ECONOMIA
Entre compras e contas: como o comércio e os consumidores lidam com os gastos de dezembro
Segundo levantamento da CNDL/SPC Brasil, o período natalino deve movimentar cerca de R$84,9 bilhões, com a expectativa de que 124,3 milhões de consumidores comprem presentes para familiares e amigos.
Por Lavínia Rodrigues
O Natal de 2025 promete agitar o comércio brasileiro. Com a chegada das festividades, aumentam também os gastos com presentes, decorações e alimentação. A corrida anual à procura de produtos de boa qualidade e com bons preços se tornou tradição, e o comércio agradece.
Lojas de roupa, artigos de decoração, padarias e muitos outros setores se preparam para um fluxo maior de clientes nas próximas semanas. De acordo com a pesquisa de Intenção de Compras para o Natal de 2025, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), estima-se uma movimentação de aproximadamente R$84,9 bilhões na economia brasileira, com 76% dos consumidores afirmando que pretendem comprar presentes neste fim de ano, o que equivale a cerca de 124,3 milhões de pessoas dispostas às compras. O estudo também indica que, em média, cada consumidor planeja adquirir quatro presentes – número que cresce para cinco entre as classes A e B – com ticket médio de R$174 por presente, valor R$37 superior ao de 2023. Apesar das projeções otimistas, o estudo também revela que grande parte das compras devem ser pagas de forma parcelada, especialmente no cartão de crédito, o que reflete o orçamento apertado e o impacto das taxas de juros elevadas.
Ainda assim, mesmo com o consumo mais cauteloso, o comércio costuma registrar uma movimentação maior no fim do ano, o que também se reflete no mercado de trabalho. Como explica a economista Renata Tempesta:
“Durante o período do Natal, o consumo tende a aumentar. Isso faz o dinheiro circular mais intensamente, gerando elevação nas vendas e, em alguns casos, nos preços. Além disso, o número de empregos temporários costuma crescer nessa época"
Natal para pequenos empreendedores
Apesar de o país já estar em clima de festa, o tão esperado “BOOM” nas vendas ainda não aconteceu para muitos pequenos negócios. Em Caxambu (MG), cidade turística do Sul de Minas, a lojista Edilene Maciel afirma que o desempenho deste início de dezembro não foi tão diferente comparado ao ano anterior – sem grandes quedas, mas também sem avanços significativos “o que é comum em cidades turísticas do interior, onde o crescimento do fluxo das vendas costuma acontecer mais próximo do Natal ou com a chegada de visitantes para as férias. O que se percebe de fato, é que os clientes estão cautelosos em relação aos gastos”.
Essa cautela aparece principalmente na busca por preços mais baixos – algo que não é apenas sensação, e sim, dados. A pesquisa “Intenção de Compra para o Natal 2025” mostra que 82% dos consumidores pretendem comparar preços antes de comprar, e 75% afirmam que irão fazer compras presencialmente em lojas físicas. “Os clientes estão mais seletivos e atentos ao preço. Muitos procuram peças com bom custo-benefício e aproveitam promoções, o que mostra um comportamento de compra mais cauteloso neste final de ano", afirma.
As roupas de verão têm sido as mais procuradas: vestidos leves, blusas, conjuntos femininos, além dos acessórios que costumam ter uma boa procura. Peças para confraternizações e festas de fim de ano também mantêm uma boa saída, mas ainda sem o impulso esperado para o período. “As clientes têm preferido o Pix pela rapidez e por permitir bons descontos, enquanto o parcelamento no cartão continua sendo muito utilizado para compras de valor maior, especialmente agora em dezembro.
Segundo a economista Renata Tempesta, esse comportamento está diretamente ligado ao cenário macroeconômico. “Devido a uma alta na taxa de juros, a maior dos últimos 20 anos, o acesso ao crédito ficou mais caro, com isso compras parceladas, que representam maior parte do consumo, ficaram mais caras e, por consequência, o consumo esse ano foi menor”, afirma.
Com a expectativa de aumento no fluxo apenas nas semanas que antecedem o Natal, Edilene contrata uma ajudante temporária todos os anos para dar conta da demanda. “Esse apoio extra é suficiente para organizar a loja, atender melhor as clientes e agilizar as vendas nesse período mais intenso”

Pagamento via Pix (foto: O Globo)
Setor de decoração
A percepção de cautela entre consumidores não é exclusividade do varejo de moda. Em outro segmento igualmente movimentado no fim de ano, o de decoração natalina, o cenário também revela estabilidade nas vendas e compras mais controladas. É o que explica o gerente da loja de artigos de decoração Camicado em Juiz de Fora, Tássio Medeiros, que destaca que, apesar de o interesse pelos itens tradicionais permanecer alto, os hábitos de consumo não cresceram em relação a 2024.
Segundo ele, os preços não tiveram grandes alterações em relação ao ano anterior, embora a loja tenha registrado reajustes pontuais ao decorrer dos meses “a gente começa o Natal aqui em agosto, então desde agosto a novembro foi tendo o aumento frequente da loja, mas normal, como sempre tem em todos os produtos”.
Os itens mais procurados seguem sendo os enfeites de árvore, especialmente bolas e ornamentos clássicos. Ainda assim, o valor gasto pelos clientes permanece semelhante ao de anos anteriores. “Os clientes da Camicado já são recorrentes, então eles vêm todo ano e acabam comprando sempre a mesma faixa de preço”, explica.
A loja trabalha com itens de fabricação própria, o que ameniza os impactos de variações cambiais – o que costuma pressionar fortemente o preço de itens importados em outros estabelecimentos. Ainda assim, com a forte demanda ao longo de quase cinco meses faz com que o estoque zere antes mesmo da chegada de dezembro. “No início de novembro já acaba tudo. Como nossos clientes são recorrentes, eles já sabem que em agosto começam as vendas e em novembro os produtos já estão se esgotando”.

Ítens decorativos de natal (foto: DesignInova)
Setor alimentício
Além das lojas de roupas e decoração, o setor alimentício também sente os efeitos do movimento de fim de ano — especialmente nas padarias de bairro, onde a demanda costuma crescer tanto por motivos sazonais quanto pelo retorno de moradores que passam o Natal na cidade.
Segundo Luiz Donizete, padeiro e proprietário de uma padaria de bairro, também na cidade de Caxambu (MG), o fluxo de clientes aumenta significativamente neste período. “A demanda fica melhor por conta das pessoas que moram fora e vêm pra cá, e também porque, com o fim do ano letivo, as crianças ficam em casa e isso aumenta bastante o consumo”, explica.
Os itens mais procurados seguem o padrão esperado: pães, bolos e panetones. Mas ainda há espaço para outros produtos estrategicamente produzidos para esta época do ano. “Os clientes não têm o costume de trocar os itens que já estão acostumados, mas colocamos outros produtos para chamar a atenção e despertar o interesse. Este ano, por exemplo, lançamos pães de queijo recheados", afirma.
Apesar do aumento na demanda, o estabelecimento não realiza contratações temporárias. “Temos uma equipe pequena, mas muito entrosada. Mesmo com a demanda maior, conseguimos atender bem sem a necessidade de reforço”
Trabalhadores independentes
No setor de serviços pessoais, o Natal também representa um aumento significativo nas demandas, especialmente em áreas relacionadas à estética, que acompanham o calendário das celebrações. É o caso da designer de sobrancelhas Joice Fernandes, que confirma o volume intenso no final do ano. “Dezembro costuma ser um dos melhores meses em relação a demanda de clientes por conta de muitos eventos como festas e formaturas”.
Sobre o comportamento das clientes, Joice nota que as decisões de consumo variam bastante, conforme a situação financeira individual – e ainda assim dezembro costuma ser um mês mais favorável. “Mesmo com um ano mais difícil, dezembro ainda costuma ser o período de mais movimento, principalmente na área em que eu trabalho”, destaca. E embora haja uma elevação no fluxo, a designer aponta que a precificação dos serviços necessitam de muita atenção. “Não faço pacotes, mas costumo reajustar os preços”, afirma.
O décimo terceiro e quem fica de fora (o peso da renda extra no consumo - e a realidade de quem não a recebe)
Se para trabalhadores formais o décimo terceiro salário funciona como um impulso para as compras de fim de ano, para pagar dívidas ou reforçar o orçamento doméstico, a situação é bastante diferente entre profissionais autônomos. Sem a garantia dessa renda extra, eles enfrentam dezembro com maior cautela — dependendo exclusivamente do fluxo de clientes para equilibrar as contas.
Joice é um exemplo de como a ausência do benefício mexe diretamente no planejamento financeiro. Sem respaldo de um salário fixo ou de direitos trabalhistas, como férias e 13º, ela precisa redobrar o cuidado com a organização ao longo do ano. “Separo contas pessoais das profissionais e tento fazer uma reserva de emergência”, explica, lembrando que o preço dos materiais também impacta diretamente na margem de lucro.
Além da designer de sobrancelhas, a freelancer Lavínia Arruda conta que o fim do ano exige um planejamento mais rígido para conseguir lidar com os gastos típicos da época. “A gente fica na expectativa de fazer o salário normal dar certo, porque o 13º, além de um direito do trabalhador da CLT, é um incentivo para passar dezembro e janeiro sem sufoco”, afirma.
Sem tempo disponível para fazer bicos e complementar a renda, ela precisa adaptar o próprio consumo. “Minha ideia é otimizar o dinheiro que eu sei que vai entrar, considerando as despesas extras que são comuns dessa época”, explica.
Além da questão financeira, ela também sente a pressão por consumo alimentada pelas festividades. “Todo mundo sente vontade de comprar roupa nova, presente, enfeite. O fim do ano cria esse estímulo constante para gastar, mesmo quando não cabe no bolso”. Para evitar compras por impulso, ela adota um raciocínio mais pragmático: “Eu tento pensar se aquilo vai ser útil depois do Réveillon. Não posso gastar agora como se não existissem fevereiro, março, abril...”.
A ausência do décimo terceiro salário também afeta jovens que ainda estão entrando no mercado de trabalho, especialmente aqueles que atuam como estagiários. Para eles, o fim do ano se torna um período de tensão financeira, marcado por cobranças sociais e gastos sazonais. É o caso da estudante Rayane Nascimento, que relata sentir de forma intensa a desigualdade criada pelo benefício exclusivo a trabalhadores formais.
“O fim do ano é a época em que você mais precisa comprar coisas, então só o meu salário, principalmente de estagiária, não dá muito”, afirma. Ela conta que o contraste fica ainda mais evidente dentro do ambiente de trabalho. “É algo que pesa bastante, principalmente porque você vê todo mundo no trabalho recebendo, e você não”.
A questão, para ela, também envolve justiça. “O décimo é proporcional ao salário, né? Na minha percepção, deveria ser igualmente para estagiário,” comenta. Sem o benefício, a alternativa é buscar fontes complementares de renda. “Costumo pegar extras. Este ano, por exemplo, apliquei provas como trabalho extra para tentar suprir os gastos que o fim do ano acaba exigindo".

Estudante e estagiária, Rayane Nascimento (foto: arquivo pessoal)
Além do peso econômico, há também uma pressão cultural que atravessa as festas de fim de ano — viagens, presentes, a “roupa nova” para a virada. “Todas essas coisas acabam sendo tão faladas que a gente cai na pressão de comprar e gastar”, reflete. Para quem recebe o décimo terceiro, a organização financeira se torna mais viável; já quem não recebe tende a empurrar despesas para janeiro. O problema, segundo ela, é que “em janeiro a pessoa se vê endividada”
Solidariedade natalina
No campo religioso, o fim do ano também movimenta ações voltadas à solidariedade. A secretária paroquial da cidade de Conceição do Rio Verde, Isabel Cristina explica que, embora a procura por sacramentos não sofra impacto direto do décimo terceiro — já que casamentos e batizados costumam ser planejados com antecedência — a arrecadação de itens para doação cresce de forma significativa. “Mobilizamos as pastorais e movimentos para entregar um maior número de cestas básicas com produtos de Natal, e todo ano o resultado é muito positivo”.
Apesar disso, ela aponta que a demanda por ajuda não aumentou em comparação a anos anteriores. “Em nossa cidade existem vários órgãos e entidades que fazem doações de cestas básicas, então não tivemos crescimento nos pedidos”, diz.
Para lidar com os custos adicionais do período, a paróquia mantém um controle financeiro próprio. “Trabalhamos com saldo reserva, o que nos dá margem para cobrir os gastos desse mês. Como temos uma estimativa dos custos fixos, conseguimos passar por esse período com tranquilidade”, finaliza.

Membros da Paróquia Conceição do Rio Verde (foto: Diocese da Campanha)
