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COMPORTAMENTO

Quando as férias chegam, quem descansa e quem sofre? Os desafios da guarda compartilhada após o divórcio

Acordos, rotinas e sentimentos moldam as férias escolares dos filhos

Por Rafael Alves

Para as crianças, as férias costumam ser sinônimo de liberdade: o fim das tarefas, as tardes longas, as brincadeiras improvisadas. Mas, para muitos pais divorciados, esse período abre novas janelas de tensão, trazendo à tona acordos mal resolvidos, feridas antigas e rotinas já marcadas pela complexidade da guarda compartilhada.


Especialistas lembram que, quando os adultos não conseguem dialogar, quem sente primeiro, e mais profundamente, é a criança. E as histórias ouvidas pela reportagem mostram que os efeitos emocionais, práticos e afetivos das férias vão muito além do calendário. Segundo o IBGE, em Juiz de Fora, por exemplo, a realidade das famílias separadas aparece nos números: em 2024, foram registrados 2,9 divórcios por mil habitantes — o equivalente a mais de 1,5 mil dissoluções formais
apenas naquele ano.

As tensões que a rotina esconde

Um dos riscos evidenciados nas férias é tornar explícitos conflitos que, no dia a dia, ficam abafados. O psicólogo Ian Coelho explica que o psiquismo infantil absorve mais do que os adultos imaginam. Segundo ele, a exposição a conflitos familiares se torna a base de fenômenos e sintomas que podem reverberar em traumas futuros.


“Existem inúmeras teorias psicológicas que confirmam que a relação da criança com seus pais é a matéria-prima pela qual será moldado nosso psiquismo. Trazendo essa discussão para a luz da psicanálise, por exemplo, é possível afirmar que a forma como a criança lida com a figura materna e paterna irá ditar como ela poderá se relacionar, no futuro, com questões como vínculos afetivos, relação com o desejo e a falta, relação com dinheiro e trabalho, entre outras”, afirma.


O psicólogo também alerta para o crescimento de diagnósticos de ansiedade e depressão associados ao envolvimento das crianças em disputas dos pais. “Há inúmeros casos de crianças apresentando quadros graves, necessitando de medicação psiquiátrica, justamente pela falta de sensibilidade dos adultos ao convocá-las para esses conflitos.”

Quando a criança vira o centro, mesmo sem querer

A experiência da estudante Mariana Sampaio ilustra o que o especialista descreve. Filha de pais que não se falavam, ela cresceu ocupando um espaço incomum: o de mediadora involuntária.


“Sempre fui eu quem passava as mensagens de um para o outro. Para mim era normal porque lembro dessa rotina desde sempre. Mas era cansativo e estressante ser ‘pombo correio’ enquanto existe internet e mensagem de texto”, conta.


Na infância, Mariana lembra que os pais ainda conseguiam combinar a divisão das férias, ainda que sem diálogo direto. Mas, na adolescência, a responsabilidade acabou migrando para ela. Passou a definir onde ficaria, ajustar rotinas e lidar com expectativas de ambos, mantendo, ainda assim, o papel de intermediadora.


Para Ian Coelho, situações como essa são “um sintoma claro do que deveria ser evitado”. Ele reforça: “O primeiro e mais importante passo para garantir a saúde mental das crianças é separar o problema do casal do problema da criança. Ela deveria se preocupar apenas em brincar, ir à escola, fazer amizades, aprender novas atividades e, principalmente, sentir-se cuidada e amada por ambos.”

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Mariana Sampaio, ainda com poucos meses de vida, sendo abraçada pelo seu pai. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mariana reconhece que encontrou apoio também fora da relação parental direta. “Tive um padrasto que considero pai até hoje e uma madrasta que considero mãe. Eles me ajudaram a crescer, e sou muito grata.”


Se a história de Mariana fala sobre o peso do conflito, a de Fátima Rodrigues revela o impacto da ausência. Mãe solo desde que o filho completou os seis anos de idade, ela descreve um longo histórico de distanciamento do ex-companheiro. “Ele nunca esteve presente. Não ligava, não perguntava, podia ficar meses sem ver o filho. Nas férias, tudo recaía sobre mim”, desabafa Fátima. A realidade dela, porém, reflete um cenário nacional: de acordo com dados do IBGE divulgados em 2024, o número de mães solo no Brasil é seis vezes maior que o de pais solo, o que evidencia como, na maior parte das famílias, a sobrecarga emocional e prática continua recaindo quase exclusivamente sobre as mulheres.
 

Para ela, o desafio não era negociar a divisão das férias, mas ter o peso de proporcionar momentos inesquecíveis para o filho durante as férias, sozinha. “Eu preparava mala, tentava combinar datas, mas quase nunca havia resposta. E, no fim, era sempre eu quem ficava com tudo, inclusive com a parte emocional.”

O silêncio do pai, segundo Fátima, produzia feridas que só mais tarde ficaram evidentes. “Meu filho perguntava por que o pai não vinha o ver. Eu não tinha resposta. Nas férias, quando todas as crianças pareciam viver uma festa, a nossa casa parecia menor.”
 

Procurado pela reportagem, o ex-companheiro de Fátima preferiu não comentar as alegações.

Demanda jurídica

Casos como o de Fátima, em que um dos responsáveis assume sozinho a rotina e o peso emocional de cuidar do filho, fazem parte do tipo de demanda que chega com frequência à Defensoria Pública de Minas Gerais — especialmente entre famílias de baixa renda que não possuem acesso a atendimento particular.


A instituição registra, em mutirões como o Mutirão das Famílias, mais de 1.400 sessões de conciliação voltadas a conflitos de divórcio, guarda, convivência e pensão, oferecendo mediação gratuita para que pais consigam formalizar acordos, reorganizar o calendário e evitar que a sobrecarga recaia apenas sobre um dos lados.


Em períodos de recesso escolar, segundo a Defensoria, aumentam as buscas por orientação sobre divisão de tempo, viagens e responsabilidades, mostrando que a mediação institucional pode ser essencial para impedir que tensões se transformem em disputas judiciais e, principalmente, para proteger crianças que acabam sentindo o impacto direto da falta de diálogo.

O que diz a lei

O advogado especializado em direito de família Felipe Queiroz explica que a legislação brasileira não estabelece uma divisão rígida das férias na guarda compartilhada. Isso significa que não há uma fórmula pré-definida — metade do tempo com cada um, semanas alternadas ou qualquer outro padrão. “A guarda compartilhada prevê equilíbrio na convivência, mas deixa margem para que os pais ajustem o calendário conforme a realidade de cada família” , afirma. Esse caráter flexível, segundo ele, é justamente o que torna essencial o diálogo entre os responsáveis.


Queiroz ressalta que, embora muitos pais consigam organizar o período de forma amistosa, a formalização dos acordos é uma etapa frequentemente negligenciada e fundamental: “Registrar evita conflitos, dá segurança jurídica e reduz situações de impasse”, explica.

De acordo com o advogado, a falta de registro é um dos motivos mais comuns de disputas que chegam ao Judiciário às vésperas das férias, quando divergências sobre viagens, duração das estadias ou mudanças de última hora se tornam mais urgentes. Outro ponto central destacado por Queiroz é o direito da criança de ser ouvida em decisões que impactam sua rotina, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. Ele reforça que a opinião do filho deve ser considerada de acordo com sua idade, maturidade e capacidade de compreensão. “O ECA estabelece que, sempre que possível, a criança ou o adolescente deve ser ouvido e sua opinião considerada. Isso vale também para a definição do período de férias”, aponta. Para ele, incluir a criança de forma adequada no processo não apenas atende à lei, mas também contribui para acordos mais tranquilos e funcionais.

Como transformar as férias em um tempo de bem-estar?

A pedagoga Fernanda Lima reforça que, para além dos acordos formais, existe um campo que só os pais podem ocupar: o do afeto. Segundo ela, momentos de lazer, acolhimento e presença real são fundamentais para que a criança construa memórias positivas, especialmente quando já vive a divisão entre duas casas.


“As férias precisam ser um tempo de vínculo”, afirma. “Brincadeiras e atividades lúdicas ajudam a criança a se sentir abraçada, mesmo diante das mudanças de ambiente.”

Fernanda ainda explica que não são as viagens, os gastos ou a programação sofisticada que determinam a qualidade do recesso, mas a experiência emocional que a criança vive ali. Em famílias separadas, isso pode significar desde preparar uma refeição juntos até estabelecer pequenas rotinas que deem segurança, como ler uma história antes de dormir ou reservar um tempo do dia para conversar, finaliza.

*Para preservar a segurança e a privacidade da entrevistada, Fátima Rodrigues é identificada com nome fictício.

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