COMPORTAMENTO
Pulei 7 ondinhas e não deu em nada... O que eu faço?
Seja pulando sete ondinhas, comendo uvas debaixo da mesa ou guardando dinheiro na sola do pé, ritualisticamente, todo santo ano, entre 1° de dezembro e 1° de janeiro, vemos os mesmos preparativos em busca de uma vida nova: as simpatias de final de ano. Seja combinando a roupa com a numerologia do ano ou as orações em busca de ajuda do plano espiritual, de acordo com a pesquisa do Cresol, cerca de 70% das pessoas ao redor do mundo fazem simpatias com promessas de mudanças.
Por Isabella Nogueira

Pessoas pulando ondas do mar no Réveillon. Imagem: internet
Com um checklist de simpatias e rituais, a estudante de Psicologia, Mirella Sequeira, está entre as cerca de seis milhões de pessoas que acreditam na ajudinha do sobrenatural. Em toda virada de ano, as superstições são a atração principal nas festas de Réveillon, o pensamento de prosperar, arrumar um amor e ter paz no ano que está para entrar leva pessoas de todas as idades a se aproximarem do místico. Mas de onde surgem esses desejos?
Para Mirella, passar suas viradas de ano na praia com a família foi o pontapé inicial para entrar para a comunidade dos supersticiosos. Desde muito nova, não passava por debaixo de escadas, desvirava chinelos e conferia as horas iguais, tudo isso a levou a superstição de pular sete ondinhas e transformá-la em tradição, mas ainda assim não deixou de abraçar a modernidade. A ansiedade de falar com as amigas sobre cada uva que representava um desejo e almejar cada ação ritualística que ficava em alta nas trends tomou conta das últimas viradas de ano dela.
Qual é a palavra mágica?
O dicionário Aurélio define superstição como “crença que faz com que alguém crie certas regras ilógicas, tenha medo de coisas inofensivas ou acredite em coisas sem fundamento”. As superstições surgem dentro de casa, no grupo de amigos, na religião ou até mesmo nas trends da Internet, assumem diversos sentidos e ganham novas definições.
Nós, como seres sociais, nos rendemos à vontade de alcançar nossos desejos de todas as formas possíveis. Cada pessoa, em algum momento na vida, recorreu ao místico para intensificar sua prece. O sentimento de que uma força maior ligada ao ritual toma controle sob os nossos resultados nos conforta para darmos mais uma volta em torno do Sol.
O sociólogo, Celso Guimarães, traduz superstições como algo que não pode ser explicado pela ciência. Sua natureza mística, faz com que a racionalidade se torne uma ferramenta ineficiente, Celso salienta:
“As superstições estão intrinsecamente ligadas à cultura, normalmente são coisas que somos ensinados a acreditar desde a infância, não existe uma explicação científica que possa justificar essas relações. Elas se assemelham às crenças, a função que tem na sociedade de trazer a sensação de pertencimento, elas definem um povo”
A cultura popular brasileira, está repleta de peculiaridades que vão desde não comer o primeiro biscoito do amigo, até sonhar e jogar no bicho, tudo isso cria a identidade de grupos que mesmo distantes se integram e se identificam.

Ser ou não ser, eis a questão?
Assim como canta Zeca Pagodinho, “ir à igreja festejar seu protetor e ir ao terreiro bater o seu tambor”, faz parte da tradição de demonstrar gratidão pelo ano que sai e manifestar os desejos que temos para o ano que irá entrar.
A nutricionista, Luciana Souza, cresceu em uma família sinônimo de diversidade religiosa, do crente ao ateu ela viu superstições de todas as formas possíveis. Foi criada pelos pais e, desde muito nova, teve contato com tradições umbandistas, dado o fato que seu pai também era pai de santo.
A uva é uma fruta muito presente nas supertições
de Révellion. Imagem: internet
Luciana, afirma que toda boa energia é bem-vinda. A família a ensinou a tomar banho de mar, jogar o caroço de sete uvas e colocar folha de louro na carteira, mas sua curiosidade a fez criar novas tradições. Há aproximadamente 15 anos, começou a passar a virada com a cor da numerologia do ano, entendendo que cada ano tem uma vibração e que precisava estar alinhada com ela. No primeiro ano em que a nutricionista seguiu essa superstição, se sentiu realmente ligada com o propósito que buscava para essa data:
“Por incrível que pareça, eu não me considero uma pessoa religiosa. Entendo que a religião é criada pelos homens e a conexão que busco é com sabedoria divina, isso independe da crença. Eu tive isso no primeiro ano em que eu parei de passar de branco e passei com a cor da numerologia do ano. Foi o primeiro de todos os anos que quando eu olhei pro céu, eu me conectei com a forma que eu te falei, eu agradeci a Deus e projetei tudo o que eu queria para aquele ano. Foi uma virada de chave, na praia de Copacabana e eu vestida de laranja após o show do Rappa”, relembra.
Assim como Luciana, mudar os ares, mas nunca perder a essência vai diretamente ao encontro da vida de Aline. Família tradicional judia, em sua casa sempre foram seguidas todas as tradições: desde comer maçã e coisas doces para um ano novo mais feliz, até o Kaparot, que consiste em rodar uma galinha em cima da cabeça de todos os membros da família para remover energias negativas. Mas não só isso faz com que o judaísmo tenha crenças que tornam essa passagem tão marcante.
“O judaísmo vai muito além do que uma crença, eu gosto de explicar o judaísmo como uma etnia, existem judeus que são ateus por exemplo. Essas tradições nos ensinam a fechar ciclos, o ser humano como um todo precisa de rituais, ele precisa de coisas que o façam sentir que ele está avançando de alguma forma. Então, no judaísmo quem pratica essas tradições têm muito haver com o passar para frente a cultura dos pais e dos avós do que talvez passar essa questão religiosa”.
Atualmente, Aline frequenta a umbanda e segue os ensinamentos, mas ressalta que a presença judaica na sua vida vai muito além do religioso. Apesar dos novos aprendizados espirituais, permanece, anualmente, com as mesmas simpatias, mas com novos olhares em busca de uma confluência de experiências.
“Eu acredito na parte religiosa do judaísmo, mas principalmente na cultural, que é a minha comunidade, é a minha essência, vamos dizer assim, como pessoa, mas eu também acredito em outras religiões, eu misturo um pouco dessas crenças. Mas novamente, isso não me faz menos judia de forma alguma, e eu acho que esse é um detalhe interessante, na comunidade, você não é visto como menos judeu porque você não vai na Sinagoga, sabe, você continua fazendo parte dessa comunidade.”
A fé e a energia que se direciona a um determinado propósito, faz com que ele se torne cada vez mais real no nosso cotidiano. Vózinha, entidade que acompanha a médium Amanda, reflete que a sua superstição nada mais é do que sua energia direcionada para uma crença.
“Você vai fazer uma simpatia, você pode colocar o nome de alguém em um papel e colocar no travesseiro mesmo sem saber o que significa, mas você coloca tanta fé naquilo que acontece. A mesma coisa com as superstições, você mentaliza seus desejos enquanto come as uvas ou pulando suas ondas, colocando fé faz com que aquilo aconteça. Depositar intenção e colocar fé é a base de tudo o que fazemos e isso não é diferente nas superstições, cada reza, cada ação vai se basear no quanto você acredita naquilo. Nunca é certo fazer algo só por fazer”.
O que chamamos de universo nos mostra que na verdade fazemos parte dessa força mística que recorremos, as mudanças que ocorrem a partir de um amuleto, uma simpatia ou uma prece parte da energia que emanamos. O lógico a se dizer, é que estamos fortemente ligados a cada ação que essa passagem manifesta e que somos agentes ativos no sobrenatural.
Freud explica?
Dizemos que para tudo existe uma explicação lógica, mas será que até isso Freud explica? As superstições vão variar de acordo com o meio que nos encontramos e isso leva a ideia de que cada vez mais desenvolvem novas camadas. A psicóloga, Beatriz Salgado Queiroz, explica que a Psicologia entende as superstições como um comportamento de busca por controle frente ao desconhecido, que traz conforto e esperança de renovação.
“A mudança que uma superstição pode trazer na vida está diretamente ligada ao consciente. A nossa busca por coerência está dentro da nossa leitura do mundo, assim nos apegamos a relações de causa e efeito dando um significado importante a uma coincidência, exemplo: a pessoa usa um novo acessório na virada de ano, e após a data ela consegue um novo emprego, e assim na busca por coerência e explicações, ela entende que esse acessório é um amuleto”, observa.
Beatriz salienta que ao mesmo tempo que usamos as superstições como um conforto, também podemos usá-las como uma máscara para não assumirmos certas responsabilidades. Assim como várias outras coisas na vida os supersticiosos se encontram em um limbo psicológico:
“Quando associado a outras atitudes, a superstição pode ser um motivador, um pontapé inicial para a realização de algo novo. As superstições são consideradas ilógicas, por não ter um fundamento lógico e científico comprovado. Porém, enquanto psicóloga, acredito que não devemos desvalorizar as superstições, já que existe uma “lógica interna” de quem pratica e faz parte de nosso comportamento humano.”
Celso Guimarães explicita as superstições como um fato cultural, elas podem ser encaixadas no conceito de “ideias mágicas”, nas quais acreditamos por uma convicção em comum criadas culturalmente e reforçada ao longo dos anos. As superstições se tornaram tradições dentro do povo brasileiros e por mais irreais que pareçam não são questionadas por já estarem integradas às características do povo.
Mudar a calcinha é mudar hábitos?

A dúvida que persiste em relação às superstições é: mesmo não dando certo, vamos continuar tentando? O povo brasileiro é conhecido por não desistir, fazemos simpatias para parar a chuva em dias importantes, comemos comidas específicas para atrair coisas boas e mudamos as cores de nossas roupas íntimas para vibrarmos na mesma energia do que queremos atrair. Assim como quase todos os brasileiros, Mirella vai mudar a cor da calcinha, vai separar suas uvas e vai pular suas ondas mais um ano. A estudante de psicologia, reconhece que existe uma questão científica que pode explicar a insistência em rituais que talvez não tenham o resultado desejado, mas por outro lado ela analisa que vai muito além do que a ciência pode apresentar:
“Mesmo acreditando na ciência, todo ano à meia noite eu me junto com a minha família na varanda, como sete uvas e jogo os sete caroços fora. Eu sinto que o meu ano novo não é completo sem que eu faça isso, não é tanto pelo ritual e sim pela tradição familiar, esse momento criou um marco na minha vida”, reflete.
Esse ano Mirella Sequeira vai continuar com os mesmos rituais, porque eles são a forma dela dar espaço para as boas energias e bons pensamentos que o ano que entra pode trazer. O apego à tradição e o carinho pelas lembranças que esses momentos criam valem muito mais para ela do que o resultado que qualquer simpatia poderia trazer. A estudante de psicologia, coloca hoje as superstições como um símbolo de união, muito mais como um símbolo ritualístico.
