MISTICISMOS
Para além do místico: o tarot como forma de perceber a realidade
Tarólogas e consulentes revelam como as cartas atravessam vidas, dúvidas e decisões do cotidiano.
Por: Laura Cruz e Maria Fernanda Silva

Tenda Mística Jazz Tarot para a noite de Halloween da festa Pancadão de Som JF/ Foto: Alice Ruffo
Da corte renascentista italiana às telas de celulares e mesas de atendimento espalhadas pelo Brasil, o tarot atravessou séculos reinventando sua própria função. O que começou como um jogo aristocrático na Itália transformou-se em um sistema simbólico capaz de reunir espiritualidade, autoconhecimento e escuta. Nas histórias das tarólogas Jéssica Americano e Sophia Boregio, as cartas aparecem como instrumento de trabalho, acolhimento e interpretação. Nas experiências das consumidoras Gabriela Alves e Luiza Barros, elas surgem como apoio diante das incertezas da vida cotidiana. Entre quem lê e quem consulta, estabelece-se uma relação baseada na confiança: de um lado, alguém disposto a interpretar símbolos; do outro, alguém disposto a expor dúvidas, medos e expectativas. “É alguém para quem eu revelo aspectos muito pessoais da minha vida e que, consequentemente, passa a conhecer muitas coisas sobre mim”, destaca Gabriela.
Entre heranças espirituais e escolhas pessoais
Para quem faz do papel um espelho da alma, as 78 cartas de um baralho são ferramentas de tradução. No cruzamento entre a intuição e a técnica, mulheres dedicam a vida a ler as linhas invisíveis que conectam o indivíduo ao seu tempo. No universo da taróloga Jéssica Americano, a espiritualidade não é uma escolha tardia, mas uma herança de sangue. Pisciana de 32 anos, Jéssica cresceu cercada pelas montanhas místicas e pelo silêncio verdejante de Ibitipoca, filha de pais artistas e viajantes. Sua sensibilidade foi moldada no terreiro de Umbanda fundado por seu avô no tradicional bairro Bairu, em Juiz de Fora. Desde a infância, os guias espirituais sopravam o seu destino — ela trabalharia com a caridade, vestiria o branco e usaria sua sensibilidade para acolher o outro.
O tarot, contudo, escolheu caminhos sinuosos para se manifestar. Aos 20 anos, após uma viagem inspiradora ao México, Jéssica mergulhou no aprendizado da joalheria e da ourivesaria. Da moldagem dos metais preciosos, foi naturalmente para o estudo das pedras e, em seguida, para as propriedades terapêuticas das ervas. Há 12 anos, quando a internet ainda não estava saturada de conteúdos esotéricos, o tarot surgiu como o fechamento perfeito desse ciclo. Ganhou o primeiro baralho como presente de Natal de seu pai e passou a estudá-lo de forma autodidata, transformando as cartas em suas interlocutoras silenciosas durante longas viagens de carro pelas estradas da América do Sul.
Jéssica Americano, taróloga do Jazz Tarot/ Foto: Victória Tabet
As leituras começaram despretensiosas, entre cafés da manhã com amigas e conversas nos fundos de sua loja de joias, onde clientes frequentemente choravam ao se depararem com as verdades reveladas pelas cartas. Quando a pandemia de Covid-19 paralisou o planeta, o comércio de adornos perdeu o sentido diante da crise humanitária. Isolada novamente nas terras de Ibitipoca, Jéssica abriu uma padaria artesanal para subsistir, mas passou a se dedicar integralmente ao atendimento oracular on-line. Hoje, o tarot é sua profissão principal. Através da Tenda Mística Jazz Tarô, Jéssica quebrou o dogma de que o misticismo exige o isolamento, levando suas leituras para o cenário vibrante de festas de música eletrônica por cidades na Bahia e no Rio de Janeiro. Para ela, o baralho realiza uma leitura do campo morfogenético do consulente. “A imagem trabalha o inconsciente, é uma linguagem universal”, explica, defendendo que o tarot funciona como um espelho de autorresponsabilidade, onde o futuro é apenas uma projeção maleável das ações do presente.
Essa entrega ao campo alheio, no entanto, guarda seus perigos. Jéssica recorda uma leitura familiar intensa realizada para quatro irmãs, cujo objetivo era compreender o sofrimento do irmão diagnosticado com esquizofrenia. Durante a sessão, a taróloga absorveu as impressões psíquicas do homem. Ao término, viu-se aprisionada em um estado de dormência emocional e ausência de empatia, do qual só conseguiu se libertar após receber uma sessão coletiva de reiki das próprias clientes. “Ali eu senti o quão profundo e sério esse trabalho pode ser”, reflete.
Essa mesma seriedade e respeito à imagem encontram eco nas salas de aula da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde Sophia Boregio divide seu tempo entre o curso de Cinema e Audiovisual e a cartomancia. Aos 21 anos, ela carrega uma história marcada por sincronicidades familiares. Na infância, via a mãe manusear baralhos de oráculos de forma reservada. Na adolescência, descobriu que sua mãe mantinha o costume de se consultar anualmente com um velho cartomante da cidade, chamado Marcos. Aos 19 anos, prestes a mudar de cidade para estudar, Sophia sentou-se à mesa de Marcos pela primeira vez, descobrindo que sua mãe iniciara a mesma jornada espiritual exatamente com a mesma idade. Nos corredores acadêmicos do Instituto de Artes e Design, um colega de curso candomblecista observou o magnetismo de Sophia e proferiu o aviso: ela deveria perseguir o dom de sua linhagem. Em setembro de 2023, Sophia comprou seu primeiro deck tradicional. O aprendizado técnico dos símbolos logo foi preenchido por uma percepção extracorpórea. “Muitas vezes, os significados de cada carta são conectados por uma intuição que parece me sussurrar algo. Uma voz que me revela nomes, situações ou circunstâncias”, afirma.
Sophia Boregio em sua mesa de tiragens/ Foto: Arquivo Pessoal
Para exercer o ofício, Sophia estabelece limites firmes entre o sagrado e o cotidiano. Jamais atende seus clientes virtuais dentro do próprio quarto, buscando sempre um ambiente neutro. Suas leituras são precedidas por um cuidadoso arranjo espacial: estende um lenço sobre a mesa, acende uma vela ou incenso, utilizando a dança da chama e da fumaça como suporte interpretativo, e dispõe cristais e um copo d'água, cuja função é filtrar os resquícios energéticos entre um consulente e outro. Durante a sessão, mantém os cabelos soltos e recusa-se a cruzar braços ou pernas, garantindo o fluxo livre da comunicação. A precisão de seu método se revelou de forma marcante durante um atendimento sobre vida amorosa. Ao alinhar as lâminas dos Enamorados, do Diabo e as sombras da Lua, Sophia decifrou o cenário subjacente de que as cartas denunciavam uma amarração amorosa realizada pelo antigo parceiro da cliente.
Os tarólogos são aqueles que leem e interpretam as cartas trazendo respostas a questionamentos que, muitas vezes, não possuem explicações convencionais. Porém, por trás, ainda existe uma constante associação negativa à prática “advinda do racismo estrutural construído pela colonização”. Em entrevista, duas tarólogas pontuaram que a marginalização e o preconceito que ainda recaem sobre o misticismo possuem raízes históricas e estruturais profundas. Sophia argumenta que o olhar de desconfiança da sociedade ocidental é o reflexo de uma herança colonial e patriarcal que sempre buscou aniquilar saberes ancestrais não cristãos e matriarcais. Já Jéssica acredita que o medo é alimentado por representações culturais que associam práticas espirituais alternativas à loucura, ao engano ou à manipulação. Curiosamente, nenhuma das duas parece interessada em convencer quem duvida. Distante das acusações de charlatanismo, que as profissionais rebatem com serenidade e distanciamento filosófico, a prática do tarot ressurge no ambiente universitário e nas montanhas como uma ferramenta de emancipação e reivindicação de suas ancestralidades. Em um mundo governado pela pressa e pelas telas frias, abrir as cartas torna-se um convite poético para que o ser humano se permita, finalmente, ser enxergado em sua mais profunda particularidade.


Como o tarot encontra caminho na vida das pessoas?
Entre os diversos símbolos impressos em um baralho, o que leva alguém a procurar respostas nas cartas nem sempre é a curiosidade pelo futuro. Para quem se senta diante de uma tiragem, o tarot surge, muitas vezes, como uma tentativa de organizar aquilo que parece desordenado demais para ser compreendido sozinho.
Foi assim para Luiza Barros, estudante de comunicação de 20 anos. Sua primeira experiência aconteceu ainda no ensino médio, quando influenciada por amigas que falavam abertamente sobre espiritualidade resolveu ir a uma consulta. Apesar da curiosidade, a aproximação veio acompanhada de um receio herdado dos estereótipos que cercam a prática. “Existe um estigma muito grande em torno do tarot. Muitas pessoas associam essa prática à magia, a algo negativo ou até mesmo maligno”, relata. Com o tempo, porém, o baralho deixou de representar uma incógnita para se tornar um instrumento de reflexão. Hoje, Luiza recorre às cartas em momentos de conflito interno ou externo. Mais do que respostas prontas, encontra nelas uma forma de traduzir sentimentos difíceis de nomear. “Muitas vezes essas questões ficam como uma névoa, e as cartas me ajudam a enxergá-las com mais clareza”, afirma.
Uma experiência semelhante, embora iniciada em outro contexto, aparece na trajetória da professora de artes Gabriela Alves, de 31 anos. O contato com o tarot começou na adolescência, durante o período de vestibular e das incertezas sobre o futuro. Ansiosa e em busca de respostas, ela encontrou nas cartas uma maneira de aliviar inquietações. A mudança para Juiz de Fora fortaleceu ainda mais esse vínculo. Distante da família e dos referenciais afetivos que a acompanhavam até então, ela passou a recorrer ao tarot com frequência. “Eu me sentia muito sozinha. Então eu recorria bastante às cartas”, relembra.
“Sou uma verdadeira multiplicadora da palavra do tarot”, conta a professora, que frequentemente indica sua taróloga para amigos que atravessam momentos de insegurança. Em algumas ocasiões, chegou a perguntar sobre pessoas próximas durante as leituras e, posteriormente, compartilhar com elas o que havia surgido nas cartas. Segundo ela, muitas dessas interpretações faziam sentido para aqueles sobre quem havia perguntado, o que despertou curiosidade e aproximou novos interessados na prática. Algumas pessoas, inclusive, ficaram impactadas com a precisão das leituras e decidiram buscar o tarot por conta própria. Seu pai foi um desses casos: após ouvir o que havia sido revelado sobre ele em uma consulta, decidiu realizar sua própria tiragem. Para Gabriela, experiências como essas fortaleceram sua confiança nas cartas e contribuíram para que o tarot deixasse de ser apenas uma ferramenta de orientação individual, tornando-se também um assunto compartilhado entre amigos, familiares e pessoas próximas.
Ao falar sobre sua relação com o tarot, Luiza recorda uma consulta realizada após a perda trágica de uma pessoa próxima, quando encontrou no tarot respostas que acredita não conseguir acessar por meios convencionais. Foi, segundo ela, a única leitura que carregou um peso diferente das demais. Apesar das diferenças entre as duas entrevistadas, suas motivações convergem em um mesmo ponto: a busca por clareza. “É mais uma busca por um caminho, por uma orientação”, resume Gabriela.
Embora pertençam a gerações diferentes, as duas consumidoras revelam como o tarot continua encontrando espaço em contextos distintos. Gabriela iniciou sua trajetória em uma época em que as leituras on-line começavam a se popularizar. Mais de uma década depois, mantém o hábito de consultar as cartas, hoje presencialmente, em momentos decisivos da vida. Já Luiza pertence a uma geração que cresceu em um ambiente onde conversas sobre espiritualidade circulam com mais naturalidade entre amigos, redes sociais e comunidades digitais. As diferenças de percurso, no entanto, não anulam uma semelhança fundamental. Em ambas as histórias, o tarot não aparece como uma tentativa de escapar da realidade, mas como uma forma de compreendê-la. Seja através da intuição, dos arquétipos ou da espiritualidade, as cartas continuam oferecendo aquilo que talvez explique sua permanência ao longo dos séculos: um espaço para perguntas que nem sempre encontram respostas imediatas. Enquanto existirem dúvidas sobre o amor, o trabalho, a perda, os caminhos e os recomeços, sempre haverá alguém disposto a embaralhar as cartas e procurar, entre símbolos antigos, algum sentido para o presente.

Tarólogas Sophia Boregio e Jéssica Americano / Fotos: Arquivo Pessoal/Instagram/Instagram/@jazzztarot
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O jogo dos príncipes: da nobreza italiana ao misticismo moderno
O misticismo contemporâneo habita uma linha tênue entre o sagrado e o consumo. Nas vitrines digitais da modernidade, cristais reluzem ao lado de computadores de última geração, incensos queimam em apartamentos de concreto e leituras de sorte são consumidas em vídeos de poucos segundos. No entanto, por trás da fumaça perfumada e da estética instagramável, pulsa uma linguagem de símbolos que desafia os séculos.
Longe de ter nascido de um pacto sombrio ou nas franjas da marginalidade colonial, a cultura figurativa dessas cartas nasceu no coração da Europa ocidental. Conforme resgata a pesquisa histórica publicada pela revista Aventuras na História em 2025, o tarot surgiu na Itália renascentista do século XV, mais precisamente na corte de Milão. Sob o nome de Tarocchi, o baralho nasceu desprovido de qualquer pretensão divinatória: era um jogo de cartas aristocrático, concebido para o entretenimento da nobreza. Seus desenhos originais funcionavam como crônicas visuais da época, espelhando a moral, a política, os personagens da corte e a forte presença da religiosidade católica medieval. A virada de chave que transformou o jogo em instrumento místico ocorreu no crepúsculo do século XVIII. Foi o pastor protestante francês Court de Gébelin quem, fascinado pela iconografia das cartas, propôs uma teoria romântica de que o tarot seria, na verdade, um livro sagrado do Antigo Egito, cujos segredos ocultos teriam sido salvos da destruição através do disfarce de um baralho de jogo. A partir dessa centelha, o tarot de Marselha, impresso por volta de 1500 com fortes traços clericais, passou a ser dissecado por ordens secretas e estudiosos do ocultismo.
Séculos mais tarde, o ocultista Arthur Edward Waite revolucionou a estrutura tradicional ao ilustrar os arcanos menores com cenas do cotidiano humano. Ao abandonar os desenhos puramente numéricos e estáticos, Waite abriu as portas para uma interpretação viva e psicológica. Essa evolução imagética pavimentou o caminho para que, no século XX, o psicanalista Carl Jung encontrasse nas lâminas do tarot a manifestação pura dos arquétipos, imagens primordiais que habitam o inconsciente coletivo da humanidade. O tarot, portanto, consolidou-se como algo que une hermetismo, astrologia, psicologia e a eterna necessidade humana de encontrar ordem no caos.
