não contar com o engajamento dos professores: “ A gente está indo para quase quatro meses de greve sem que, de fato, se resolva o que precisa resolver. A não adesão dos professores, mostra, não que somos invisibilizados, mas que possui um descaso um pouco maior, em relação aos cargos de TAEs”.
A luta é por uma condição digna de trabalho para esses funcionários, desde à manutenção e melhorias nos equipamentos utilizados até a construção de um ambiente saudável. Rogério pontua que, mesmo com a diminuição dos casos de assédio moral dentro da universidade com os técnicos, ainda existem trabalhadores que adoecem e abandonam seus cargos por sofrerem opressão.
Carlos ressalta ainda que, essa falta de conhecimento é um dos fatores que faz a greve ser vista com maus olhos: “E a nossa greve, todas elas, a gente sempre busca o DCE, a gente está conversando e construindo junto. A gente sabe que traz transtorno para vocês, numa greve, a gente trabalha muito mais do que se a gente estivesse trabalhando no nosso setor dia a dia”. E reforça que, dentro da universidade federal, estudantes, professores e técnicos são uma família.
