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CULTURA

Entre a celebração e a ausência

Imigrantes sírios e venezuelanos manifestam o desejo de participar

da Festa das Nações em 2027

Por Israel Rodrigues e Lívia Leão

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As coloridas barracas, as fragrâncias variadas e a música ao vivo preenchem o ambiente. / Imagem: Israel Rodrigues 

Tradicional evento gastronômico de Juiz de Fora, a Festa das Nações é uma celebração anual que promove um intercâmbio cultural. Ela conta com danças folclóricas, apresentações musicais e diferentes aromas. Inicialmente celebrada no bairro Bom Pastor, no final dos anos 1950, mudou sua localização quatro vezes ao longo do tempo. Mesmo com alguns hiatos, a atração continua sendo a “queridinha” dos juiz-foranos.

Em meio aos quinze países representados, uma característica, entretanto, destaca-se: a falta de imigrantes nas barracas de alimentos. Conhecida por ser a principal celebração dos imigrantes na cidade, a Festa das Nações deixa de fora tais representantes. Ainda que inclua algumas das principais nações que compõem Juiz de Fora, como Alemanha e Portugal,  a representação é insuficiente. Sírio-libaneses e venezuelanos não são representados por imigrantes ou descendentes nas barracas. Mas por que eles não estão presentes?

 

Chegada dos imigrantes

A imigração alemã em Juiz de Fora, segundo o historiador Antônio Gasparetto Júnior, ocorreu entre os anos 1850 e 1860. Contratados pelo engenheiro alemão Heinrich Halfeld, grupos de trabalhadores alemães migraram com o objetivo de construir o novo caminho que ligava a cidade à Petrópolis. Alguns se instalaram na parte alta da cidade (nos bairros São Pedro e Borboleta) para trabalhar na lavoura, visto que os bairros eram voltados para o cultivo de alimentos. Já os outros grupos se posicionaram na parte baixa (atual bairro Fábrica) para trabalhar nas indústrias de roupas, tecidos e cerveja. Segundo a Associação Alemã de Juiz de Fora, há cerca de cinquenta mil descendentes na cidade atualmente. 

A vinda dos italianos para o município ocorreu no contexto da grande política pública de imigração, disse Gasparetto. Desenvolvida no Brasil, no final do século XIX (1880-1890), tal política visava substituir a mão de obra escravizada pela europeia e embranquecer a população nacional. Segundo o historiador, houve certa segregação entre brasileiros e italianos, visto que os imigrantes não se inseriram diretamente na sociedade. Em Juiz de Fora, a Hospedaria Horta Barbosa foi responsável por receber vários grupos de trabalhadores italianos e encaminhá-los ao mercado de trabalho.

Já a imigração dos povos árabes ocorreu a partir de 1912, como descreve o artigo “Sírios e libaneses em Juiz de Fora: uma introdução bibliográfica”. Produzido pela aluna Juliana Dornelas, da Universidade Federal de Juiz de Fora, o estudo aponta as razões dessa imigração. Vindos com a intenção de escapar das crises econômicas e políticas, a população síria começou a trabalhar na cidade com a mascateação (comércio ambulante de tecidos, roupas e jóias). Posteriormente, entre os anos de 2010 e 2013, com a ocorrência da Guerra Civil Síria, o Brasil recebeu mais de 5.800 pedidos de refúgio. Segundo dados de 2025 do Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), estima-se que haja mais de 4 mil sírios morando atualmente no país. 

Por fim, a população venezuelana representa o maior número de imigrantes registrados, tanto no Brasil quanto em Juiz de Fora. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o fluxo de venezuelanos aumentou a partir de 2017, momento em que a instabilidade política e econômica no país se agravou. Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório da Polícia Federal registram 1.800 venezuelanos na cidade.

História da Festa das Nações

(Imagem: Blog Maria do Resguardo)

(Imagem: Israel Rodrigues)

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ANTES, BAIRRO BOM PASTOR - 1973

DEPOIS, BAIRRO AEROPORTO - 2026

Festival que celebra a herança cultural e gastronômica de famílias imigrantes em Juiz de Fora, a Festa das Nações se coloca como uma oportunidade para conhecer e provar os sabores de variados países. O folder (panfleto de divulgação), semelhante a um passaporte, sugere uma viagem cultural e temporal. Iniciada no final dos anos 1950, a festa tinha como objetivo juntar fundos para a construção da igreja católica do bairro Bom Pastor. Mas, mesmo após a finalização da obra, a celebração continuou, e uniu o lazer ao reconhecimento dos povos imigrantes que residiam na região.

No começo, a festividade envolvia, principalmente, imigrantes italianos, alemães e portugueses, pois estes já faziam eventos próprios na cidade. Em uma notícia de 1963, do jornal Gazeta Commercial, a Casa D’Itália convida os juiz-foranos a participarem da festa junina, ocasião organizada pelos estrangeiros. Além disso, segundo a Prefeitura de Juiz de Fora, desde 1969 os germânicos promovem a Festa Alemã, com sua localização principal no bairro Borboleta. Logo, esses povos marcaram a primeira fase da Festa das Nações, que foi dos anos 1950 até 1980, com o seu auge nos anos 1970.

Nas décadas seguintes, o evento passou por alguns hiatos, organizadores autônomos e pouca apoio por parte da prefeitura. O aumento desenfreado da popularidade foi o principal motivo para que ela não continuasse, já que a praça do Bom Pastor não possuía infraestrutura suficiente. Para resolver esse problema, o festival foi transferido para diferentes lugares, como a Avenida Rio Branco e o Parque de Exposições. Tais medidas se mostraram ineficientes, pois houve uma queda na procura por parte dos juiz-foranos.

A Festa das Nações retornou em 2015, na sua localidade tradicional. Apoiada pela prefeitura, a festividade foi organizada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e pela Associação Comercial e Empresarial de Juiz de Fora (ACEJF). Além de possuir um espaço aberto ao público, a festa soube juntar a experiência do público antigo à juventude de quem viveu sua primeira edição. 

Na parte da gastronomia, países como Argentina, Síria e o Líbano foram incorporados, ainda que sem a presença de imigrantes. No total, junto a outras 6 nações que já haviam participado, outras seis nações foram representadas: Brasil, Portugal, Espanha, Estados Unidos, França e Itália. Curiosamente, os alemães ficaram de fora em 2015. Com um propósito mais comercial do que comunitário, essa edição contou com a presença de 35 mil pessoas ao longo de quatro dias de evento. Em 2019, último ano do comando da Abrasel, a celebração contou novamente com um grande público.

Apesar do sucesso na retomada, a pandemia da Covid-19 obrigou a Festa das Nações a parar por dois anos. Em 2022, ela retornou sob o controle da empresa KB Produções. Com a proposta de preservar a tradicionalidade, o produtor Leandro Vaz de Mello, frequentador desde criança, aumentou o número de nações para onze. Acrescentou países como Austrália, Suíça e Alemanha. Além disso, foi inserido um palco com música ao vivo e uma feira de doações. Mesmo com uma “roupagem” diferente, o valor comercial do evento, novamente,  sobressaiu-se ao objetivo inicial de representar os imigrantes de Juiz de Fora. 

Segundo a prefeitura, a edição foi vantajosa, pois contou com a presença de aproximadamente 10 mil pessoas. A festa mantém uma constância, com edições em 2023, 2024 e 2025. Além disso, a instituição no Calendário Oficial do Município foi aprovada pela Câmara de Juiz de Fora em 2024. 

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 (Imagem: Acervo Digital PJF)

Edição de 2026

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Logomarca localizada na entrada do evento. / Imagem: Israel Rodrigues

   Sediada nos finais de semana dos dias 6 e 13, a Festa das Nações foi marcada por uma variedade de comidas típicas dos 15 países, shows ao vivo de diferentes gêneros musicais, espaço infantil e, segundo o produtor Leandro Vaz, preços acessíveis para o público. Porém, o componente principal responsável por popularizar a festa ficou de fora: os imigrantes. A barraca da China, por exemplo, foi composta por alunos de gastronomia da UniAcademia. Enquanto isso, uma única pessoa ficou encarregada do espaço destinado à Itália e à Espanha.

   O ponto alto da festa ficou para as barracas de Portugal, Alemanha e França, com a presença de, pelo menos, 10 pratos diferentes em cada uma. Ênfase para os alemães que chegaram ao número de 18 opções, o maior do evento. Pela primeira vez na Festa das Nações, a Hungria, com o doce Kürtőskalács (Bolo Chaminé), conquistou o público com recheios de Nutella e pistache, por exemplo.

   Embora a festividade não inclua a ideia inicial de representar os imigrantes que vieram para Juiz de Fora, trata-se de uma atração importante para a economia da cidade. Ela apresenta aos juiz-foranos a possibilidade de experimentar um pouco das comidas típicas, ainda que sem os ingredientes originais. Na região, o que não falta são pessoas que fazem especiarias diretamente de seus países, como são os casos da venezuelana Lenis e da síria Rozin.

Ausências

Vinda de Caracas, Venezuela, Lenis García pisou pela primeira vez no Brasil em 2016. Ainda no estado de Roraima, administrou um salão de beleza por três anos. Em 2020, optou por adentrar o país, vindo para a cidade mineira. Como não falava português, temia não se adaptar. “No início, estava insegura se entenderiam minha língua e se eu  conseguiria encontrar emprego”, afirmou. Porém, ela diz ter acontecido o contrário: foi bem recebida e conseguiu se adaptar bem.

Com saudades da terra natal, ela se perguntava quais restaurantes venderiam comidas típicas de seu país. Em uma pesquisa rápida, constatou: nenhum. Por isso, ainda com a ideia de voltar a administrar um novo negócio, ela se questionou: “por que não criar um restaurante?”. E foi essa a escolha feita. “Estava com vontade de comer uma arepa, uma cachapa, além de outras comidas típicas”, disse, “mas aqui nem mesmo conheciam essas palavras”. E foi a partir daí que surgiu o Venebar, restaurante tipicamente venezuelano. Em funcionamento desde 2024, o bar se tornou conhecido entre os juiz-foranos.

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Em contrapartida, o casal Rozin e Fourat realiza entregas de comida árabe via delivery por toda Juiz de Fora. Vinda da Síria, Rozin chegou ao Brasil em fevereiro de 2015. Morou no Rio de Janeiro e no Espírito Santo até se mudar, durante a pandemia de Covid-19, para Minas Gerais. Moradora há quase 10 anos da cidade, ela diz que a ideia de abrir o negócio começou a partir do pedido de uma colega. 

“Um dia, minha amiga, Paula, acabou me pedindo para cozinhar um prato típico sírio para ela. Sua reação, quando provou, foi ótima. Ela adorou tudo o que cozinhei", disse. Imediatamente, Paula contou a Rozin que deveriam vender para que outras pessoas pudessem provar. Assim, a ajudou com uma espécie de propaganda para divulgar sua cozinha síria. “Dito e feito, deu certo!”, disse. Com o cardápio recheado, o casal conquista o estômago e o coração dos juizforanos com quibes, esfirras, falafels, tabules e muito mais.

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Tanto Lenis quanto Rozin dizem ter sido bem recepcionadas pelo carinho e acolhimento da cidade. Entretanto, elas se questionam o porquê de não terem sido convidadas para a Festa das Nações. Rozin nem mesmo tinha conhecimento do evento. “Não sabia que acontecia essa festa. Nunca nos chamaram”, disse. Já Lenis acredita que alguns pratos do evento são mais abrasileirados do que típicos. Alguns comentários no instagram do evento mencionam que o público gostaria de ver o Venebar como representante de uma futura barraca da Venezuela.

   

Esperançosas de que nas próximas edições participarão, elas ressaltam a importância de se prestigiar as verdadeiras comidas típicas. “A comida árabe que fazem no Brasil não é a nossa comida”, disse Rozin. “Uma vez, quando comprei um quibe, notei que tudo era diferente, do recheio aos temperos”. Por isso, ela destaca: “caso nos convidem, iremos com muito prazer. Temos comida originalmente síria”.

A Festa das Nações se tornou um evento representativo de Juiz de Fora. Para Leandro e Gasparetto, trata-se de uma tradição que deve ser preservada, pois conta um pedaço da história do município. Entretanto, constata-se a necessidade de uma atualização, por parte dos organizadores do evento, a respeito das imigrações mais recentes na cidade. Dessa maneira, todas as histórias podem ser preservadas e uma conexão com a cidade pode ser gerada. 

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As cores da Venezuela compôe a logomarca do bar

O sanduíche arepa é um dos pratos mais pedidos pelos clientes 

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Salgados mais vendidos pelo casal 

Foto de perfil do restaurante nas redes sociais

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Comentário de um seguidor no perfil da Festa das Nações./ Imagem: Instagram

(Imagem: Israel Rodrigues)

(Imagem: Lívia Leão)

(Imagem: Israel Rodrigues)

(Imagem: Instagram)

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