COMPORTAMENTO
“Hoje, Lutero não nos salvaria”
Política e religião se misturam? Teólogos, cientistas, pastores e políticos discorrem sobre o tema
Por Mariana Sampaio e Pietro Carriço
Em 2024, quando trabalhava para uma agência de marketing, cobri eventos de um cliente famoso, um político bolsonarista que almejava o cargo de prefeito de Juiz de Fora. Ele contava com amplo apoio dos evangélicos da cidade, tendo como vice um representante municipal dos pastores, que chegou a presidir o Conselho de Pastores de Juiz de Fora (CONPAS/JF). Em uma das pautas, teríamos que cobrir um encontro de pastores da cidade que apoiavam este candidato.
Algo deste dia me perturbou. As bajulações, as falas de que, mesmo que o candidato não fosse evangélico, ele honrava as crenças pentecostais, as promessas de votos dos fiéis, que pastores exclamavam com muita certeza, ou o calor extremo daquele hall de hotel, que me fazia passar mal a cada vez que eu via um sujeito de terno e gravata.
A política e a religião se acariciavam de uma maneira estranha naquele local. Era esquisito, parecia meio forçado, mas não havia junção mais certa do que aquela. Além de serem duas facetas da sociedade, eram duas megaoperações, duas estruturas que movimentam muito poder e dinheiro. Despidas as aparências, era apenas uma sala com vários homens de negócios fechando contratos.
Para entender mais sobre as diversas faces e opiniões sobre o tema apresentado, buscamos especialistas na área: filósofos, teólogos, estudantes da religião e da política, líderes de célula pentecostal, pastores e políticos.
Como tudo começou - história da reforma protestante
“Há uma conexão entre política e religião desde que existe política e desde que existe religião”, diz Fabiano Veliq, doutor em filosofia, psicologia e mestre em filosofia da religião. “A reforma protestante, por exemplo, só foi pra frente porque estava apoiada pelos príncipes alemães, que tinham interesse em terras pertencentes à igreja”. Sobre a relação específica entre os evangélicos (aqui delimitados como pentecostais e neopentecostais) com a política, Fabiano exalta a gênese dessa vertente: “O próprio nascimento da vertente neopentecostal acompanha um desejo de poder, como o conceito de teologia da prosperidade e o início da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)”. A IURD, ao longo de sua história, comprou espaços em rádios e televisões, aplicando uma lógica de mercado à gestão da igreja e servindo de inspiração para outras que surgiram posteriormente. Sobre o conceito de teologia da prosperidade, ou teologia do domínio, o doutor em teologia Alexandre Stahlhoefer, nos diz: “Essa teologia considera que nós deveríamos voltar a um tempo da cristandade, fazer valer de novo aquilo do passado. Só que esse pensamento nada mais é do que um novo romantismo. Romantismo é um movimento filosófico surgido no interlúdio do idealismo pós-kantiano em que há um desejo pelo passado. O passado idealizado, ele não é real. Por isso eu chamo essa teologia do domínio de uma teologia romântica. Ela é um passado idealizado, um passado que não existe. Esse passado é uma criação dessa teologia. Dando um exemplo: nós, (citando figurativamente quem apoia essa teologia) vamos fazer aquele tempo voltar na medida em que nos empenharmos para que os nossos irmãos da igreja estejam em cargos. Quando eles estiverem em cargos, logo nós poderemos dominar as esferas de poder”.
A busca do neopentecostalismo por relevância política não é, portanto, uma surpresa, nem motivada pelo acaso. Essa busca pode ser vista como parte de um plano similar a da IURD, liderada pelo bispo Edir Macedo, de ampliar o alcance de sua fé com táticas políticas e mercadológicas. Mas essa relevância costuma ser sempre buscada por meio da direita, em especial a direita conservadora. Isso se dá porque muitas das lógicas e condutas da igreja evangélica se assemelham à aquelas desse movimento político. “Não dá para desconsiderar o papel que pastores deste universo da extrema-direita têm desempenhado, por exemplo, Silas Malafaia e outros tantos. Há, claramente, ao longo das décadas, um caminhar do movimento evangélico, na sua fração majoritária, ao abraço de causas da extrema-direita”.
Evangélicos na política no Brasil
Então, seria essa aproximação da igreja evangélica com a política algo perigoso? João Victor Rocha, uma das lideranças da igreja A Caminho do Alvo, defende que, na junção entre a igreja e a política, exista racionalidade: “Se um pastor entender de fato a religião que ele pratica, ele vai tratar o estado como laico. Ao se envolver na política, você não será automaticamente desvirtuado, mas se desvirtuar é muito fácil. Olhando para a igreja hoje, eu acredito que ela, em sua maioria, não tenha maturidade para se envolver na política. Muitas das figuras da igreja que buscam se envolver com a política, que se dizem evangélicos, não o são de fato. Então não é que a política desvirtua eles, eles já entram na política desvirtuados. Mas não são todos, existem pessoas evangélicas que entram na política e são capazes de fazer um bom trabalho”. Uma das pessoas que João Victor cita como essas que fazem um bom trabalho é André Mariano, pastor titular da igreja do Evangelho Quadrangular e vereador da cidade de Juiz de Fora pelo Partido Liberal (PL). Se tratando da divisão de deveres das duas posições que ocupa, Mariano nos explica: “Eu sou pastor. Essa é a minha vocação maior. Eu estou vereador. Eu compreendo que Deus tem um propósito para mim no ministério. Desde o ventre da minha mãe, meus pais pediram isso: ‘olha Deus, queremos um filho homem para que no futuro ele venha a ser pregador do evangelho’. Esse é o meu chamado, e a minha prioridade. Estar como vereador não foi uma escolha só minha, mas também da minha comunidade. Eles viram em mim alguém que poderia ser, na câmara, um representante do evangelho. A câmara é uma casa de representatividade, e como representante do povo, eu faço parte de um segmento, que espera de mim alguns cuidados, como vereador, pastor e evangélico”.

Pastor vereador André Mariano, ele retorna à câmara para seu terceiro mandato com 3.465 votos em 2025 até 2028
Para Veliq, essa divisão entre o pastor e o político é impraticável: “É como se pudesse existir um homem dividido em duas personas. Obviamente, a gente sabe que isso não funciona, ainda mais depois de Freud, e esse discurso só existe para manter as pessoas que já estão no poder, no poder. Quando esse discurso é utilizado por pastores que já estão na política, ele acaba apenas favorecendo a manutenção do status quo. É como se ele falasse assim: ‘eu consigo fazer essa separação, mas ela não é para qualquer um. Você tem que ser um homem ungido, separado por Deus’. Só que, na prática, a maioria desses pastores políticos se valem da posição de pastor para angariar votos. Isso na igreja pentecostal é mais que nítido”.
Tentativa de conciliar política e religião
Quando perguntado sobre a impossibilidade dessa divisão descrita por Veliq, Pastor Mariano diz que compreende a crítica, mas faz uma ressalva em relação a essa via de pensamento: “Nós fazemos política em todas as áreas. Quando sou questionado por meus filhos, ou em conversas com minha esposa, faço política, analiso os impactos positivos e negativos do que eles estão falando, até para aprender. Mais do que nunca: meu exemplo é Jesus. Ele serviu a todos. Ele fez um excelente trabalho político, pois estava no meio de um povo, com discordâncias. Então a boa política é isso: fazer um tipo de trabalho que você possa servir ao outro”.
A história de Martinho Lutero é, então, extremamente relevante para a discussão. Segundo o portal Mackenzie, “Lutero se opôs à venda de indulgências — prática adotada pela Igreja Católica em que a pessoa ofertava dinheiro em troca do perdão pelos seus pecados. Essa prática foi vista como um comércio da salvação, o que, para Lutero, distorcia os ensinamentos cristãos e a fé”. Buscando reformar a igreja católica, Lutero, segundo o jornalista Edison Veiga, acabou abrindo as portas da religião, fragmentando o que antes era uma igreja mais unificada e poderosa, e assim, permitindo diversas outras igrejas cristãs a se estabelecerem no mundo ocidental.
Passados mais de 500 anos da reforma protestante de Lutero, Veliq conclui: “A Igreja da época de Lutero era uma bagunça muito grande. Se Lutero vivesse hoje, reveria algumas propostas dele, como, por exemplo, a livre interpretação do texto bíblico, que é uma das principais armas que as posturas conservadoras usam para vincular política e religião. Eu penso que, na nossa época, a igreja evangélica pentecostal está, se não pior, muito pior que a igreja lá do século XIV. E isso se dá pelo capitalismo tardio que vivemos, onde tudo vira produto. No capitalismo, é impossível termos novamente um movimento que vá transformar a igreja evangélica em algo como ela deveria ser. A meu ver, hoje, Lutero não nos salvaria. A igreja evangélica não se dá conta que o desafio atual é lidar com o pluralismo religioso”.

Bolsonaro, um católico declarado, buscou ativamente o eleitorado evangélico, que crescia e se tornava politicamente influente, especialmente a partir de 2013 e 2016, com seu batismo no Rio Jordão e proximidade com líderes como Silas Malafaia e Marco Feliciano. Foto: Pietro Carriço
É evidente que a discussão que buscamos enfocar não possui resposta fácil. Mas, como alternativa possível, Paulo Roberto Leal nos diz: “é impossível imaginar que você possa cercear o direito de pessoas religiosas participarem politicamente só por serem religiosas. Mas, ao mesmo tempo, você tem que criar mecanismos de controle que impeçam que visões religiosas distorçam os valores de Estado laico. Portanto, isso se faz como? Impedindo que participe? Não. Mas criando mecanismos de checks and balances, controles mútuos, que impeçam que uma maioria ocasional possa invadir direitos individuais, inclusive direitos a outras crenças que não são da crença majoritária. Isso é sempre muito difícil, mas, ao mesmo tempo, é um desafio que se coloca para a crescente participação de pessoas religiosas e instituições religiosas no mundo político".

Gráfico: censo 1940 a 2010; a religião evangélica é uma das que mais crescem no Brasil ao longo dos anos
