ESPORTE
Do asfalto à transformação
As corridas de rua conquistam o Brasil como símbolo de saúde, superação pessoal e conexão coletiva, e viram pontes para uma vida mais leve, longa e significativa
Por Camille Vitória e Rodrigo Emanuel

Segundo CBAt, mais de 4 milhões de brasileiros participam de corridas no país todo ano/ Imagem gerada por IA
Seja em grandes maratonas ou em provas de bairro, o cenário é cada vez mais familiar: multidões de pessoas de todas as idades e corpos ocupando avenidas, calçando tênis, vestindo camisetas coloridas e, sobretudo, transformando vidas. A corrida de rua, uma vez vista como esporte de alto rendimento ou estilo de vida restrito a poucos, tornou-se um movimento social que arrasta milhões de praticantes no Brasil.
Segundo a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), mais de 4 milhões de brasileiros participam, anualmente, de corridas organizadas em todo o país. Mas o fenômeno vai além dos números. Ele pulsa em histórias reais de superação, saúde integral e pertencimento, como a da Isadora Bomtempo, estudante de jornalismo da Universidade Federal de Juiz de Fora e influenciadora, que encontrou, nas ruas de Belo Horizonte, um símbolo inesperado do que é correr.
“Vi uma senhora de 70 anos correndo com o filho. A camisa dele dizia: ‘Grita para minha mãe, ela já tem 70 anos”, relembra Isadora, ao falar da tradicional Volta Internacional da Pampulha, em 2022. “É uma festa. Tem gente de fantasia, família empurrando bebê, todos ali pelo prazer da corrida”, afirma.
Para Isadora, a cena foi mais que emocionante, foi um retrato do espírito da corrida atual: acessível, afetuosa e diversa. Um espaço onde a performance divide lugar com comunidade.
Entre a dor e a conquista
Na contramão do glamour que muitas vezes envolve o universo fitness, há quem tenha encontrado na corrida a tábua de salvação contra crises emocionais, estéticas e de saúde. O jornalista Luiz Felipe Novais Falcão conhece bem esse percurso.
“Era difícil. A cobrança era enorme e eu não me sentia bem comigo mesmo”, diz ele, ao lembrar que chegou a pesar 125 kg no auge da pressão estética profissional vivida em frente às câmeras. Foi em Juiz de Fora, com o apoio de uma treinadora, que deu os primeiros passos. Primeiro na esteira. Depois, nas ruas. Até que chegou o grande salto: a maratona.
“A primeira foi assustadora. Correr 42 km parecia impossível. Mas, ao cruzar a linha de chegada na Maratona do Rio, chorei como nunca. Foi dor, superação... e até um pouco de arrependimento por ter topado aquilo”, brinca. “Mas me inscrevi de novo semanas depois.”

Jornalista Luis Ribeiro Falcão correndo na maratona Rio 2024 / Foto: Reprodução / Arquivo pessoal
Do tropeço ao pódio interior

Vanessa realiza seu treino na Via São Pedro, percurso conhecido entre corredores locais / Foto: Reprodução / Arquivo pessoal
Nem toda trajetória começa com brilho. Às vezes, começa com tropeços — literalmente. Foi assim com Vanessa Rodrigues, engenheira civil e professora de matemática, que iniciou na corrida com o objetivo de emagrecer. “Minha primeira corrida foi bem fraca. Caminhei mais do que corri. Mas uma conversa com a amiga Rúbia virou a chave. Ela ia buscar um kit de inscrição para uma corrida e eu disse: na próxima vou também”, relembra.
Hoje, para Vanessa, correr é mais que estética: é identidade e se tornou inspiração para outras mulheres. “Algumas pessoas se motivam com minha história. Isso me dá força, até nos dias difíceis.” Ela confessa que a mente ainda tenta boicotá-la, mas a sensação ao final de cada treino é recompensadora. “Me sinto vitoriosa e orgulhosa. A endorfina deixa meu corpo mais relaxado.”
Com a prática, as mudanças de hábito vieram naturalmente: acordar cedo, reduzir o álcool e refazer o círculo de amizades. Criou, com outras mulheres, o grupo “Vem Sofrer”, focado em corridas de trilha, que exigem preparo físico, técnica e resistência. “A musculação é essencial. Músculo forte, corrida forte!”, defende.
Apesar do crescimento da modalidade, Vanessa faz uma crítica ao apelo consumista promovido nas redes sociais, apontando que muitos acreditam ser necessário investir em tênis caros, relógios de alto valor e acessórios importados para se tornarem corredores, quando, segundo ela, o que realmente importa é o comprometimento com a prática.
Entre suas conquistas, a mais marcante foi completar sua primeira meia maratona de mãos dadas com Rúbia, a amiga que a incentivou. Outra prova inesquecível foi a WTR Arraial do Cabo: “Foram 21 km de trilhas, subidas, paisagens deslumbrantes. Não sei se alguma corrida vai superar essa.”
Treinar com consciência, correr com prazer
A corrida pode parecer uma atividade simples, mas exige planejamento, técnica e atenção ao corpo. De acordo com o treinador e assessor de corredores Ederson Santos, qualquer pessoa pode iniciar na modalidade, desde que siga orientações adequadas e respeite seus próprios limites. “É essencial começar com consciência. Roupas leves, hidratação constante e tênis adequado são o mínimo”, alerta. “E nada de treinar forte dois dias seguidos. Isso só gera lesão e frustração.”
O assessor destaca que o segredo da evolução na corrida está na constância. Para ele, embora correr seja um movimento natural, o corpo precisa de tempo para se adaptar, e a pressa pode comprometer os resultados.
Se para muitos a corrida começa como uma busca estética, os ganhos ultrapassam, e muito, a balança. A médica generalista Mariana Melo ressalta que a corrida traz benefícios tanto físicos quanto mentais, ajudando na saúde do coração, na prevenção da hipertensão, do infarto e no controle do peso. Além disso, destaca os efeitos emocionais positivos, como a redução da ansiedade e dos sintomas de depressão, além da melhora na qualidade do sono — o que, segundo ela, leva muitas pessoas a abandonarem o uso de medicamentos. Mariana reforça que não há idade para começar e afirma: “A corrida é para todos. Basta respeitar os limites e iniciar de forma segura.”
Mais que esporte: um novo estilo de vida
As histórias de Isadora, Luiz Felipe, Vanessa — somadas às orientações de Ederson e Mariana — mostram que a corrida de rua no Brasil deixou de ser apenas um esporte. Ela virou linguagem de afeto coletivo, autocuidado e superação diária.
Num país onde 47% da população está sedentária, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a corrida surge como alternativa viável e democrática. Com um par de tênis e disponibilidade para enfrentar os primeiros passos, qualquer pessoa pode cruzar suas próprias linhas de chegada, sejam elas físicas, mentais ou emocionais.
A vivência no esporte mostra que é muito além de cruzar a fita em primeiro lugar, mas de atravessar os próprios limites. No compasso da respiração e no ritmo dos passos, milhões de brasileiros estão descobrindo que, mais importante que o destino, é quem se torna durante o caminho.
