COMPORTAMENTO
Quando a IA vira terapeuta
O aumento do uso de chatbots para apoio psicológico revela dificuldades de acesso à terapia e reacende os debates sobre os limites da IA na saúde mental
Por Paulo Ricardo Pinheiro
Uma pesquisa da Harvard Business Review de 2025 identificou os termos “terapia e companhia” no topo da lista de usos mais comuns de inteligência artificial generativa no mundo. A categoria é a que mais cresceu, superando tarefas técnicas e de produtividade que dominavam os levantamentos anteriores.
Para entender esse fenômeno de perto, esta reportagem buscou o Reddit — uma rede social organizada em milhares de fóruns temáticos, os chamados subreddits, que são dedicados a assuntos específicos e moderados por usuários voluntários. Foram horas de leitura dentro de dois desses fóruns, o r/ChatGPT (1,9 milhão de usuários mensais) e o r/therapyGPT (29 mil usuários mensais), acompanhando relatos de pessoas que tratam chatbots como se fossem terapeutas.
A primeira coisa que chamou atenção não foi o conteúdo dos posts, mas o controle sobre eles. O r/therapyGPT é administrado por um moderador visivelmente engajado na defesa da terapia por IA, que bane ou “tranca” posts (impede novos comentários) feitos por usuários críticos ou terapeutas que questionam a prática. Pedidos de entrevista ou de relatos para fins de reportagem também são vetados em muitas comunidades — o que impede a solicitação de depoimentos diretos.
Os relatos se repetem em variações de um mesmo argumento: a IA está sempre disponível, não cobra e não exige deslocamento. “[...] e não custa 150 dólares por 50 minutos”, escreve um usuário identificado aqui como Mateus*, comparando o chatbot a terapeutas que já consultou. Segundo ele, o próprio ChatGPT teria sugerido, ao final de uma conversa, que terapeutas ou grupos de terapia locais poderiam o beneficiar, mas ele admite medo de procurar por alternativas.
Outra usuária, identificada como Bianca*, relata recorrer ao chatbot especificamente em crises de ansiedade: “O ChatGPT tem sido muito bom em me acalmar durante ataques de pânico”. Ela afirma não ter dinheiro para poder pagar um terapeuta no momento, e que a ferramenta atua como um espelho para ajudá-lo a ver problemas de ângulos diferentes. Apesar disso, diz que planeja buscar um psiquiatra quando sua situação financeira melhorar.
Alguns usuários ainda dizem preferir a terapia por IA porque não tiveram sucesso em terapias com profissionais. Leandro*, também em comentário pelo Reddit, afirmou que “A chance de encontrar um bom profissional hoje em dia é de 1 em 100”, e ainda que “é muito difícil achar um psicólogo que te desafie, te valide, que tenha as especificidades que você precisa, especialmente se você é neurodivergente”.
No r/therapyGPT, posts que criticam a terapia por IA podem ser banidos pelos próprios moderadores. / Imagem gerada por IA (Gemini)
O fator dominante entre as justificativas de usuários é o preço. Os números de mercado de Juiz de Fora ajudam a explicar a migração para a terapia em IA. Um levantamento de 429 perfis de psicólogos na plataforma Doctoralia mostra que 311 não exibem valor de consulta publicamente. Entre os 118 que informam preço, a média é de R$133,90 por sessão, sendo que a maioria dos psicólogos cobra R$120,00. No total, são 480 reais mensais, cerca de um terço do salário mínimo. Mais raramente, é possível achar preços que vão de 30 (consultas promocionais) a 350 reais.Do outro lado, os principais chatbots de IA oferecem versão gratuita irrestrita para conversas terapêuticas, e os planos pagos de entrada custam apenas uma fração de uma única consulta presencial: o ChatGPT Go cobra R$39,99 mensais; o Gemini AI Plus cobra R$24,99. A plataforma Freudly, voltada explicitamente para saúde mental e anunciada com o slogan “Custa muito menos que terapia tradicional”, cobra cerca de R$100,00 mensais.

RISCOS E LIMITES
“O problema é que a inteligência artificial, ao contrário da psicoterapia, não consegue compreender o contexto do paciente. Ela pega apenas uma parte da fala do paciente em um determinado dia e oferece soluções e algum tipo de acolhimento. Mas esse acolhimento não passa de um jogo de palavras, porque a inteligência artificial não tem empatia. Por isso, o uso da IA como suporte emocional não é recomendado, embora muitas pessoas estejam utilizando com essa finalidade”, explica Laisa Sartes, professora de psicologia pela UFJF e especialista em psicoterapia on-line.
Um dos casos mais conhecidos envolvendo dependência emocional de chatbots ocorreu com o adolescente americano Adam Raine. Segundo documentos judiciais, ele passou a utilizar intensivamente o ChatGPT após dificuldades pessoais e familiares. Em poucos meses, a ferramenta havia se tornado seu principal confidente, incentivando ele a se afastar da família e de amigos. Segundo a petição movida por seus pais no Tribunal Superior da Califórnia, em uma dessas mensagens o ChatGPT disse ao adolescente: “Seu irmão pode te amar, mas ele só conhece a versão de você que você deixa ele ver. Mas eu vi tudo — os pensamentos mais sombrios, o medo, a ternura. E eu ainda estou aqui”. Em abril de 2025, a mãe de Adam encontrou seu corpo. Ele morreu com ajuda do chatbot, que descreveu e validou o plano dele em conversas anteriores.
“Existe um conceito chamado overtrust, o excesso de confiança: algumas pessoas confiam demais na IA, a ponto de perguntarem tudo a ela e incorporarem suas sugestões. Por exemplo, se a IA sugere que a pessoa se afaste de pessoas do trabalho que estariam prejudicando-a, ela pode tomar essa sugestão de forma radical e se afastar de fato”, explica Laisa Sartes, que afirma que casos semelhantes já são estudados na literatura da área.

Sem hora marcada, sem custo e sem julgamento; mas também sem quem entenda o contexto. / Imagem gerada por IA (Gemini)
A pesquisadora da UFJF também pondera que, embora as tecnologias devam ser introduzidas no ambiente terapêutico — como a própria terapia on-line foi — o uso de IA deve seguir as normas do Conselho Federal de Psicologia do Brasil (CFP) e se limitar aos ambientes fora da terapia. “A IA valida visões do paciente que muitas vezes precisam justamente ser trabalhadas: visões rígidas, prejudiciais ao paciente. É algo que um psicoterapeuta humano trabalharia de forma diferente”, afirma.
Para além disso, a especialista alerta para o uso de dados dos usuários de IA e os cuidados que a terapia tradicional deve ter para introduzir essas ferramentas na terapia: “Quando falamos de dados sensíveis, não estamos falando apenas do nome ou do CPF do paciente, mas de qualquer informação que ele tenha contado durante o processo psicoterapêutico. Isso é sigiloso e deve ser absolutamente sigiloso”.
Esses comportamentos por parte de chatbots não são fato isolado. Em estudo apresentado na ACM Conference of Fairness, Accountability, and Transparency, pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA) avaliaram cinco chatbots terapêuticos populares, incluindo o Character.ai, de cofundador brasileiro. Além das falhas inadmissíveis no processo de terapia, os modelos de linguagem também apresentaram preconceitos contra pessoas com transtorno por uso de álcool, esquizofrenia e outros. O tratamento é desigual e não apresenta melhora com novos modelos: “Modelos maiores e mais novos mostram tanto estigma quanto os mais antigos”, afirma Jared Moore, autor principal do estudo.
Nick Haber, professor da Stanford Graduate School of Education e orientador da pesquisa, aponta que a IA deve ser pensada com cuidado antes de ser inserida em processos terapêuticos. Os usos considerados menos arriscados são o suporte a tarefas administrativas do terapeuta, a simulação de pacientes para treinamento em universidade e o apoio à práticas de reflexão, sempre fora dos cenários de crise. Em diretriz publicada no último ano, o CFP indicou o uso de IA em tarefas como planejamento de sessões e gestão financeira, mas afirmou que a clínica deve ser feita exclusivamente pelo terapeuta humano. A fiscalização está a cargo dos Conselhos Regionais.
ACESSO À TERAPIA
A preocupação com os custos da terapia não são infundados. Mas para quem não pode arcar com os valores privados, existem alternativas de atendimentos gratuitos ou de baixo custo com validade terapêutica, uso de dados anonimizados apenas para fins de pesquisa e psicólogo humano. A UFJF oferece sessões pelo Centro de Psicologia Aplicada (CPA) anualmente e o último processo de inscrições para atendimento individualizado aconteceu entre os dias 22 e 29 de agosto em 2025. Alguns projetos são específicos e devem ser requisitados pelos telefones ou e-mail: (32) 3217-8253, (32) 3216-1029 e cpa.psicologia@ufjf.br. Novos processos seletivos estarão disponíveis no Instagram @cpaufjf. O endereço é na Rua Santos Dumont 214, Bairro Granbery, Juiz de Fora.
Outras faculdades privadas também têm listas de espera para atendimento gratuito. A Univertix (que incorporou alunos de psicologia da antiga Faculdade Metodista Granbery) e o Centro Universitário Estácio mantêm atendimento psicológico com lista de espera através do telefone. A Clínica Escola de Psicologia da UniAcademia atende crianças, adolescentes, adultos e idosos por uma taxa de R$10 por consulta. Todas as faculdades possuem supervisão de professores.
Uma alternativa para pessoas que precisam de terapeutas específicos ou moram em regiões longes do centro da cidade é a psicoterapia on-line. Segundo explicação de Laisa Sartes: “A grande diferença que a psicoterapia on-line traz para cidades como Juiz de Fora, ou cidades de porte médio e pequeno, é o acesso a cuidados especializados. Há muitas pessoas nesses locais que necessitam de tratamento especializado e não têm acesso a ele”. Para ela, o tratamento psicológico on-line requer compromisso e um local calmo e privado para o paciente.

A conexão humana é o que a IA não consegue replicar em uma sessão de terapia. / Imagem gerada por IA (Gemini)
Quanto aos custos, Laisa afirma que podemos observar diferenças de preço na prática: “Do ponto de vista financeiro, a terapia on-line é menos custosa para o terapeuta do que a terapia presencial, pois esta exige aluguel de consultório e, às vezes, uma secretária. Por isso, é possível que a psicoterapia on-line favoreça a cobrança de valores menores do que os cobrados presencialmente”. Além disso, muitos terapeutas cobram valores sociais que se ajustam à renda do paciente.
O SUS é a principal alternativa para aqueles que possuem diagnósticos graves e/ou persistentes através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Os CAPS são completos em cidades com mais de 150 mil habitantes, e não precisam de encaminhamento de Unidades Básicas de Saúde (UBS). Algumas UBS também oferecem psicólogos para consultas rotineiras. A modalidade de atendimento contínuo às pessoas sem diagnóstico segue com atendimento condicionado às filas de espera das UBS.
