COMPORTAMENTO
Os desafios, os afetos e a invisibilidades da parentalidade lésbica no Brasil
Relatos de casais formados por duas mães demonstram quanto o amor pode ser plural
Por Taynara Rodrigues e Victória Toledo
No Brasil, onde mais de 50 mil crianças foram registradas por casais homoafetivos nos últimos três anos, a ideia de família vem se transformando. Os dados são da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-BR) e dialogam com o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2011, e com a autorização do casamento homoafetivo em cartório pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2013. Mas nem sempre esse avanço legal é acompanhado pela sociedade ou pelas estruturas institucionais.
Para muitas mães que vivem a dupla maternidade, o maternar é um ato de resistência e luta contra a invisibilidade. Entre processos legais, criação dos filhos e a vivência cotidiana, essas mulheres enfrentam — quase diariamente — obstáculos que vão muito além da rotina parental. São olhares na escola, questionamentos em consultórios médicos, lacunas legais no registro das crianças e até exclusões dentro do próprio núcleo familiar. Apesar disso, é no cotidiano que essas famílias reafirmam sua existência e principalmente, seu afeto.
Nessa reportagem, cinco mulheres compartilham suas histórias com trajetórias diferentes, mas com o duplo maternar em comum. Seus relatos revelam alguns caminhos trilhados, dores enfrentadas e, acima de tudo, a potência de um amor que se constrói a partir do cuidado e da escolha.
Histórias de quem materna em dobro
Entre as mulheres que constroem a dupla maternidade está Laura Gama, 31, ao lado de Camila Lucoveis, 33. Juntas, elas são mães de Lavínia, de 7 anos — que, ao ser perguntada sobre o que acha de ter duas mães, responde com entusiasmo e simplicidade: “Legal!” No começo do namoro, o desejo de ter filhos parecia distante, mas junto a muito diálogo, leituras e parceria, o sonho da maternidade foi crescendo junto com a relação. Três anos e meio depois do início do namoro, decidiram juntas dar o passo que mudaria tudo: engravidar.
Durante a gestação, as duas se prepararam e se fortaleceram individualmente. Ao mesmo tempo, enfrentaram situações difíceis, principalmente o fato de muitas pessoas não falarem com a Laura, já que a gestante foi a Camila. Elas contam que, muitas vezes, as perguntas e informações eram direcionadas só a esta, como se Laura não fosse "nada", mesmo estando presente em todos os momentos.
Camila fala sobre esse apagamento da mãe não gestante, e Laura reforça que, apesar disso, se preparou para saber qual lugar ocuparia. Mesmo que a sociedade não entendesse, ela entenderia por conta de sua preparação. “Me fortaleci muito e acho que isso é essencial se você decide ter um filho dessa forma”, diz.
O relacionamento amoroso terminou quando Lavínia tinha dois anos e três meses. Após a separação, Camila lembra que houve muitos desafios, mas o diálogo e o compromisso com o melhor para a filha ajudou a conciliar as questões. Hoje, Camila e Laura vivem em casas separadas, mas continuam criando a filha lado a lado. Organizam juntas aniversários, participam de reuniões escolares e dividem cada conquista e desafio da rotina com a criança.

LEGENDA + CRÉDITOS
Esse também é o caso de Priscilla Paladin, 35, e Marcella Oliveira, 34. As duas partilham da dupla maternidade da pequena Helena, 6. Marcella conta que um ponto que as duas sempre têm muita atenção é em relação à configuração familiar da criança. “O medo é de que ela possa sofrer algum tipo de preconceito, então sempre conversamos para que ela saiba como agir e se defender se necessário, para que esse tipo de situação não seja um tabu”, desabafa.
Entre o cuidado e o silenciamento
Relatos de mães que vivem essa realidade, apontam que a área da saúde se torna um ambiente hostil para pessoas LGBTQIAPN+, e a dupla maternidade não foge de ter olhares distorcidos. Priscilla comenta sobre ter passado por situações e comentários inconvenientes. “A gente já entra esperando alguma coisa ruim acontecer, e já surgiram perguntas e questionamentos sobre ser barriga de aluguel; o que desqualifica uma das partes ou até mesmo a completa”, conta.
A rotina dessas famílias está permeada por desafios que vão muito além da criação dos filhos. A maternidade, quando vivida entre duas mulheres, raramente segue um roteiro previsível. As trajetórias se desenham de forma singular, atravessadas por afetos, burocracias, violências simbólicas e descobertas.
A autora e palestrante Marcela Tiboni, 43, por exemplo, não foi a mãe gestante dos seus filhos Bernardo e Iolanda, frutos do casamento com Melanie Graille, 36. Marcela também foi alvo de hostilidade nos ambientes hospitalares. Durante a gestação, ela induziu a lactação para amamentar os bebês junto à sua esposa e preparou-se com todo o envolvimento necessário. No entanto, se decepcionou com a política do hospital. “Uma das maiores redes de hospital do país não queria que eu amamentasse os nossos filhos, dizendo que eu não era mãe deles e que já tinha uma mãe, não precisava de outra.” A negativa, sem base científica, se deu exclusivamente pelo fato de ela não ter gerado a criança.

LEGENDA + CRÉDITOS
A amamentação por mulheres não gestantes é possível, embora ainda pouco conhecida e apoiada no Brasil. Existem protocolos para indução da lactação, mas eles raramente são oferecidos ou incentivados, especialmente a casais homoafetivos. A enfermeira e consultora de amamentação Adimeire Toledo, 42, diz que induzir a lactação é benéfico. “A amamentação é muito mais do que nutrição. Ela cria vínculo entre a mãe e o bebê, proporciona segurança, afeto e desenvolvimento emocional para a criança”, explica.
O caso de Marcela expõe como parte das violências enfrentadas por essas mães não está em negar a maternidade em si, mas em restringir os gestos do maternar — como se o corpo fosse o único marcador possível para definir quem é mãe.
A beleza de criar em conjunto
A decisão pela maternidade já carrega em si beleza, coragem e complexidade. Para Marcela Tiboni, essa escolha ganha ainda mais camadas quando vivida por um casal de mulheres. “Acho que a decisão pela maternidade é sempre muito bonita e complexa, ainda mais para um casal de mulheres lésbicas”, reflete.
Mesmo diante de tantos obstáculos, é no cotidiano, no afeto e na construção de vínculos que essas mães encontram sentido e potência. Camila, Laura, Marcella, Priscilla e Marcela compartilham uma certeza: criar os filhos em conjunto é um gesto de amor e um exercício de presença constante. Seja na divisão de tarefas do dia a dia, nas decisões compartilhadas ou nos momentos em que precisam reafirmar — para o mundo e para si mesmas — que são, sim, mães por inteiro.
Priscilla Paladin, por exemplo, encontra nos passeios com a filha Helena — em trilhas, festas, concertos, teatro ou shows — os momentos mais marcantes da sua maternidade. “Mostrar coisas legais do mundo para ela são o que me dão mais prazer”, diz, ressaltando que apresentar novas experiências à filha é um gesto de conexão, especialmente em meio ao desgaste da rotina.
Criar filhos em um modelo de família ainda pouco reconhecido socialmente exige um tipo de força que vai além da resistência: envolve intencionalidade. Nada ali é feito por inércia. Desde o planejamento até os registros, os gestos mais simples, como comparecer a uma reunião escolar ou preencher um formulário médico, muitas vezes carregam uma camada de enfrentamento invisível para a maioria dos pais heterossexuais.
Ainda assim, essas mães se recusam a viver apenas no papel da superação. Suas histórias mostram também o riso, a leveza, o orgulho. É comum que relatem como seus filhos e filhas crescem cercados de escuta, presença e referência. Crianças que aprendem cedo sobre respeito, empatia e diversidade não apenas convivem com o afeto — elas o reconhecem e o retribuem com naturalidade.

LEGENDA + CRÉDITOS
É o caso de Lavínia, filha de Camila e Laura. Quando questionada sobre ter duas mães, responde com a leveza de quem cresceu rodeada de afeto: para ela, é simplesmente algo comum, natural, do jeito que deveria ser. Na simplicidade da resposta, mora a força de quem vive, desde cedo, o amor em sua forma mais genuína.
Enquanto o mundo ainda busca se ajustar a essas novas configurações familiares, elas seguem existindo — e insistindo — com coragem. O amor que nasce entre duas mulheres e uma criança não precisa de permissão para ser válido. Ele já é. E onde há amor, há maternidade.
