CULTURA
Skate, resistência e inclusão social
A história do skate no Brasil e sua influência na cena de Juiz de Fora
Por Helena Levate e Maysa Alviano

Voluntários da AJS com seus alunos no bairro São Pedro. / Imagem: Instagram @ajsjuizdefora
Foi em 1950, na Califórnia (EUA), que o skate passou a existir. Frustrados com os longos períodos sem ondas, os surfistas decidiram desmontar os patins e pregar suas rodas há pedaços de madeira. Assim, nasceu o que eles chamavam de sidewalk surfing, ou uma simulação do surfe no asfalto. Os primeiros modelos eram simples, mas rapidamente se popularizaram na região. Desta forma, em 1959 foram criadas marcas de peças mais elaboradas, o que ajudou na propagação do esporte pelo mundo.
No Brasil, o skate surgiu na década de 60, trazido por surfistas filhos de norte-americanos. Inicialmente apelidado de “surfinho”, o esporte começou a ganhar espaço no país, e em 1974, no Rio de Janeiro, ocorreu o primeiro campeonato brasileiro de skate. Neste mesmo ano, também foi inaugurada a primeira pista pública, em Nova Iguaçu (RJ).
Atualmente, o skate é um dos esportes com maior número de adeptos no Brasil, segundo a Confederação Brasileira de Skate, e conta com apoio de programas federais de incentivo e infraestrutura de pistas espalhadas por municípios de todo o território nacional, mas é importante frisar que nem sempre foi assim. Em 1988, o então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, proibiu a prática do skate no município, o que refletia como a sociedade tratava o esporte nas ruas. A medida foi revogada no ano seguinte pela prefeita Luiza Erundina, que liberou o esporte e iniciou a construção de pistas na cidade.
Para os skatistas, no caso, o esporte é a oportunidade de enxergar o mundo com novos olhos. “O skate te proporciona muitas visões da cidade, das pessoas, da vida em geral. É uma forma de sair da caixa, de se expressar, uma válvula de escape ", diz Victor Petrosino, membro da Associação Juizforana de Skate (AJS). Ele ainda reforça que a política dentro do skate segue uma linha anarquista e canaliza a revolta sentida pelos skatistas.
“Surgiu como uma alternativa dos adolescentes enjoados da mesmice e com uma pegada do do it yourself, ninguém apoia a gente de fazer isso aqui, então vamos pegar e fazer nós mesmos. Jovens que gostam de pintar, mas não tem acesso a um museu, ou que querem andar de skate mas não tem uma pista. Quem está realmente envolvido com skate tem noção desse lado político, porque você convive com a repressão e com desigualdades sociais. O skate ensina que no campo das ideias nada acontece”, relata Petrosino.

Foto tradicional no trajeto dos skatistas durante o Go Skate Day. / Imagem: Instagram @ajsjuizdefora
Skate e ocupação geográfica
Na década de 1980, o skate em Juiz de Fora surgiu como um movimento de contracultura. Ruas e ladeiras serviam como cenário para os primeiros praticantes, enfrentando forte preconceito e até repressão policial. Somente em 1999, com a criação da Associação Juizforana de Skate (AJS), o skate deixou de ser marginalizado e passou a ser visto como uma prática esportiva.
Em 2000, foi inaugurado o primeiro espaço voltado para os skatistas na cidade: a pista da Praça Antônio Carlos (atualmente, conhecida como Praça Tarcísio Delgado). O espaço se tornou símbolo de resistência e o coração da modalidade na cidade, mas infelizmente foi fechado quando se iniciaram as obras da praça em 2015, sendo demolido em 2022. Esse foi o início de um período difícil para o skate.
Como forma de retratação, a Prefeitura de Juiz de Fora construiu, junto com a AJS, a pista de skate do bairro Poço Rico, em fevereiro de 2024, batizada de Rusivel Costa da Silva, em homenagem póstuma ao skatista. A estrutura tem 695 metros quadrados e obstáculos focados na modalidade street (caixas, corrimãos, escadas e rampas de quarter). A ação foi um passo à frente para os skatistas.
Porém, em julho de 2026, a pista do bairro Vitorino Braga também foi demolida, marcando outro retrocesso. Conhecida por ser a primeira pista de street da cidade, construída em 2000, o local foi espaço de muitos eventos e projetos. Em nota, a AJS afirma que “esta demolição é uma oportunidade para que a gente se ligue que os espaços que temos hoje, sejam pistas, praças ou calçadas, materializam uma disputa: se hoje podemos ocupá-los, que saibamos que isso pode ser efêmero.”
O espaço foi afetado pela execução de uma nova Unidade Básica de Saúde (UBS), o que gerou mobilizações por parte de skatistas locais e AJS para garantir a preservação da memória e a busca por novos espaços de lazer na cidade.
Papel do Skate nas lutas sociais

Protesto realizado na pista Rusível em soliedariedade a morte do "Monstro."
Um caso que demonstrou a união da cena de skate de Juiz de Fora ocorreu em 2024, quando o skatista Daniel Andrade, conhecido como “Monstro”, foi assassinado por seu vizinho, um policial militar. Mais de um ano após o crime, o caso foi arquivado e a justiça reconheceu como legítima defesa o ato do policial. Frente a esse acontecimento, em 2025 a AJS uniu seu evento anual, go skateday, a uma manifestação pedindo justiça por Daniel. O evento iniciou com uma concentração no bairro Alto dos Passos e seguiu até a pista Rusível, com uma parada na Câmara Municipal para uma foto tradicional do evento e uma fala do irmão de “Monstro”, reforçando o pedido de justiça.
Em nota, a Associação Juizforana de Skate explica sobre o evento: “O go skateday e a tradicional skateata representa a união e o encontro de todos os skatistas da região, mostrando que o skate é uma ferramenta política, de inclusão, de liberdade, de transformação”. Porém, o evento foi encerrado por um episódio de violência policial, vinda da Guarda Municipal, que interrompeu uma competição de best trick, organizada pela AJS, na qual é premiada a melhor manobra, com produtos oferecidos por patrocinadores.

Grafitte feito por "Danos" como protesto pelo assassinato de "Monstro." / Imagem: Acervo pessoal
Na best trick final, foi usado como obstáculo uma fogueira feita com paletes, participando somente os skatistas mais experientes. Foi nesse momento que a Guarda Municipal chegou com quatro viaturas e agrediu os participantes com cassetete e empurrou pessoas que estavam andando sobre a fogueira, relata o skatista e grafiteiro conhecido como Danos, presente no evento. A AJS levou a situação para a Prefeitura de Juiz de Fora, que reprovou a atitude.
Como forma de manifestação, “Danos” fez um trash graff na avenida Itamar Franco, estilo mais bruto de grafite. “É feito com tinta ruim e com intuito de escorrer mesmo”. A arte pede justiça por Daniel Monstro e reforça o lado político do movimento.
