CULTURA
Olha o corre do Hip Hop: educação e transformação de rua
Como o rap, a música, a dança, o graffiti e o conhecimento ampliam a vivência e a experiência da periferia
Por Ana Luiza Matias e Leticia Costa
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Space Hip Hop
Com o poder de construir identidades periféricas e resgatar histórias apagadas, o hip-hop vai além das batalhas de rima. Constituído por quatro elementos fundamentais - o DJ, o MC, o breakdance e o grafite - é no quinto elemento, o conhecimento, que o movimento encontra sua base para fortalecer quem vive nas margens. Desde 2021, o coletivo juizforano Espaço Hip Hop promove a cultura urbana, divulgando artistas de diferentes nichos, como os grafiteiros Dorin e KTN, que também é MC, e a multiartista Nega Preto.
Como explica Giovani Verazzani, poeta e militante do coletivo Vozes da Rua, o quinto elemento perpassa todas as áreas do hip-hop. “Os artistas precisam buscar o conhecimento para desenvolver seus talentos e técnicas, e com isso expandir a própria cultura”, complementa.
As técnicas de mixagem e a evolução da pickup – aparelho projetado para que DJs possam criar novas sonoridades – são resultado direto do conhecimento aplicado à tecnologia. Para Giovani, o quinto elemento funciona como um elo entre os outros quatro — MC (cantor), DJ, b-boy\b-girls (dançarinos) e graffiti (arte de rua) — dando sentido ao movimento como um todo. Em outras palavras, ensina o porquê se luta, o porquê se vive e o porquê se faz arte.
“O Hip Hop não é uma cultura estadunidense. Os Estados Unidos só foram o palco. Mas é uma cultura de pretos jamaicanos, latinos e outros imigrantes pobres, considerados ‘lixo’. Vistos como não-brancos dentro dos Estados Unidos”, afirma o poeta.
Nem todo mundo que tá, é. Nem todo mundo que é, tá.
Giovani cita o DJ Ever Beatz, produtor musical de Juiz de Fora, para destacar que o hip-hop vai além de uma expressão artística, sendo também uma tecnologia cultural capaz de gerar novos gêneros. Segundo ele, subgêneros como o trap e o drill são resultados da ampliação de um gênero maior, o rap. "O Hip Hop não inventa nada, ele reinventa tudo", resume.
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“O quinto elemento do hip-hop é o que agrega quem não canta, não dança, não grafita nem toca, mas se alinha à cultura. Precisamos de jornalistas, médicos, advogados, professores do Hip Hop. Gente de todas as áreas que fortaleça o movimento”, ele comenta. A literatura marginal e a literatura periférica também são parte do hip-hop.
Muitas vezes, quem realmente representa o Hip Hop não é quem incorpora o estilo, mas quem vive os valores do movimento no dia a dia. Nesse sentido, Giovani parafraseia o rapper Emicida: “nem todo mundo que tá, é. E nem todo mundo que é, tá.”
Mulheres na cena
Ayla, ou KTN, como prefere ser chamada, é grafiteira e conta que seu encontro com a cultura Hip Hop começou na infância, influenciada pela família. A artista ainda ressalta que se inseriu na cultura ao longo da vida por meio de saraus e do rap, além de tudo o que absorveu por meio do quinto elemento, o conhecimento. Sua descrição do movimento enfatiza como a educação da rua transformou sua realidade. “É um letramento histórico, é sobre construir a minha própria narrativa, ser agente da minha própria história. É um resgate de identidade para quem vive nas periferias”. Para KTN, o graffiti é uma expressão artística, mas também uma apropriação dos lugares em que suas presenças foram recusadas, ou seja, uma forma de se enxergar nas ruas da cidade.
Mesmo usando o hip hop como um espaço de acolhimento, KTN ainda se sente dominada pelo machismo presente nos ambientes em que passou a fazer parte. Ela afirma que sente o peso da figura masculina na tentativa de validar o papel das mulheres enquanto produtoras na cena. A artista conclui dizendo que a expectativa dos homens em relação ao corre feminino alimenta a misoginia, pois insistem em medir as mulheres pela mesma régua de vivências e experiências que têm, ignorando as particularidades de ser mulher, sobretudo na periferia e na cultura Hip Hop.

A pesquisa intitulada “Funk e rap em números”, conduzido por Leonardo Morel e Vitor Gonzaga dos Santos, publicado na Revista Observatório do Itaú Cultural em 2022 aponta como as mulheres estão inseridas nas vertentes do Hip Hop. Os resultados constatam que 8% dos rappers cadastrados na plataforma digital ONErpm são mulheres, evidenciando uma grande disparidade de gênero no rap brasileiro. O estudo mostra que a audiência mensal de ouvintes das rappers femininas é equivalente a um quarto da audiência masculina, reforçando a ideia de um ambiente acessado por mulheres, porém ainda sobreposto por homens.
G-R-A-F-F-I-T-I

“A palavra grafite não é escrita com T-E, associado ao lápis. Estamos falando do G-R-A-F-F-I-T-I, que significa ocupar um espaço”, pontua o artista e grafiteiro conhecido como Dorin. Uma expressão de cultura, identidade, pertencimento e resistência, tudo isso atribuído a um único fator, o Hip Hop. “Estar aqui é um ganho muito grande para todos que também fizeram acontecer, é o acolhimento cultural e racial. Manos e minas, pretos e pretas, favorecendo o crescimento, mostrando o lado positivo da nossa cultura”, continua.
Wagner Andrade está no Hip Hop há mais de 20 anos, e explica que a cultura foi se transformando ao longo do tempo em termos de materiais específicos para graffiti, políticas públicas de incentivo a produção artística de rappers, MC’s, b-boys e b-girls, aceitação das elites da sociedade em relação às produções periféricas e os novos estilos de criação dos artistas mais jovens, bem como outros critérios de evolução e transformação da cultura.
Em sua perspectiva, hoje o hip hop tem incentivado os artistas em diversos aspectos, seja como forma de expressar cultura e vivências coletivas, seja até mesmo economicamente, já que o próprio graffiti pode se tornar uma fonte de renda extra.
Apesar das mudanças em relação ao acesso, à produção e a veiculação da cultura Hip Hop, Dorin ressalta como alguns marcadores sociais e fenotípicos, como a cor e o lugar de origem, ainda influenciam na escolha de artistas para serem contratados – ou até mesmo um certo descaso com a capacidade de criação dos artistas. “Muita gente conhece meu nome, vê meus trabalhos, mas não vê quem está fazendo, acha muito maneiro, mas quando vai ver, ‘o cara é negro’. Ainda há discriminação”, conclui.
Nega Preto, artista trans e produtora musical, conta que conheceu o hip-hop ainda criança, primeiro pela dança de rua, e que foi se aproximando dos outros elementos aos poucos, como o graffiti e os DJs. Foi na adolescência, porém, que ela passou a atuar ativamente na cultura, se reconhecendo e se entendendo nesse espaço.
Ela explica que entrar para o Hip Hop mudou sua trajetória em diversos sentidos. “No pessoal, me ajudou a me conectar de forma mais profunda com pessoas parecidas comigo. E, profissionalmente, transformou minha vida inteira: me deu perspectiva de viver da arte, de fazer disso meu dia a dia, meu ganha-pão".
Para ela, o movimento reúne o melhor das artes, seja na música, no visual ou na dança, criando um espaço de formação completa. Crescida em Petrópolis, em ambientes majoritariamente brancos e distantes de sua vivência, Nega preto relata que só se sentiu verdadeiramente acolhida no Hip Hop. Apesar dos desafios financeiros e das barreiras políticas, ela acredita que cada conquista dentro da cultura fortalece a caminhada e abre novos espaços para quem vem depois.
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Hip-hop é educação
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Questionado sobre o uso dos cinco elementos como ferramentas de ensino, Giovani defende que o Hip Hop é, por si só, uma instância de letramento que emerge da periferia. Ou seja, uma ‘universidade da rua’ que capta vivências cujo ambiente escolar tradicional ainda não está preparado para acolher. É preciso, afirma Giovani, repensar a educação brasileira a partir da cultura.
De acordo com o Portal Geledés (2013), dedicado a assuntos de gênero e raça, a taxa de “distorção idade-série” — atraso escolar — é de 14,5% no ensino fundamental e 17,8% no ensino médio, atingindo 20,3% entre meninos negros e chegando a 22,9% entre meninas negras no ensino médio. Tais dados são a expressão máxima da incongruência entre o modelo de ensino tradicional e a realidade da maioria das crianças de origem negra e periférica no Brasil.
"Não tem como trabalhar a educação no Brasil com a molecada sem arte e cultura. Especialmente as culturas periféricas, como o funk, o Hip Hop, as culturas ancestrais, de terreiro, de benzedeira. A educação precisa dessas práticas para ampliar, e não substituir, o que entendemos como formação", afirma Giovani.
Para o poeta, os modelos tradicionais de sala de aula, com alunos enfileirados e um formato industrial, não colaboram com a aprendizagem. Ele acredita que o ensino brasileiro deveria se aproximar das rodas, onde a participação dos alunos é ativa. O Hip Hop pode ajudar a resgatar o verdadeiro papel da escola como espaço de conhecimento e despertar nos estudantes uma curiosidade sobre o mundo ao redor.

