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CULTURA

Crochê é trend: Como a geração Z resgatou o item fashion

Muito além de um passatempo, ele virou tendência nas ruas, redes sociais e passarelas, estampando peças feitas à mão e com identidade própria.

Por Priscilla Martins

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Ana Clara Araújo mostra que faz suas próprias bolsas com crochê.

Colorido, “do it yourself” e cheio de personalidade, o crochê conquistou de vez o guarda-roupa da geração Z. Jovens nascidos entre 1995 e 2010 redescobriram na técnica, antes associada às avós, como uma forma criativa de lazer, um resgate afetivo e, para alguns, até uma nova fonte de renda. 

 

Especialistas em moda abordam que o estilo simboliza um retorno às técnicas ancestrais e ao cuidado no processo de criação. Ao unir memória afetiva e inovação, ele ganha força como expressão de identidade e exclusividade.

 

Ana Clara, Débora e Maria Luiza compartilham suas histórias e mostram como essa prática tradicional ganhou novos significados em meio a uma geração marcada pela rapidez das informações, pela expressão estética e pela busca por autenticidade. As jovens tiveram um interesse genuíno pela costura, afastando a ideia de herança de família e contaram com detalhes como a atividade tomou conta de suas rotinas. 

Mas, afinal, quando veio o “comeback” do crochê?

Ninguém sabe ao certo quando começou, existem teorias que informam que os primitivos realizavam esses bordados, sendo usados para caça e pesca. Já outras relatam que o crochê ganhou espaço a partir de 1800, quando a francesa Riego de La Branchardiere desenhou padrões que podiam ser facilmente copiados e publicou um livro para que outras pessoas pudessem reproduzir. Por outro lado, o crochê no Brasil, segundo Anne Galante, crocheteira da Escola de Artes Manuais, remonta ao período colonial, quando a técnica foi trazida pelos europeus. Com o tempo, foi sendo incorporado às práticas culturais locais, principalmente entre mulheres, como atividade doméstica e de transmissão entre gerações, passando de tetravó, para bisavó, avó, mãe e por fim, até os jovens da geração Z. 

 

Nas redes sociais, vídeos feitos por criadoras de conteúdo no Tik Tok, Instagram e Pinterest buscam ensinar a costurar suas próprias peças em casa, com relatos de processos que duram até uma semana para ficarem prontas. O resgate da técnica vem criando comunidades onde as pessoas podem compartilhar seus momentos e expor seus trabalhos na internet. Para a pesquisadora e designer de moda Bruna Villas Bôas, “o resgate da cultura primitiva vem com os seus costumes, técnicas e todo o arsenal desenvolvido. Ela observa as inovações nos produtos de moda para atender as necessidades do consumidor.

 

Em outras palavras, o crochê, com suas raízes ancestrais, oferece não apenas um meio de expressão artística e criativa, mas também um caminho para a inovação na moda. Para Bruna, ele atende a uma busca por autenticidade, auto aceitação e uma conexão mais profunda com o processo de produção, impulsionando uma transformação no consumo e na percepção da moda. Essa valorização do "feito à mão" e do consumo consciente reflete uma mudança cultural mais ampla, onde as pessoas procuram um estilo de vida que seja mais alinhado com seus valores e identidades.

Crochê virou um hobby para amar

Ana Clara Araújo começou a cursar oficinas de artesanato presenciais em seu tempo livre, e por lá aprendeu pontos básicos. “Foi difícil no começo, mas depois fui pegando o jeito e comecei a me aventurar por conta própria, procurando inspirações no Pinterest, Youtube e Tik Tok”, relata a estudante de pedagogia.

Maria Luiza Guimarães teve uma experiência semelhante. A estudante de jornalismo era fã de bordados livres, mas apareceu a oportunidade de fazer uma oficina de crochê pelo Pibiart, projeto de iniciação artística oferecido pela UFJF. Ela fez, gostou e quando percebeu estava imersa no universo do artesanato.

Débora Motta contou que buscava por uma atividade para se acalmar enquanto aguardava a sua aprovação em uma vaga de emprego. Em seu feed das redes sociais, apareciam pessoas usando peças de crochê, o que despertou seu interesse em aprender. Além disso, a prática virou uma renda extra para ela. “Eu costumo sair com minhas peças e muitas pessoas me param na rua perguntando de onde são, quem fez e acabam fazendo encomendas.”

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Débora é da cidade de Bicas e criou o top com referências das redes sociais.

Uma nova forma de pensar moda e consumo

Em tempos de consumo acelerado e descartável, o crochê se destaca como símbolo do “slow fashion”, movimento que propõe uma moda mais ética, durável e consciente. Valorizando o processo manual, o tempo investido em cada peça e o reaproveitamento de materiais, a técnica artesanal se alinha ao desejo crescente por práticas sustentáveis no vestir. "Ao entender a qualidade de um produto feito artesanalmente, percebe-se a diferença em relação aos produzidos por máquinas”, ressalta Maria Luiza. 

Para Ana Clara, a capacidade de criar suas próprias peças trouxe uma grande mudança na forma como ela via o crochê. “Como o crochê é um hobby caro, a gente valoriza ainda mais as peças que fazemos, usando-as mais vezes, evitando fazer um descarte compulsivo”, explica.

O item fashion nas tendências pelo mundo

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A marca carioca apostou o estilo em sua coleção verão 2026 

Marcas como Farm Rio, Marine Serre e até Bottega Veneta apostam em peças artesanais em suas coleções, resgatando a estética “handmade” com um toque moderno e descolado. No Brasil, o movimento ganhou ainda mais força nas feiras independentes, onde criadores locais apresentam roupas únicas, feitas sob medida e com forte apelo sustentável. “O crochê se insere nisso, pois ele mostra que não precisamos ser dependentes de grandes marcas para termos roupas, bolsas e acessórios delas. Ele por si só traz um valor sentimental e estético que ultrapassa o luxo imposto por elas”, destaca a estudante de pedagogia.

Nas redes sociais, influenciadores como Thaynara OG e Isabela Matte popularizaram o uso do crochê em looks de verão, festivais e dia a dia, sempre com cores vibrantes e modelagens ousadas. A estética boho chic, que mescla o retrô ao contemporâneo, encontrou no crochê uma forma de expressão que foge do industrial e celebra o feito à mão.

Segundo a jornalista e consultora de moda Lilian Pacce, “o crochê traduz esse desejo da moda por uma reconexão com o tempo, com as raízes e com o cuidado no processo”. Ela destaca que o visual artesanal virou símbolo de exclusividade e afeto, especialmente para uma geração que valoriza histórias por trás da roupa que veste. Desta forma, tem sido peça-chave na releitura do crochê como linguagem de estilo e identidade, desmistificando a ideia de que os jovens estão totalmente imersos no digital e desconectados de práticas manuais. 

Atualmente, essa tendência adota um visual mais contemporâneo, afastando-se da associação exclusiva a panos de mesa e almofadas. O feito à mão passou a ser visto como um gesto que envolve desaceleração, consciência ambiental, memória afetiva e a valorização do trabalho criativo. Entre uma agulha e outra, o que se constrói vai muito além de uma peça de roupa, é uma forma de vestir propósito, história e pertencimento.

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