CIDADE
Feiras de Juiz de Fora: histórias de quem faz acontecer
Famílias compartilham suas trajetórias nas feiras da Avenida Brasil e do bairro São Mateus em Juiz de Fora
Por: Mariana Vieira e Paola Pereira

Dia de feira | Foto: Mariana Vieira
Uma longa avenida. Barraquinhas, legumes, frutas, doces, queijos, caldo de cana, pastel. Lonas estendidas no chão, roupas, celulares antigos, relógios, fios, chaleiras, jóias… de tudo um pouco. A feira livre tem variados produtos para agradar diferentes pessoas. Ao todo, em Juiz de Fora, são 24 feiras que funcionam de terça a domingo em diferentes momentos do dia. A feira do bairro São Mateus acontece todas as quartas-feiras, das 7h às 12h; já a feira de domingo, considerada a mais popular de Juiz de Fora, funciona das 7h às 13h, na Avenida Brasil. Essa última é conhecida pela grande variedade de produtos oferecidos, incluindo frutas, legumes, roupas, ferramentas e diversos outros itens, atraindo consumidores de diferentes regiões da cidade.
Além de movimentarem o comércio local, as feiras desempenham um papel importante na geração de renda para os trabalhadores, muitos dos quais vendem a própria produção. Esses espaços também contribuem para a valorização do trabalho dos feirantes e para o fortalecimento da economia do município.
As feiras livres se caracterizam como mercados varejistas ao ar livre. Nesses lugares, prioriza-se a venda de alimentos saudáveis e o incentivo a práticas sustentáveis. Além disso, elas contribuem para a valorização do trabalho de feirantes como Matheus Castro, Lucy Barbosa, Pettry Almeida e Sueli Ribeiro, já que muitos dos produtos comercializados são resultado do cuidado e da dedicação dos próprios vendedores. Pessoas de diferentes idades e perfis frequentam esses locais, compartilhando histórias, criando vínculos e amizades, e contribuindo para o ambiente acolhedor e popular das feiras. Cada trabalhador tem uma trajetória particular e motivos distintos para atuar nesse comércio, seja por afinidade com a atividade, pela complementação da renda ou pela continuidade de uma tradição familiar.

Feiras livres unem comércio, tradição e convivência, fortalecendo a economia local e valorizando o trabalho dos feirantes | Foto: Paola Pereira
Uma família na feira:
Na feira de São Mateus, Lucy Barbosa (66) e sua neta, Pettry Almeida (20), compartilham como a atividade atravessa gerações da família. Lucy trabalha como feirante há 15 anos e iniciou a trajetória ajudando familiares no comércio. Já Pettry atua nas barracas há quatro anos e, aos poucos, vem assumindo maiores responsabilidades no negócio. Segundo Lucy, a barraca agora pertence a Pettry: “Já é dona da barraca, já planta, agora é ela que vai vender. Já está assumindo os negócios”. Pettry começou a trabalhar na feira para ajudar a família, mas a experiência anterior com vendas fez com que passasse a administrar o negócio e a construir uma relação próxima com o público. Para ela, a feira é um espaço de companheirismo e de troca.
A convivência entre os feirantes é um dos aspectos que mais agrada Lucy. Segundo ela, é comum que os trabalhadores se ajudem mutuamente, divulguem os produtos uns dos outros e compartilhem receitas, alimentos e até doações. Pettry compartilha da mesma percepção e afirma que trabalhar com a família e acompanhar a interação do público com os produtos é uma das partes mais gratificantes da rotina, especialmente quando levam novidades para a barraca.
Grande parte dos alimentos comercializados é produzida pela própria família. Entre os itens cultivados estão alface, rúcula, agrião, salsinha, cebolinha, coentro, manjericão, couve e mostarda. Alguns produtos, como couve-flor, brócolis e alho-poró, são adquiridos na unidade da CEASA (Centrais de Abastecimento) em Juiz de Fora. Ao falar da produção, Lucy brinca: “Eu moro dentro da horta. É viver na geladeira, é ver a salsinha nascer na porta da cozinha, é ver o almoço ali do lado… onde olha é tudo verde”.
A rotina da família começa cedo. Às terças-feiras, todos participam da colheita, das 6h às 18h, e da separação das mercadorias que serão vendidas no dia seguinte. Já na quarta-feira, eles saem do bairro Linhares às 3h e chegam ao São Mateus por volta das 4h para montar a barraca, que funciona até o meio-dia.
Apesar da boa relação entre a família, os demais feirantes e os clientes, alguns desafios fazem parte do trabalho. Pettry destaca que as frequentes obras no local da feira dificultam a montagem das barracas e a circulação do público. Lucy também comenta sobre o clima, especialmente durante os períodos de chuva, que podem comprometer tanto os produtos quanto a estrutura da barraca. Ainda assim, ela garante que as dificuldades não afastam os feirantes da atividade: “Se for sol ou chuva, a gente vem. Feirante só tem três feriados que não trabalha: Sexta-feira da Paixão, Natal e Ano Novo. O restante, qualquer feriado, se for dia de feira, tem feira”.
A família já atuou em quatro feiras diferentes, mas atualmente trabalha apenas na do bairro São Mateus. Ao longo dos anos, Lucy percebeu uma redução no público frequentador, que atribui à aproximação dos preços das feiras aos supermercados. Pettry, por sua vez, destaca as mudanças implementadas pela Prefeitura, como a obrigatoriedade de assinatura de presença e a reorganização das barracas. Mesmo diante dessas transformações, a família mantém viva uma tradição construída ao longo de gerações.
Entre quatro feiras:
Em outro lado da feira, Matheus Castro (28) compartilha um pouco de sua história. Ele trabalha em quatro feiras de Juiz de Fora: às quartas-feiras, no São Mateus; às quintas, na Feira do Manoel Honório; aos sábados, na Feira de Benfica; e aos domingos, na feira da Avenida Brasil.
Sua relação com a feira também é antiga, e ele brinca dizendo que “nasceu na feira”. O pai atua no ramo há cerca de 45 anos, o que o fez crescer nesse ambiente e se tornar feirante desde pequeno. Apesar de ser um trabalho familiar, ele afirma que lidar com parentes nem sempre é simples: “É um pouquinho mais complicado, porque quando você tem muita intimidade, você acaba brigando mais fácil com a pessoa do que quando não tem”, relata. Ainda assim, ele gosta de trabalhar na feira, principalmente por ser comunicativo e pelo contato direto com o público.
Os produtos comercializados por ele são voltados principalmente para a alimentação, como frutas. A família não é produtora, atuando apenas na revenda dos alimentos. Segundo Matheus, um dos principais desafios da atividade é a rotina de trabalho, que exige madrugar. Em alguns dias, ele acorda por volta das três horas da manhã para organizar a feira, o que torna o trabalho bastante cansativo.
Atuando em diferentes feiras da cidade, ele observa diferenças no perfil do público. De modo geral, nota a presença maior de pessoas mais velhas, enquanto os jovens costumam frequentar os espaços mais como passeio. Na feira da Avenida Brasil, segundo ele, há uma busca maior por preços mais baixos, o que atrai consumidores em busca de economia. Já no São Mateus, o público tende a valorizar mais a qualidade dos produtos do que o preço. Nesse caso, há uma menor rotatividade e os clientes costumam comprar mais itens em uma mesma barraca.
Uma atividade extra
Na feira de domingo, Sueli Ribeiro é outra personagem. Além de feirante, ela atua como cabeleireira, conciliando duas profissões no dia a dia. Sua rotina também começa cedo: ela acorda por volta das 6h, organiza os produtos e segue para a feira, chegando por volta das oito horas.
Sueli vende produtos variados, como roupas, calçados, eletrodomésticos e itens de madeira. Parte dessas mercadorias ela obtém por meio de trocas ou doações, e a madeira utilizada vem de um sítio da família. Há 14 anos, ela trabalha na feira de domingo como forma de complementar a renda, mas acabou se identificando com a atividade, que também ajuda a movimentar sua rotina.
A feirante relata que um dos desafios de atuar na feira é estar em um ambiente majoritariamente masculino. “No começo era bem complicado, porque mulher trabalhando no meio de mais homens é meio complexo, então não pode sorrir muito, não pode fechar muito a cara, tem que fazer um equilíbrio”, afirma.
Ao longo dos anos, Sueli percebeu mudanças na organização da feira. Segundo ela, as novas regras da prefeitura trouxeram mais estabilidade aos trabalhadores. “Com as mudanças da prefeitura, hoje ficou melhor, porque você tem seu ponto marcado com tudo legalizado, tem a sua licença, todo domingo passa os fiscais para poder pegar assinatura… Você não precisa ficar lutando e nem chegar cedo para pegar um ponto, já tem o seu local e é mais tranquilo”, explica.
Apesar de gostar do trabalho, ela não frequenta a feira todos os domingos, já que precisa conciliar as duas profissões. Quando necessário, usa o domingo para descansar. Ainda assim, considera a feira uma importante fonte de renda extra, que ajuda a financiar viagens, passeios e momentos de lazer com a família.

Lucy Barbosa e Pettry Almeida estão entre os feirantes que movimentam a feira de São Mateus | Foto: Paola Pereira

A barraca de Matheus na feira de domingo na Avenida Brasil | Foto: Mariana Vieira

