SAÚDE
É pavê, pacumê... ou pra postar?
Quando o calendário vira para novembro, algo curioso acontece: multiplica-se o número de pessoas jurando “segurar a dieta”, as buscas por “corpo ideal para o Ano Novo” disparam e, paradoxalmente, é também quando todo mundo começa a planejar a ceia mais calórica possível. É um ciclo quase ritual: restringe agora, exagera depois. Mas, afinal, por que comemos tanto no fim do ano? E por que ficamos tão obcecados com isso?
Por Maria Eduarda Robusti
Nas academias, a conversa é sempre a mesma: “projeto virada”, “queima tudo antes da ceia”, “vou treinar dobrado porque sábado tem almoço de família”. Entre uma série e outra, as metas parecem mais urgentes do que ao longo do resto do ano.
“A galera chega em dezembro querendo resolver em duas semanas o que ficou acumulado no ano inteiro. É treino dobrado, cardio extra e disputa por quem lidera melhor o Gymrats*. A pressão é real e o fluxo nas academias triplica, não tem nenhum horário vazio.”, conta Jordan Portes, frequentador de academia há oito anos.
Mas, do lado de fora, há um mundo onde o exagero é quase tradição. “É pavê, pacumê?” não é só uma piada de tio: virou símbolo de um comportamento social coletivo. A ceia virou um palco, e a comida, protagonista de uma alegria, que muita gente segura o ano inteiro.

*Gymrats é um aplicativo de registro de exercícios físicos, onde você pode criar grupos de competição, comparando seus resultados com os amigos.
“Eu não faço dieta pré-festa. Se é fim de ano, eu como mesmo. Não fico sofrendo antes pra poder aproveitar depois. Senão perde a graça, mantenho minha alimentação controlada com verduras, frutas e legumes, mas nada me impede de comer um docinho quando eu quero”, diz a empregada doméstica Ângela de Oliveira, que mantém a tradição de preparar uma mesa farta para a família todo fim de ano.
Dietas extremas e um ideal de corpo acelerado pelo calendário
Nutricionistas afirmam que sim, existe um aumento de pessoas tentando “substituições milagrosas” nessa época. Trocar o almoço por shake, cortar carboidrato uma semana antes, dobrar treino para “compensar” aquela rabanada. “É real. Entre novembro e dezembro, eu recebo muitos pedidos de ‘cardápio detox’, ‘tabelas de substituição’ ou dietas que prometem enxugar rápido, como a “low carb”. Mas o corpo não funciona no modo emergência e isso costuma sair caro depois, muitos dos meus pacientes ficam frustrados e bravos comigo quando eu explico que não dá para perder 10kg em um mês de forma saudável”, explica a nutricionista Danieli Vieira.
O problema é que essa pressa pelo “corpo perfeito da virada” pode cobrar um preço alto. Restrição extrema seguida de exagero é terreno fértil para problemas metabólicos, desregulação de fome e até crises de compulsão. “O risco maior é o efeito rebote. A pessoa passa dias se privando e, na ceia, perde o controle. Isso afeta metabolismo, humor e até a relação emocional com a comida e, o pior: a frustração de ver que pode ter engordado de novo tudo aquilo que havia conseguido perder e seguimos nesse ciclo vicioso de todos os anos”, reforça Danieli.
E por que esse ideal importa tanto? Psicólogos apontam que o fim do ano intensifica comparações: praia, fotos, amigos se reencontrando, redes sociais lotadas de “antes e depois”. O corpo vira cartão de visita de um período marcado por exposição e celebração.
“O fim do ano é uma época de avaliação: do corpo, da vida, das conquistas. As pessoas sentem que precisam ‘chegar lá’ antes da virada, como se isso validasse o ciclo que fecham, querendo mostrar o “resultado” de um ano inteiro em um momento. A comparação social aumenta, e a cobrança vai junto”, explica a Dra. Denise Nalon, psicóloga e nutricionista.
Dietas extremas e um ideal de corpo acelerado pelo calendário
Entre os que adotam a estratégia, o discurso é direto: “eu passo dezembro inteiro me segurando para poder comer tranquilo”. Eles sabem que vão exagerar e é justamente por saber que exageram que tentam controlar antes.
“Eu todo ano faço dietas pesadas em novembro e dezembro por pura estratégia. Sei que a ceia da minha família é pesada, sei que vou repetir o prato... então prefiro ‘compensar’ antes. Para mim, funciona, gosto de ficar com o corpo bonito nessa reta final do ano”, admite Elisabeth Rodrigues, adepta da tática há cinco anos.

Imagem: Internet
Já quem não segue esse estilo, olha com estranhamento: “mas para quê tanto esforço, se no fim vai ser a mesma coisa?”
“Eu acho, que isso só aumenta a ansiedade e aquela obsessão de se pesar todo santo dia, jurando que tá mais magro. Prefiro comer bem no dia a dia, fazer atividades físicas e aproveitar as festas sem peso na consciência, tomando uma cervejinha e comendo aquele churrasquinho. Uma noite não destrói nada, acho a Beth um pouco radical, mas cada um com o que acredita”, afirma Pedro Carlos Rodrigues, marido de Elisabeth, que rejeita e não acredita nas “dietas de ocasião”.
Influenciadores do lifestyle também exercem peso nessa narrativa. Em vídeos ensinando a “trocar rabanada por versão fit”, a mensagem é clara: há sempre uma escolha certa e outra errada.
“O problema é que as pessoas acham que precisam ser ‘perfeitas’ nas festas. Eu sempre digo: equilíbrio é liberdade. Dá pra comer o que gosta sem se punir depois e tem aquilo, você tem liberdade para decidir o que fazer, basta você escolher o melhor para a sua saúde”, comenta Izabel Farinelli, influenciadora de lifestyle e atleta.
Comerciantes confirmam: dezembro é o mês do tudo ou nada
Do outro lado do balcão, comerciantes de comida relatam um padrão previsível: quanto mais se fala de dieta, mais se vende comida calórica. O medo de “não ter a receita perfeita” leva pessoas a encomendarem ceias maiores, mais pesadas, mais elaboradas.
“Dezembro é disparado nosso melhor mês. Quanto mais as pessoas falam de dieta, mais compram torta, rabanada, chocotone, caixas elaboradas de doces. Parece até um pensamento de duas vias que divergem entre si”, comenta Raissa Saggioro, dona da confeitaria Brigadelícia.
O fim do ano, afinal, é um momento emocional: férias, reencontros, cansaço acumulado, sensação de recompensa e renovação para um novo ciclo. E nada simboliza recompensa tanto quanto comida.
Água de coco ou cervejinha? Fora dos stories, você tá bem?
A virada do ano virou espetáculo, e o estômago acompanha. A pergunta que resta é: a escolha entre vodka ou água de coco realmente importa? Ou o que mais pesa é a pressão para performar na mesa, no corpo e no feed?
Entre dietas, exageros e tradições, talvez a resposta seja menos sobre o que se come e mais sobre por que comemos assim. O fim do ano pede celebração. Cabe a cada um decidir se ela vem com leveza... ou com mais uma fatia de expectativas.
Para a psicóloga e nutricionista Denise Nalon, esse período é justamente o momento ideal para voltar o olhar para dentro:
“No fim do ano, a cobrança dobra: corpo, metas, aparência, desempenho. Mas é aí que a gente mais precisa cuidar da mente. Quando a cabeça está em paz, o corpo acompanha. É esse cuidado emocional que prepara uma virada mais leve e um ano seguinte melhor.”, finaliza.

