top of page

COMPORTAMENTO

Jovens conectados: O impacto do tempo de tela durante as férias escolares

O que especialistas, pais e filhos revelam sobre a relação com as telas quando o calendário escolar dá uma pausa; veja os contrastes entre famílias que restringem o digital e aquelas que lidam com o uso intenso

Por Renan Bastos

Com a chegada das férias, o tempo livre de crianças e adolescentes aumenta. E, junto com ele, há um potencial crescimento do tempo de tela. Entre a praticidade para os pais e o apelo dos aplicativos, muitos jovens passam horas seguidas em celulares e tablets. À primeira vista, parece só diversão, mas especialistas acendem o alerta: jogos com recompensas rápidas, redes sociais que nunca acabam e notificações constantes tornam as telas cada vez mais difíceis de largar.
 

Diante desse cenário, os responsáveis tentam equilibrar lazer e tecnologia na rotina das crianças. Quem vive esse desafio por dois lados é o professor do Departamento de Ciência da Computação do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG), José Rui Sousa. Casado com a arquiteta Bruna Lima, é pai de cinco crianças e conhece, como poucos, o que acontece por trás dos aplicativos que tanto atraem os mais jovens.

“Atualmente, do ponto de vista tecnológico, o que faz com que os adolescentes e crianças fiquem tanto tempo nos aplicativos e em jogos é que nós, da área, temos recursos ligados a aumentar a dopamina das pessoas. A área de produção de software e de aplicativos é responsável por colocar elementos de evolução e pertencimento, capazes de gerar a sensação de bem-estar, satisfação psicológica, dependência e utilização. Isso naturalmente leva o jovem a querer continuar e nunca parar de jogar”, explica.

IMG-20251207-WA0071.jpg.jpeg

Professor do Departamento de Ciência da Computação do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais, José Rui Sousa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Além do olhar técnico, Sousa fala na visão de pai. Para ele, a ideia de que o celular garante segurança é um engano comum. “Os pais devem fazer a supervisão, seja uma atividade na grama ou no celular. O erro deles é achar que, quando deram um aparelho nas mãos dos filhos, estão seguros. Pelo contrário, estão muito inseguros. Podem sofrer uma exposição à pornografia e adultização, um tema que, inclusive, está em alta na internet este ano”, alerta.

O especialista reforça que o período de férias fortalece esses riscos, já que crianças e adolescentes passam mais tempo online. Por isso, ele defende que as famílias criem regras claras. “O segundo passo que os pais devem fazer é estabelecer critérios e criar um cronograma com os filhos, indicando o horário específico para acessar o celular durante as férias. Se isso extrapolar, pode causar um mal físico, emocional e psicológico à criança.”

Peso dos números

Os dados mostram que o tempo de tela já faz parte do dia a dia de crianças e adolescentes, e tende a aumentar nas férias. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, o uso da internet já faz parte da rotina da imensa maioria dos jovens. Hoje, 93% dos brasileiros entre 9 e 17 anos estão conectados, o que representa cerca de 25 milhões de jovens. O contato começa cada vez mais cedo: 23% deles acessaram a internet pela primeira vez antes dos 6 anos, número que mais que dobrou em comparação a 2015, quando era de 11%.
 

A pesquisa mostra também que o uso das redes sociais é intenso. O WhatsApp é a rede mais acessada: 70% utilizam com muita frequência, sendo que 53% entram várias vezes ao dia e 17% acessam quase diariamente. Outros aplicativos seguem o mesmo padrão: o YouTube aparece com 66% de uso frequente, seguido pelo Instagram, com 60%, e o TikTok, com 50%. Essas plataformas funcionam com fluxos contínuos de vídeos e conteúdos que se renovam sem parar, o que incentiva o interator a permanecer mais tempo conectado. Nas férias escolares, quando a rotina fica mais solta e o tempo livre aumenta, essa exposição tende a crescer ainda mais.
 

A preocupação aumenta quando se coloca esses números ao lado das orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o uso de telas na infância. A recomendação é clara: crianças menores de 2 anos não devem ter contato algum com dispositivos eletrônicos. Entre 2 e 5 anos, o limite é de uma hora por dia, e, dos 6 aos 10 anos, o tempo deve ficar em até duas horas diárias.

Riscos para o desenvolvimento intelectual e físico

O pediatra e vereador de Juiz de Fora, Antônio Aguiar, intensifica que o problema do excesso de telas começa muito antes das férias, e que os efeitos podem ser profundos. Conforme o médico, a primeira infância é o período mais vulnerável. 

 

“Não devemos expor crianças a telas antes de três anos de idade. Essa fase é marcada pelo início da organização funcional do cérebro, quando são formadas as bases das funções executivas. É também o momento em que os estímulos precisam ser naturais, sobretudo ligados à socialização” , ressalta.

IMG-20251207-WA0070_edited.jpg

Pediatra e vereador de Juiz de Fora, Antônio Aguiar, em frente ao Hospital de Pronto Socorro Dr. Mozart Teixeira, na avenida Barão do Rio Branco, em Juiz de Fora. (Foto: Antônio Aguiar/Instagram)

De acordo com o profissional, a autonomia para atividades simples do dia a dia, como alimentação e higiene, depende de um cérebro que esteja amadurecendo sem excesso de excitação neuronal. “O exagero é um dos principais problemas, aliado aos algoritmos dos aplicativos digitais. As habilidades sociais, como empatia, só se desenvolvem plenamente no contato com outras pessoas. O que acontece em muitas famílias é a substituição de uma babá por um celular, por exemplo, seja porque é mais fácil para lidar ou porque os pais não têm tempo para cuidar dos filhos, o que é um absurdo”, critica.


Os sinais de alerta, segundo Aguiar, são claros. O isolamento aparece como um dos primeiros indícios de que algo está errado. Outro ponto é a irritabilidade acima do normal, principalmente quando a criança é contrariada. Para o médico, esses comportamentos indicam danos em funções importantes do cérebro, como memória, aprendizado e flexibilidade cognitiva. “Todos esses prejuízos podem atrapalhar no planejamento, na solução futura de problemas e no raciocínio. Isso compromete em todos os níveis, seja ele social, familiar ou acadêmico”, esclarece.

O excesso de tempo de tela não traz apenas impactos emocionais. O pediatra ainda destaca: “Há evidências de que, com mais tempo no celular, diminui o tempo dedicado à atividade física, e aumentam comportamentos sedentários, fatores centrais para ganho de peso. Dessa forma, o exagero em frente às telas se associa a um dos maiores desafios de saúde pública do país: a obesidade infantil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 3,1 milhões de crianças menores de 10 anos já convivem com a doença. Hoje, uma a cada três crianças brasileiras está obesa, e especialistas estimam que esse número pode ultrapassar 50% depois de 2030.

Entre os adolescentes, o cenário segue a mesma tendência. Em 2023, 33% já apresentavam excesso de peso.


Os dados do Ministério da Saúde confirmam o avanço. Em 2019, 28% das crianças entre 5 e 9 anos tinham excesso de peso e 13,2% eram obesas. Entre adolescentes, 18,25% estavam acima do peso e 7,91% eram obesos.

Efeitos emocionais do excesso de telas

O psicólogo Thiago Mateus Silva realça que, durante as férias, o tempo diante das telas costuma aumentar de forma expressiva. Sem a rotina escolar e com os pais, muitas vezes, impossibilitados de acompanhar o dia a dia por causa do trabalho, crianças e adolescentes passam mais tempo dentro de casa. Isso acontece, na maioria das ocasiões, porque brincar na rua já não é tão comum quanto antes, seja por atuais questões de segurança ou pelo constante apelo dos estímulos digitais.

 

“Eles acabam indo para a casa de avós ou tios e fazem o que mais gostam: jogar videogame, ficar no celular, assistir televisão. Esse hábito prolongado traz efeitos diretos na parte emocional: mais ansiedade, irritação e dificuldade para dormir, agravados pela exposição contínua a vídeos curtos e altamente estimulantes”, salienta.

IMG-20251203-WA0003.jpg.jpeg

Psicólogo Thiago Mateus Silva, em um consultório. (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo o psicólogo, a vulnerabilidade não é igual em todas as fases da infância e adolescência. Ele distingue que crianças entre 6 e 10 anos são as mais afetadas, justamente por ainda não terem maturidade para estabelecer limites. “Para elas, quanto mais tela, melhor. Já a partir dos 12 ou 13 anos, os adolescentes começam a desenvolver maior autonomia, conseguem obedecer orientações e negociar horários com mais facilidade. Mesmo assim, a supervisão e a criação de uma rotina equilibrada continuam sendo fundamentais para evitar impactos no sono, no humor e nas interações sociais”, aponta.

Cotidiano escolar

A presença das telas no dia a dia das crianças já se reflete diretamente dentro dos colégios de educação infantil. Segundo a pedagoga e professora do Colégio do Carmo, Thaís Prado, mesmo as crianças mais novas chegam à escola com hábitos digitais consolidados. “Os pequenos manuseiam celulares e tablets com naturalidade e repetem conteúdos que consomem em casa, desde músicas, danças e até expressões e comportamentos vistos em influenciadores. Essa familiaridade precoce nos diz como a tecnologia passou a mediar parte importante das referências culturais da infância”, acentua.


Thaís explica que o uso adequado das telas deveria ser mínimo para crianças de 0 a 6 anos, seguindo a recomendação de especialistas. “Como esse cenário já não corresponde ao cotidiano das famílias, uma alternativa viável é estabelecer limites claros e curtos, como períodos controlados de cerca de 30 minutos por dia ou o uso restrito aos finais de semana. Além de proteger o desenvolvimento cognitivo e social, essa rotina ajuda a criança a compreender que a tecnologia deve ocupar um espaço equilibrado na vida, e não substituir outras formas de brincar, explorar e interagir”, enfatiza a pedagoga.

Férias conectadas

O debate sobre o uso de telas durante as férias também aparece dentro das casas, e cada família encontra seu próprio caminho para equilibrar a rotina. Formado em Informática pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e pai de Lucas Amaral, Carlos Antônio explana que nota uma mudança clara no comportamento do filho nessa época do ano. “O tempo diante das telas cresce bastante, em parte pela dinâmica das plataformas digitais, pensadas para prender a atenção por longos períodos. Ainda assim, quando o uso é orientado, a tecnologia pode servir para estudar, aprender e manter vínculos. O que muda é o balanço. Sem a rotina escolar, ele se entrega mais, então o cuidado dos pais é ainda mais importante”, evidencia.

IMG-20251201-WA0012_edited.jpg

Técnico de informática Carlos Antônio, à esquerda, ao lado do filho Lucas Amaral, à direita. (Foto: Arquivo pessoal)

O técnico de informática também avalia o entendimento dos pais sobre o tema. “Muitos deles não compreendem completamente como aplicativos e jogos são construídos para manter crianças e adolescentes vinculados. Recursos como notificações constantes, vídeos infinitos, jogos com recompensas imediatas e conteúdos que se reproduzem sem pausa ajudam a prolongar o uso. Entender esses mecanismos é essencial para estabelecer limites realistas dentro de casa. Não é só proibir. É ensinar a usar do jeito certo”, focaliza. 

Lucas Amaral, de 12 anos, por sua vez, admite que passa mais tempo no celular nas férias e lista os aplicativos que mais chamam sua atenção. “Fico muito tempo no Clash Royale (jogo de dispositivo móvel) e utilizando o Instagram, WhatsApp e TikTok. Sobre atividade física, gosto de jogar bola na UFV, mas tenho dificuldade de ficar um dia inteiro longe das telas. Uma hora ou outra vou pegar pra mexer, é quase automático”, descreve. O primo de Lucas, Davi Pena, também de 12 anos, compartilha dos mesmos interesses. “Quando acordo de manhã, a primeira coisa que quero fazer é pegar o celular. Difícil viver sem, ainda mais nas férias, sem a obrigação de estudar”, acrescenta.

IMG-20251203-WA0005.jpg.jpeg

Pedagoga Thaís Prado, à direita, abraçada com o filho Theo Prado, à esquerda. (Foto: Arquivo Pessoal)

O debate sobre o uso de telas durante as férias também aparece dentro das casas, e cada família encontra seu próprio caminho para equilibrar a rotina. Formado em Informática pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e pai de Lucas Amaral, Carlos Antônio explana que nota uma mudança clara no comportamento do filho nessa época do ano. “O tempo diante das telas cresce bastante, em parte pela dinâmica das plataformas digitais, pensadas para prender a atenção por longos períodos. Ainda assim, quando o uso é orientado, a tecnologia pode servir para estudar, aprender e manter vínculos. O que muda é o balanço. Sem a rotina escolar, ele se entrega mais, então o cuidado dos pais é ainda mais importante”, evidencia.

O professor de computação José Rui, apesar de trabalhar com tecnologia, prefere que seus filhos: Maria, Ana, Catarina, Antônio e João, evitem ao máximo os celulares e tablets. O especialista conta que adota uma rotina bastante restrita. “Minha filha mais velha, Maria, de 9 anos, só utiliza o celular em momentos específicos, como nas aulas de música. Fora isso, o acesso é mínimo e sempre supervisionado. Durante as férias, o uso cai ainda mais, quase a zero. Eles acabam usando apenas quando estamos juntos, em momentos de família, ou quando quero mostrar algum jogo simples, mas algo sempre bem limitado”, frisa. 

Ana, de 7 anos, descreve uma rotina que contrasta com a de muitas crianças da mesma idade. Sem celular no dia a dia, suas férias são recheadas de brincadeiras que passam longe das telas. “Amo jogos de tabuleiro, jogo da memória e diversas brincadeiras ao ar livre. Gosto de pique-pega, pique-corrente, pique-cola, pique-bandeira e queimada”, finaliza, entusiasmada.

IMG-20251209-WA0010.jpg.jpeg

Família de José Rui Sousa e Bruna Lima. Ana e Maria estão ao fundo; Antônio, Catarina e João à frente, da esquerda para a direita, respectivamente. (Foto: Arquivo Pessoal)

bottom of page