COMPORTAMENTO
Qual o peso para estar na moda?
A magreza extrema está de volta às passarelas, e também todas suas problemáticas
Por Cauã Mendes e Paola Rodrigues

LEGENDA + CRÉDITOS
Na era do empoderamento e da diversidade, a alta-costura parece ter dado um passo para trás, ou pelo menos tropeçando nas próprias promessas. Depois de temporadas que celebraram corpos reais, modelos plus size e a tão almejada “representatividade”, o que se vê nas campanhas mais recentes e nos desfiles das grandes semanas de moda é o retorno silencioso (mas poderoso) da magreza extrema.
Com novas roupagens, ora escondida sob o glamour do estilo “clean girl”, ora disfarçada no “old money aesthetic”, o corpo excessivamente magro volta a ser tratado como símbolo de elegância e status. Celebridades como Gisele Bündchen, Bella Hadid e Lily-Rose Depp estampam capas e virais com silhuetas enxutas, enquanto nas redes sociais proliferam vídeos de “o que eu como em um dia” que mais parecem tutoriais de restrição alimentar.
O que deveria ser progresso virou looping: a moda está realmente revivendo um padrão estético ultrapassado ou ele sempre esteve ali, apenas com menos holofotes? O retorno da magreza extrema não acontece por acaso, em um cenário digital dominado por filtros, algoritmos e estéticas virais, corpos magros voltaram a ser amplamente celebrados, muitas vezes de forma velada.
No TikTok, vídeos com a estética “model off-duty” ou “clean girl” acumulam milhões de visualizações, promovendo uma imagem corporal que, apesar de aparentemente saudável, flerta com os antigos ideais de magreza excessiva. Ao mesmo tempo, a nostalgia dos anos 2000, com suas calças de cintura baixa, tops colados e musas como Paris Hilton e Nicole Richie, ressuscita não só o estilo, mas também os padrões corporais da época.
O corpo magro, mais uma vez, é vendido como passaporte para a elegância, a riqueza e o sucesso, enquanto discursos de saúde e bem-estar são usados para mascarar padrões perigosos. Não à toa que, uma pesquisa da National Eating Disorders Association (NEDA), realizada em 2020, revelou que 43% dos adolescentes que consomem conteúdos relacionados ao emagrecimento nas redes sociais demonstram maior risco de desenvolver distúrbios alimentares. O dado acende um alerta: o que parece apenas mais uma trend pode estar alimentando inseguranças reais de forma silenciosa.
O peso oculto das tendências estéticas
Por trás das tendências estéticas e da aparente leveza de um corpo magro, há um peso que não se vê nos espelhos: o impacto direto na saúde física e mental. De acordo com a nutricionista Anne Martins, a busca por um corpo extremamente magro, muitas vezes motivada por padrões promovidos pela moda e amplificados pelas redes sociais, leva a práticas alimentares perigosas que, com o tempo, podem evoluir para distúrbios sérios como anorexia, bulimia, ortorexia e vigorexia. Esses transtornos, geralmente mascarados por dietas da moda ou rotinas de “autocuidado”, desencadeiam uma série de problemas físicos: queda drástica de peso, pressão arterial baixa, hipoglicemia, enfraquecimento de unhas, cabelo e dentes, além de complicações cardiovasculares e articulares.
Anne alerta ainda que a restrição alimentar severa compromete funções vitais do organismo, uma vez que reduz drasticamente a ingestão de macro e micronutrientes (como proteínas, vitaminas e minerais) essenciais para a oxigenação do cérebro, a manutenção da massa muscular e a saúde óssea. O corpo idealizado pelas passarelas pode, na prática, estar à beira do colapso.
Uma pesquisa realizada pela Academia Brasileira de Nutrição (2021) concluiu que dietas muito restritivas e busca pela magreza extrema podem resultar em sérios danos à saúde, como deficiências vitamínicas, perda de massa muscular, problemas cardíacos e osteoporose em longo prazo.
Fonte: Academia Brasileira de Nutrição
Diversidade e magreza no mercado da moda
Apesar de todo o discurso de diversidade e inclusão que circula nas campanhas de grandes marcas, na prática, a pressão estética ainda se faz presente, muitas vezes de forma velada. A modelo Ana Carolina Ribeiro, que atua em Juiz de Fora, relata que, mesmo em um mercado regional, ainda é possível notar a preferência por corpos mais magros, principalmente quando se trata de trabalhos com maior visibilidade. “Acho que se pudessem falar a real, diriam: ‘vamos perder uns quilinhos’”, afirma.
Segundo ela, embora o tratamento com modelos que não se encaixam no padrão magérrimo seja mais cuidadoso hoje, talvez por causa de leis e da repercussão nas redes sociais, o ideal da magreza continua dominando os bastidores. Muitas vezes, ele aparece disfarçado de orientação técnica: poses que favorecem quem é mais magra, mobilidade nas fotos, ou o discurso de que “fica melhor na câmera”. A fala de Ana escancara o que muita gente prefere ignorar: o padrão voltou, sim, mas agora com outra embalagem, mais educada, mais sutil, mas ainda excludente da mesma forma que era antigamente.

LEGENDA + CRÉDITOS
Se a moda dita tendências, as marcas e os influenciadores são, hoje, os grandes propagadores dos corpos ideais. Muitas campanhas continuam escolhendo modelos com corpos magérrimos, mesmo quando o discurso é de representatividade. A diversidade, muitas vezes, aparece apenas como estratégia de marketing, sem promover mudanças reais nos bastidores da indústria. Nas redes sociais, estas personalidades também colaboram para a manutenção desses padrões, nem sempre por mal, mas pela lógica de engajamento e aparência perfeita.
Saúde e estética: O impacto da inclusão e os perigos da imposição de padrões corporais
Por outro lado, alguns nomes vêm abrindo espaço para uma nova estética, mais inclusiva e honesta. Criadoras de conteúdo como Callie Thorpe (@calliethorpe) e Rayza Nicácio (@rayza), por exemplo, têm usado suas plataformas para mostrar corpos reais e dialogar sobre autoestima e saúde sem romantizar a magreza ou a restrição. Além das blogueiras que utilizam da sua influência para dar ênfase no assunto, as pequenas marcas também são as principais responsáveis pela busca da diversidade na moda. De acordo com a organização Fashion Revolution, estima-se que cerca de 30% das novas marcas de moda têm optado por modelos com diferentes tipos de corpo, em contraste com as grandes grifes que ainda mantêm os padrões da magreza extrema. Já segundo um relatório de 2022 da Vogue Business, mais de 50% das marcas de luxo disseram que ainda mantêm um padrão de "corpo muito magro" em suas campanhas publicitárias e desfiles de moda. Grifes como Prada, Chanel e Dior continuam a ser criticadas por não incluir diversidade corporal significativa em seus desfiles.

LEGENDA + CRÉDITOS
A imposição silenciosa de um corpo ideal não afeta apenas a saúde física, ela corrói a autoestima e interfere na construção da identidade, principalmente entre adolescentes e jovens adultos. A comparação constante nas redes sociais, onde vidas perfeitas e corpos esculturais são exibidos em alta definição, alimenta sentimentos de inadequação e fracasso. Distúrbios como a dismorfia corporal, em que a pessoa enxerga um defeito inexistente ou exagerado na própria aparência, têm se tornado cada vez mais comuns, assim como quadros de ansiedade e depressão ligados à autoimagem.
Em um mundo onde a aparência é moeda social, a pressão estética se transforma em uma armadilha diária, que prende principalmente meninas e mulheres em ciclos de insatisfação e autocrítica. Para a psicóloga Patrícia Alves, especialista em saúde da mulher e transtornos alimentares, é essencial filtrar o que consumimos nas redes: “Curar o nosso feed é uma forma de cuidar da mente”, afirma. Ela também reforça a importância de buscar apoio psicológico diante de qualquer sofrimento relacionado ao corpo e à alimentação. “O corpo não é o problema, o problema é o olhar que nos ensinaram a ter sobre ele”, completa. A moda, que poderia libertar, muitas vezes aprisiona, e isso precisa ser debatido com mais urgência, para que não continuemos trocando saúde por estética, nem autoestima por aprovação.
