CULTURA
A Copa que acontece antes da bola rolar: ruas decoradas, álbuns completos e histórias contadas
Conheça personagens que marcam o cenário juiz-forano no período que antecede o maior evento do futebol mundial.
Por: Jackson Rezende e Thais Baldi

Bandeirinhas decorando o espaço Privilaje, local de encontro e festas entre amigos e familiares/ Foto: Jackson Rezende
Desde 1930, a cada quatro anos, o Mundial de Futebol mobiliza países inteiros e desperta paixões que atravessam gerações. A demonstração da força do esporte na cultura brasileira acontece desde a primeira Copa. O Brasil é o único país que já participou de todas elas e o sentimento em cada edição é transformado e compartilhado. Para os brasileiros, é tempo de união, festa e tradição. O mundo joga futebol, mas o Brasil vive o futebol. E tudo isso começa antes mesmo das primeiras partidas.
A tradição de pintar as ruas de verde e amarelo, e espalhar as bandeirinhas pelos bairros é antiga no Brasil. Em Juiz de Fora, a mobilização já atingiu mais de 10 bairros e reúne moradores de diferentes gerações em mutirões que ajudam a manter vivo o clima de Copa do Mundo. Além da decoração, o período também é marcado pelos encontros entre familiares e amigos para assistir aos jogos, pelas confraternizações comunitárias e pelo costume de colecionar figurinhas do álbum oficial, uma paixão que atravessa décadas. Esses hábitos mostram como o torneio movimenta além das quatro linhas e reforçam o papel da Copa como um evento capaz de mobilizar comunidades, fortalecer laços sociais e criar memórias compartilhadas.
A decoração que reúne uma comunidade
Na Rua Adolfo Leonel, no Bairro Jardim de Alá, os moradores não deixam morrer essa tradição. As famílias possuem uma forte história com o bairro e fazem questão de se reunirem a cada quatro anos para deixarem mais bonito o lugar onde moram. A tradição vem desde a Copa de 2006 e já passou por gerações: “Tenho essa tradição de toda Copa tirar foto do meu neto aqui na rua, desde 2018”, conta Marlene que este ano foi ajudada pelo próprio garoto. Ela faz questão de contar que a tradição é mantida pelos moradores e raramente com ajuda de fora, todos fazem questão de participar deste momento que ela ressalta ser de união.
Heitor, neto da Marlene, e a tradição das fotos na rua/ Foto: Arquivo Pessoal
Essa união inclusive apoiou quem mais precisou em momentos difíceis. Na metade da rua fica a “Distribuidora do Bê”, um empreendimento da família de Bernardo Gonçalves, o Bê, como é conhecido. Bernardo cresceu no bairro e criou fortes laços com a comunidade. Durante as chuvas do início do ano, outra área do bairro Santa Luzia foi fortemente atingida e a empresa foi ponto de coleta de doações. Esse sentimento de união está muito presente na Rua Adolfo Leonel, agora, depois dos dias difíceis, o comércio ficou responsável pela pintura de uma parte da rua. O proprietário conta que fez questão de fazer uma decoração especial neste ano, como forma de reforçar a importância da resiliência. Até mesmo as paredes do empreendimento foram estilizadas e o local vai ser ponto de reunião durante os jogos do Brasil.
Distribuidora do Bê, ponto de encontro na Rua Adolfo Leonel para a Copa do Mundo 2026/ Foto: Jackson Rezende
No final da rua, o “Bar do Tim” também recebeu decoração. Quase que em uma linda competição, os moradores fizeram questão de enfeitar cada parte importante da rua. E ainda, não abrem mão de contar da união da comunidade e como cada parte é essencial para o todo. “Toda Copa a gente organiza pra ficar bem animado, mesmo a seleção não animando. Aqui é um bairro muito unido, a rua toda se uniu, mesmo com as diferenças”, conta Cássio Obledo.
O Bar do Tim no final da Rua também foi decorado/ Foto: Jackson Rezende
Outras duas moradoras, Claudia Mara e Cátia Cristina, reforçaram a atitude da família de Marlene e da família de Bernardo, que sempre organizam as decorações da rua. É como se cada parte da rua fosse importante para cada um. Todos se empenham e se unem deixando as diferenças de lado, para fazer um momento especial.


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Novas lembranças após a tragédia
Na rua Dalila Lery, no Bairro Industrial, Isabela Guimarães decidiu iniciar a tradição para a Copa de 2026. A iniciativa surgiu de uma conversa com a vizinha por ver as pinturas em outras cidades nas redes sociais. Além disso, todas as casas da rua Dalila Lery foram atingidas pelas chuvas do fim de fevereiro na cidade e pintar a via seria uma simbolização do recomeço dos moradores. “A ideia era resgatar essa tradição e trazer novas memórias, principalmente para as crianças, que ficaram muito impactadas com a tragédia”, explicou. A pintura aconteceu no fim de abril, em uma confraternização entre os moradores, que durou mais de 10 horas. “Foi um dia de muita alegria, inesquecível, moradores de outros bairros vieram ver porque estava tudo muito lindo mesmo”, disse Isabela.
Moradores da rua Dalila Lery em comemoração para decorar a via/ Foto: Arquivo Pessoal

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Família preserva espírito da Copa
No Bairro de Lourdes, a Copa de 2026 trouxe um resgate da tradição que ficou perdida nas duas últimas copas. A família da Marcela Medina sempre decorava a rua e participava de concursos da cidade. Neste ano, devido às chuvas e a interdição de uma das ruas próximas, não foi possível fechar a rua para decorá-la. Mas isso não foi motivo para deixar de reunir os familiares e fazer uma comemoração. “A gente resolveu pintar em frente à casa da minha vó porque é onde normalmente nos reunimos para ver o jogo, sempre tem alguma comemoração e as pessoas da rua já sabem”, explicou Marcela. No fim das contas, a experiência de decorar a rua com os vizinhos e familiares ajuda a transformar cada Copa do Mundo em uma celebração coletiva. “A gente não sabe o que vem por aí, se o Brasil vai ganhar ou perder, mas a gente tem que manter a esperança e a união”.
Mesmo sem poder pintar a rua, família mantém a tradição de pintura e comemoração antes da Copa/Foto: Arquivo Pessoal

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Espaço Privilaje: família, amigos e união
“A gente sempre tá aqui, festejando, independente do Brasil vencer ou não”, conta Orneídes Lima, criadora do espaço “Privilaje”, no bairro Vitorino Braga. O local reúne familiares desde a copa de 2006, na copa seguinte, vieram os amigos de faculdade dos filhos, fazendo com que o movimento crescesse e se tornasse referência na cidade. “Os participantes dos eventos são amigos, vizinhos e familiares. Aqui é minha casa: casa de vó, lugar de receber e dar aconchego”, explica. O entusiasmo com a Copa do Mundo move a família, que fez churrasco para enfeitar a casa e evento teste no dia do último amistoso da Seleção Brasileira antes do torneio: “eu conto pros meus netos que fazíamos pedágio para arrecadar dinheiro e decorar as ruas, essa disposição não existe mais, mas a tradição de enfeitar a casa é irresistível”. Apesar das dificuldades, com a possibilidade de sonhar e “movidos pela utopia de um país campeão em tudo”, a família sonha com o Hexa e um Brasil mais justo.
Omar e Orneídes, anfitriões do espaço Privilaje/Foto: Jackson Rezende
Tânia, amiga da família de longa data, também fala como a tradição reforça os laços de amizade: “A Privillage é especial para nós, comemoramos a amizade. Eu e Orneídes somos amigas há 50 anos, desde a escola. A cada evento a gente comemora a vida, comemora amizade, comemora saber que existem pessoas com as quais podemos contar. Hoje se veicula muito o desamor e nós fazemos questão de vivenciar o amor a cada instante”.
Os apoiadores do Privilaje criaram uniforme próprio para essa edição da Copa do Mundo/Foto: Jackson Rezende


Álbum da Copa: Socializar para colecionar
Desde a sua estreia na Copa do Mundo de 1950, os álbuns de figurinhas conquistaram gerações de colecionadores. Mais do que simples passatempos, esses álbuns representam uma verdadeira paixão marcada pela nostalgia e pelo valor de trocar e compartilhar. Em Juiz de Fora durante a época de Copa, é certo que um lugar da cidade ficará sempre cheio: O Parque Halfeld. O local se torna ponto de encontro de colecionadores de todas as idades. José Augusto tem 45 anos e conta como despertou o interesse pela tradição: “Eu comecei com incentivo do meu pai na Copa de 1994, completei aquele álbum e não parei mais”. Desde aquela Copa, José completou todos os álbuns seguintes e o desse ano tem um sentimento especial, é o primeiro álbum que José completa com a ajuda do filho que agora troca, negocia e até pesquisa pelas figurinhas.
José Augusto e seu filho, no Parque Halfeld, contabilizando as figurinhas do álbum/Foto: Jackson Rezende
Além da tradição, José também comenta sobre a questão da sociabilidade que as figurinhas trazem. “É muito gratificante porque movimenta a interação entre pessoas que você não conhece”. E, enquanto José contava as figurinhas que precisava, seu filho negociava com outros colecionadores. Outro elemento importante citado por José é o resgate de costumes: “Acho que tira da zona de conforto, do mundo tecnológico que vivemos e que temos pouca interação com pessoas. Isso (os álbuns) traz um ambiente mais propício de conhecimento e de cultura”. E assim, uma tradição de Copa do Mundo resgata tradições antigas, incentiva boas atitudes e ajuda a promover costumes que estão se perdendo com o tempo.





