COMUNIDADE
Entre a Fé e o Pertencimento: Grupos Criam Redes de Apoio na UFJF
Movimentos religiosos ganham força entre estudantes em busca de acolhimento, estabilidade emocional e sentido durante a vida universitária
Por Emylle Mattos e Jean Almeida

Grupos religiosos formados por estudantes encontram-se no campus em horários acessíveis, como o intervalo do almoço e o fim da tarde. Foto: Reprodução / arquivo pessoal
Em um ambiente marcado pela pressa, pelas provas e pela adaptação à nova rotina, muitos estudantes da UFJF têm encontrado nos grupos religiosos um espaço de respiro e convivência. Para recém-chegados, especialmente os que vieram de outras cidades, esses grupos funcionam como ponto de apoio emocional e comunitário, quase uma “família estendida” dentro do campus.
A estudante de psicologia Heloísa Hermógenes, natural de Santos Dumont (MG), lembra que sua entrada no grupo Católicos Universitários aconteceu quase por acaso: “Conheci por um amigo do meu curso que comentou da missa universitária. Fui uma vez e me senti acolhida imediatamente”, relata. Desde então, ela participa de grupos de oração, missas e encontros semanais que, segundo diz, “transformaram completamente” sua adaptação ao ambiente acadêmico.
“Ali eu respirava. Era o momento de recarregar as energias e lembrar que eu não estava sozinha”, afirma.
Heloísa não é a única que encontrou identificação e acolhimento. Josué Lima, estudante de Engenharia Civil, também destaca a transformação que viveu ao ingressar no grupo cristão Bússula, onde hoje atua como um dos líderes. “Particularmente falando, dá para perceber que eu sou bem tímido e introvertido. Mas, através do encontro, convivendo com os meus amigos e com os meus irmãos, pude perder um pouco dessa timidez, dessa insegurança. A partir deles, acabei amadurecendo como pessoa, como cidadão e como estudante também”, enfatiza.

Grupos como Bússula, Pockets, Semear e ABU também mantêm células em instituições como Universo, IF, Granbery e Estácio, ampliando a rede de convivência cristã entre estudantes. Foto: Arquivo pessoal.
O Bússula integra um conjunto de iniciativas cristãs presentes no campus que, assim como os grupos Pockets, Semear e Aliança Bíblica Universitária (ABU), promove células semanais, momentos de adoração, louvor, estudo bíblico, oração e socialização. Periodicamente, essas quatro células se reúnem em um grande evento conhecido como O Encontro, criado para fortalecer os laços entre jovens que compartilham a mesma vivência de fé.
Fé que une cuidado e diversidade
Entre os responsáveis por estruturar iniciativas católicas no ambiente acadêmico está o professor Arthur Barreto, da própria UFJF. Além de lecionar as disciplinas de Direito Público e Metodologia da Pesquisa, ele atua como coordenador local do movimento Comunhão e Libertação. Para ele, a pastoral universitária cumpre duas funções principais: cuidado e cultura.
“A primeira função é cuidar dos estudantes, ajudá-los a enfrentar os desafios da vida universitária a partir do encontro com Cristo”, afirma. A segunda dimensão, explica, está ligada ao papel cultural da fé dentro da universidade: “O humanismo cristão lembra que a missão da universidade é promover o florescimento humano, não apenas formar profissionais.”

Dinâmicas, reuniões de oração e atividades semanais fortalecem a convivência e criam espaços de escuta entre os estudantes. Foto: Reprodução / arquivo pessoal.
A diversidade dos participantes também chama atenção. Os grupos atraem estudantes de diferentes cursos, idades e perfis socioeconômicos. Nos movimentos cristãos presentes no campus — como o Pockets, o Semear, a Aliança Bíblica Universitária (ABU) e o Bússula — convivem tanto jovens praticantes quanto estudantes afastados da religião e até pessoas sem fé definida.
Esse aspecto é destacado por Lucas Saintclair, líder do Semear: “Hoje até mesmo quem não tem nenhuma fé vai às nossas reuniões para aprender um pouco mais sobre a Bíblia, sobre o Evangelho. E, na minha visão, isso é muito importante, porque quando a gente tem a troca de informações, a troca de pensamentos, a gente consegue construir um repertório que faça sentido. Consequentemente, a gente aprende junto.”
Essa pluralidade reforça o papel dos grupos como espaços de formação humana, não restritos apenas à vivência religiosa, mas abertos ao diálogo, à troca e à convivência entre diferentes trajetórias.
A crença como antídoto à solidão
O padre Robert Teixeira, que conduz atividades da Pastoral Universitária, reforça o papel de acolhimento desses grupos dentro do campus. “O universitário muitas vezes chega sozinho, sem vínculo paroquial, e sente falta de um porto seguro. Os grupos religiosos oferecem exatamente isso: escuta, partilha e novas amizades.”
A unidade e a comunhão também são premissas do grupo ABU. Segundo Sarah Aguiar, líder da organização, o impacto emocional é visível: “Tem gente que se sente muito sozinho aqui na universidade. E, através dos grupos, encontram amigos, encontram outras coisas para fazer, pessoas para estar junto ao longo dessa caminhada universitária, que a gente sabe que não é fácil.”
A rotina no campus confirma essa demanda. O sacerdote relata aumento no número de jovens que buscam confissão, acompanhamento espiritual ou simplesmente uma conversa. Em algumas missas dominicais, na Paróquia Universitária Nossa Senhora de Fátima, próximo à entrada UFJF, os estudantes chegam a representar até 80% dos presentes.
Os temas que emergem nos encontros também refletem o contexto atual: crises existenciais, dúvidas sobre propósito, ansiedade, solidão e pressão acadêmica. Para o padre Robert, a espiritualidade funciona como uma estratégia de enfrentamento: “A fé não é fuga, mas um modo de lidar com os desafios com maior leveza, sabendo que não se está sozinho.”

O padre Robert Teixeira conduz atividades da Pastoral Universitária e acompanha estudantes em momentos de orientação espiritual e acolhimento. Foto: Reprodução / arquivo pessoal.
O movimento de apoio ultrapassa a dimensão religiosa. Heloísa, por exemplo, relata ter sido acolhida em momentos acadêmicos e pessoais difíceis: “Passei por um período depressivo e me afastei. Eles foram atrás de mim. Esse gesto mudou tudo.” Já para Josué, o convívio e os momentos de adoração em grupo também atribuem sentido à sua jornada estudantil e espiritual. “Deus disse que não é bom que o homem esteja só. Por isso, como é importante a gente conviver em família, em comunhão, em unidade. Porque somente assim, convivendo com quem é diferente de mim, eu vivo uma vida plena, com sentido e propósito.”
Quando o credo e a ciência se encontram na experiência estudantil
Um estudo recente publicado na revista Religious Education (2025) reforça a percepção vivida no campus. A pesquisa, conduzida por universidades norte-americanas, indica que conversas sobre espiritualidade e propósito — especialmente mediadas por professores — aumentam significativamente o sentimento de pertencimento entre estudantes, sobretudo aqueles de classes sociais mais baixas.
O fenômeno observado na UFJF não é isolado. Movimentos semelhantes estão presentes em outras instituições, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Goiás (UFG), que também registram crescimento na participação estudantil em grupos religiosos e atividades de formação humana.
Nesse contexto, observa-se um debate recorrente: como conciliar fé e racionalidade no ambiente acadêmico? Para os participantes dos grupos da UFJF, essa suposta tensão é superada na prática cotidiana. Eles defendem que a espiritualidade não se opõe ao conhecimento científico — ao contrário, amplia a compreensão da experiência humana.
Sarah Aguiar, líder da ABU, sintetiza essa perspectiva: “O nosso propósito é viver a nossa fé de maneira racional, integrada à universidade. A gente acredita muito que a fé, a ciência e a razão andam lado a lado.”
A tradição histórica reforça essa convivência. Cientistas e pensadores como Isaac Newton, C. S. Lewis, Gregor Mendel, Fiódor Dostoiévski e Blaise Pascal integraram fé, ciência e reflexão intelectual em suas obras e trajetórias, fortalecendo a ideia de que espiritualidade e racionalidade podem coexistir e se complementar.
Para muitos estudantes cristãos da UFJF, essa integração se traduz em práticas concretas: momentos de estudo bíblico, debates sobre propósito e sentido, ações sociais, participação em eventos culturais e um ambiente de apoio mútuo. Assim, a universidade deixa de ser apenas um espaço de formação técnica e passa a ser também um território de construção comunitária.

O evento O Encontro integra jovens de diferentes grupos cristãos, promovendo momentos de oração, cultura, acolhimento e ações sociais abertas à comunidade. Foto: Reprodução / arquivo pessoal.
A presença crescente dos grupos religiosos na UFJF, somada à tradição histórica que aproxima fé e conhecimento, revela que muitos estudantes cristãos enxergam a espiritualidade como parte legítima de sua formação acadêmica e humana. Para esses jovens, a universidade deixa de ser apenas um espaço de estudo e passa a ser também um ambiente de encontro, convivência e construção de vínculos que acompanham toda a trajetória universitária.
Os integrantes acreditam que essas redes de apoio continuarão influenciando próximas gerações de estudantes. Como expressa Maria Castro, líder do Pockets: “A Bíblia já fala que um planta, um rega, mas é outro que colhe. E nós cremos que as próximas pessoas que virão aqui para a universidade viverão coisas extraordinárias, e elas verão o impacto da fé.”
Assim, entre encontros semanais, missas, ações sociais e espaços de escuta, esses grupos seguem ocupando um lugar de destaque na vida estudantil, oferecendo acolhimento, companhia e sentido em meio aos desafios do período universitário.
