ENTREVISTA
Entre o descanso e a agitação: como as férias escolares afetam o emocional das crianças
Por Gabriel Cardoso
As férias escolares vão muito além da pausa nas aulas. Para algumas crianças, representam descanso e liberdade; para outras, significam lidar com mudanças bruscas, excesso de estímulos e falta de previsibilidade. Como explica o psicólogo Luiz Victor Silva, o impacto desse período varia conforme personalidade, dinâmica familiar e necessidade de estrutura. Entender essas diferenças ajuda a reconhecer como as férias influenciam o emocional e o comportamento infantil — e como as famílias podem apoiar esse processo.
P: Como as férias escolares costumam impactar a rotina emocional e comportamental das crianças?
R: Na prática clínica e nas observações em escolas, é comum notar que as férias trazem uma mistura de alívio e excitação para as crianças. A ausência de horários rígidos permite mais descanso, mais liberdade para brincar e um ritmo menos acelerado — algo muito positivo para o bem-estar emocional. Por outro lado, algumas crianças demonstram maior agitação, irritabilidade ou dificuldade para organizar o próprio tempo. Isso acontece porque nem todas lidam bem com tantos estímulos ou com a falta de previsibilidade. Crianças que precisam de maior estrutura no dia a dia — sejam neurotípicas ou com necessidades específicas de apoio — podem sentir esse período com mais intensidade. Por isso, o impacto costuma variar bastante de acordo com a personalidade, a dinâmica familiar e o quanto a rotina da casa sofre mudanças.
P: A quebra da rotina pode favorecer ou prejudicar o desenvolvimento infantil?
R: A mudança de rotina pode ser positiva como oportunidade de descanso e exploração livre, que contribuem muito para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Brincadeiras espontâneas e ambientes menos rígidos favorecem criatividade, autonomia e habilidades socioemocionais. Porém, essa quebra pode ser desafiadora para algumas crianças — especialmente para aquelas que dependem mais de regularidade para manter estabilidade emocional e comportamental. A literatura costuma diferenciar crianças neurotípicas de crianças neurodivergentes, mas, independentemente da nomenclatura, sabemos que algumas têm maior necessidade de previsibilidade. Para essas, mudanças abruptas podem gerar insegurança, desorganização interna e irritabilidade. O ideal é manter alguns pontos de referência do dia, como horários de sono e alimentação, mesmo que de forma mais flexível. Assim, a criança aproveita a liberdade das férias sem perder o sentimento de segurança que a rotina proporciona.
P: Como os responsáveis podem equilibrar a necessidade de descanso das crianças com a manutenção de alguns hábitos importantes?
R: Um bom caminho é pensar em rotinas mais leves, não necessariamente rígidas. Não é preciso que tudo siga os horários escolares, mas manter uma certa regularidade ajuda a criança a se sentir segura, principalmente em períodos de maior estímulo. Os responsáveis podem organizar o dia em blocos — por exemplo: manhã mais livre, tarde com alguma atividade estruturada, e noite focada em preparo para o sono. Isso dá previsibilidade sem engessar o dia. O foco deve ser no equilíbrio: permitir descanso, diminuir exigências, mas ainda proteger hábitos essenciais como alimentação, higiene, sono e momentos de convivência familiar.
P: Há sinais de esgotamento parental que costumam aparecer com mais frequência nesse período?
R: Sim. Durante as férias, o cuidador — seja pai, mãe, avó, tio, irmão mais velho ou qualquer pessoa que desempenhe essa função — tende a assumir quase todas as demandas de organização, supervisão e entretenimento da criança. Isso gera desgaste emocional. É comum aparecerem sinais como irritação maior que o habitual, cansaço persistente, dificuldade de manter a paciência, sensação de culpa e até uma ideia recorrente de “não estou dando conta”. Nada disso indica falha; indica acúmulo. Reconhecer esses sinais é importante para ajustar expectativas, dividir responsabilidades quando possível e criar momentos de descanso também para quem cuida.
P: Quais práticas ajudam a transformar as férias em um período mais tranquilo para a família?
R: Algumas práticas simples fazem muita diferença como criar uma rotina leve e previsível, alternar momentos de estímulo com momentos de descanso, reservar pequenos tempos de autocuidado para o cuidador, oferecer opções de atividades, permitindo que a criança escolha, reduzir expectativas: férias não precisam ser um “evento” e reforçar combinados claros — poucas regras, mas bem definidas. Para crianças com maior necessidade de apoio, pequenas antecipações (“depois do almoço vamos ao parque” ou “à tarde teremos uma atividade calma”) ajudam a diminuir ansiedade e facilitam transições.
P: O uso de telas tende a aumentar nas férias. Qual é o limite saudável e como os responsáveis podem mediar isso sem culpa?
R: O aumento é esperado, e não precisa ser visto como erro. O importante é mediar de forma consciente. As diretrizes geralmente sugerem que menores de 2 anos evitem as telas, exceto com videochamadas; crianças de 2 a 5 anos com cerca de 1 hora por dia, com supervisão e conteúdo adequado; crianças de 6 a 10 anos entre 1 e 2 horas, com pausas e variedade de atividades e 11 anos ou mais devem ter foco no equilíbrio entre telas, sono, estudo, brincadeira e atividade física. Mais do que contar minutos, vale observar o efeito das telas na criança. Se ela fica irritada após usar, perde o sono ou evita outras atividades, é um sinal para ajustar. Participar minimamente — conversar sobre o que ela assiste, assistir junto, propor pausas — torna o uso de telas mais saudável e fortalecedor do vínculo.
P: As atividades estruturadas, como cursos e colônias de férias, são realmente benéficas? Para quais perfis de criança?
R: Podem ser bastante benéficas, principalmente para crianças que gostam de socialização, precisam de mais organização no dia a dia ou têm energia para atividades em grupo. Essas experiências ampliam repertórios, estimulam convivência e ajudam a manter uma rotina mínima. Para crianças que se cansam facilmente, que preferem ambientes mais tranquilos ou que precisam de maior previsibilidade, talvez seja necessário ajustar o tempo de permanência ou escolher atividades menos intensas. O fundamental é que essas experiências não substituam o descanso — férias também são tempo de desacelerar.
P: Crianças com menos acesso a lazer tendem a sofrer mais nessa situação? Como os responsáveis podem amenizar essa lacuna?
R: Sim, a falta de acesso a espaços de lazer pode aumentar a sensação de tédio, isolamento e frustração. Mas o lazer não precisa depender de recursos financeiros. Atividades simples — como desenhos, brincadeiras simbólicas, jogos feitos em casa, leitura compartilhada, passeios a pé pelo bairro, visitas a praças e espaços públicos — têm grande impacto no desenvolvimento. O que faz diferença é a qualidade da interação, e não o custo da atividade. A criança cresce emocionalmente quando experimenta momentos de conexão e criatividade, mesmo em ambientes simples.
P: O retorno após as férias gera ansiedade em algumas crianças. O que a psicologia explica sobre isso?
R: Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, a ansiedade diante do retorno acontece porque a criança começa a imaginar possíveis dificuldades — os chamados pensamentos automáticos. São ideias rápidas como: “Vai ser difícil”, “Não vou me adaptar”, “Não sei se os colegas vão querer brincar comigo”. Esses pensamentos ativam sintomas físicos como dor de barriga, inquietação e tensão muscular. Algumas crianças — especialmente aquelas que precisam de maior previsibilidade — sentem esse processo de maneira mais intensa.
P: Quais estratégias da Terapia Cognitivo- Comportamental podem ajudar neste processo?
R: Algumas etratégias simples da TCC que ajudam bastante são retomar a rotina aos poucos antes das aulas voltarem, conversar sobre a ansiedade de forma clara e normalizadora, ajudar a criança a identificar pensamentos negativos, construir pensamentos mais realistas e funcionais e fazer pequenas aproximações ao ambiente escolar (rever materiais, visitar a escola, falar sobre colegas). Essas práticas reduzem a ansiedade e facilitam a adaptação.
P: É comum que os responsáveis sintam que estão falhando ao não ter tempo para brincar com os filhos? Como lidar com essa percepção?
R: Sim, essa sensação aparece com frequência. Muitos responsáveis acreditam que precisam estar disponíveis o tempo todo — o que não é realista. Cuidadores também têm cansaço, limites e demandas próprias. É importante lembrar que crianças não precisam de longos períodos de brincadeiras dirigidas; pequenos momentos de presença verdadeira — mesmo que curtos — têm impacto muito maior do que longas horas em que o adulto não está emocionalmente disponível. Reconhecer os próprios limites e ajustar expectativas ajuda a diminuir a culpa e fortalece o vínculo com a criança.
P: Em famílias com pouco orçamento, como os responsáveis podem gerenciar a ansiedade de não conseguir oferecer lazer às crianças?
R: A ansiedade é compreensível, mas é importante lembrar que o lazer não precisa ser caro. Atividades simples, acessíveis e próximas da realidade da família podem ser profundamente significativas. O foco deve estar na conexão: contar histórias, explorar o bairro, cozinhar juntos, fazer artesanato, brincar com objetos da casa, visitar praças e espaços públicos. Essas experiências fortalecem o desenvolvimento emocional e ampliam o repertório da criança sem gerar sobrecarga financeira. Para o cuidador, compreender isso reduz a sensação de inadequação e ajuda a focar no que realmente importa: presença, afeto e segurança.

“É importante lembrar que crianças não precisam de longos períodos de brincadeiras dirigidas; pequenos momentos de presença verdadeira — mesmo que curtos — têm impacto muito maior do que longas horas em que o adulto não está emocionalmente disponível. Reconhecer os próprios limites e ajustar expectativas ajuda a diminuir a culpa e fortalece o vínculo com a criança.”
- Luiz Victor Silva
