ARTIGO
O valor das superstições de ano novo
Por Bruno Laboury
Todo mês de dezembro o Brasil vira um grande laboratório de rituais improvisados. Pular sete ondinhas, escolher a cor da roupa íntima, guardar sementes na carteira, a lista é infinita e se renova a cada temporada. Mesmo quem se diz cético costuma, até mesmo inconscientemente, replicar crenças populares com teor “místico” ou religioso. Talvez por tradição, talvez por hábito, talvez por aquele medo silencioso de começar o ano “desafiando o destino”. Mas por que insistimos em praticar costumes que não obedecem a nenhuma lógica científica?
A resposta, mesmo simples, revela algo profundo sobre nós: somos seres que procuram sentido. Em um mundo cada vez mais rápido, onde o novo ano chega num piscar de olhos e também como um peso de expectativas, as superstições funcionam como um pequeno porto seguro. Elas não precisam fazer sentido, basta que façam efeito para quem pratica.
As simpatias de fim de ano sobrevivem pois cumprem uma função que a racionalidade não sustenta: o de criar uma sensação de preparo. Quando uma pessoa pratica uma crença, ela sente que está pronta para as mudanças que virão no ano novo. Esse gesto simples nos devolve algo importante: uma certa esperança de controle. Controle este, diante do incerto, buscando afirmar que, mesmo sem saber o que vem pela frente, ainda temos algum poder sobre a narrativa da nossa própria caminhada. Algo que, claramente, é reconfortante em tempos de tanta rapidez e dúvidas com o futuro em meio às crises globais.
Também é impossível falar das crenças de réveillon, sem falar de cultura. É graças à cultura passada de geração em geração que as crenças de ano novo se reforçam. Muitas famílias têm tradições específicas: seja a receita da família, as bebidas ou a música da virada. Muitas vezes é a repetição de atos que reúne os amigos e familiares próximos que eternizam essas.
Existe um valor simbólico poderoso em reproduzir algo que nossos avós faziam, não porque “funciona”, mas porque nos conecta a uma história que é maior do que nós. Por isso, mesmo quem não acredita, frequentemente participa. No final, o ritual pertence a todos tanto quanto ao indivíduo.
O simbólico passa a fazer sentido simplesmente porque cria um ponto de partida. As simpatias entram como ferramentas para lidar com essa expectativa de mudança. Elas não garantem resultados exatos, mas ajudam a confortar as ansiedades. E, convenhamos, às vezes isso já é mais do que suficiente.
É um erro pensar que superstição é sinônimo de ignorância. Muitas pessoas racionais fazem rituais sem enxergá-los como ciência, mas como forma de expressão. Não há contradição alguma nisso. Assim como acendemos velas em aniversários, batemos palmas no parabéns ou fazemos votos em fontes, as superstições de fim de ano são gestos performáticos que carregam intenções, sejam religiosas ou culturais.
E intenção, por mais simples que pareça, tem força. Não por alterar a realidade de forma mágica, mas porque muda a maneira como nos posicionamos diante dela. A crença cria disposição emocional, e disposição emocional move escolhas.
Assim, mesmo quando um ritual não traz o resultado esperado, dificilmente ele é abandonado. No fim, o ritual nunca foi sobre o resultado em si, mas sobre o processo interno. Ele concede conforto, pertencimento e esperança. E esperança, especialmente em tempos incertos, é uma moeda valiosa.
Além disso, ninguém quer começar o ano sentindo que “faltou algo”. A superstição, mais do que uma promessa de sucesso, é um marcador emocional, sinalizando que estamos prontos para o próximo ciclo. Assim, a superstição é apenas uma forma de acreditar que o ano seguinte pode ser melhor. E é essa força de esperança que une bilhões de pessoas em todo mundo, sonhando com tempos melhores.
