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CULTURA

Melodias do espírito: como a música afeta mente, alma e sociedade

Nas mais diversas existências, a música revela a essência do ser humano.

Por Lucas Marques e Matheus Pigozzo

Diferente da língua portuguesa, muitos idiomas entendem "espírito" como um termo bastante amplo. Com ele, designa-se a mente, a alma, a individualidade... Não seria possível entender o impacto da música no "espírito" humano sem antes ampliarmos o que entendemos com essa palavra. Isso significa que a música é um atestado de nossa existência no mundo: explica a mente, a alma, a sociedade, a história etc. Mas além do impacto metafísico, também é causa impacto físico direto no ser humano.

A influência da música na saúde mental e no dia a dia

Poucas experiências são tão universais quanto ouvir música. Seja para comemorar, relaxar, superar momentos difíceis ou simplesmente acompanhar a rotina, a música faz parte da vida das pessoas e desperta sentimentos que nos parecem difíceis de explicar. Mas a ciência tem mostrado que essa conexão vai muito além do gosto pessoal: a música é capaz de provocar alterações no cérebro, influenciar emoções e até contribuir para tratamentos terapêuticos.

Muitos estudos recentes na área da neurociência ressaltam a relação entre a música e o cérebro humano. Um artigo científico publicado em 2012 pelo Departamento de Psicologia da Universidade da Pensilvânia, intitulado Music, Neuroscience and the Psychology of Well-Being aponta que a prática e o contato frequente com a música podem provocar mudanças estruturais e funcionais no cérebro. Os dados apontam que músicos apresentam diferenças em áreas ligadas à memória, linguagem, coordenação motora e processamento auditivo. Além disso, o treinamento musical pode favorecer habilidades cognitivas relacionadas à aprendizagem e à comunicação.

Para o psicólogo e músico Delorme Augusto, a forte ligação emocional entre pessoas e música acontece devido a uma combinação de fatores biológicos, cognitivos e sociais. Segundo ele, ao ouvir uma música, áreas cerebrais relacionadas ao prazer, às emoções e ao sistema de recompensa são ativadas, promovendo a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de bem-estar. “A música não expressa apenas as emoções que estão dentro de nós. Ela também é capaz de criar novas sensações, novas conexões e novos estados emocionais”, explica Delorme. Essa capacidade torna a música uma ferramenta importante não apenas no cotidiano, mas também em contextos terapêuticos.

Em um cenário marcado pelo aumento de quadros de ansiedade, estresse e depressão, a música tem sido utilizada como um recurso para promover saúde mental. Delorme destaca que ouvir música pode auxiliar na redução da ansiedade, melhorar o humor e facilitar a expressão dos sentimentos. “Muitas vezes, as pessoas encontram na música uma forma de comunicar emoções que não conseguem colocar em palavras”, afirma. Segundo o psicólogo, esse potencial não é exclusivo da música. Outras manifestações artísticas, como a escrita e a pintura, também ajudam indivíduos com dificuldades de comunicação a expressarem emoções e experiências pessoais, mas, ainda assim, a música se destaca pela capacidade de gerar identificação imediata e promover conexões emocionais profundas.

A musicoterapia

Essa relação entre música e bem-estar também é estudada na musicoterapia, área que utiliza experiências musicais de forma planejada para alcançar objetivos terapêuticos. A musicoterapeuta Camila Nascimento explica que a prática vai muito além de simplesmente escutar música. “A musicoterapia utiliza elementos como ritmo, melodia e harmonia como ferramentas terapêuticas. Cada sessão é planejada de acordo com as necessidades específicas do paciente, buscando resultados na cognição, na regulação emocional e na coordenação motora”, explica.

De acordo com Camila, os benefícios podem incluir melhora da comunicação, desenvolvimento de habilidades cognitivas e motoras, redução do estresse e fortalecimento do bem-estar emocional. Ela ressalta que a música atua como meio terapêutico, e não como objetivo final. A profissional trabalha com desenvolvimento infantil e observa resultados positivos em diferentes contextos. “Movimentos corporais espontâneos, relaxamento muscular e coordenação rítmica são respostas naturais à experiência musical. Quando essas respostas são trabalhadas de forma estruturada, podem contribuir significativamente para o desenvolvimento do paciente”, afirma. Para Camila, é importante que a população compreenda a seriedade da musicoterapia enquanto profissão da área da saúde. Ela lembra que a atividade foi regulamentada pela Lei Federal no 14.842/2024, que estabelece a formação específica necessária para o exercício profissional.

Apesar de não trabalhar com a musicoterapia, Delorme também observa os efeitos da música em sua prática clínica. Segundo ele, pacientes frequentemente utilizam canções para identificar sentimentos, compreender melhor suas emoções e desenvolver estratégias de autorregulação emocional. Em alguns casos, músicas são utilizadas como ponto de partida para reflexões durante as sessões, facilitando a comunicação e o autoconhecimento. Além dos benefícios emocionais, pesquisas — como o próprio artigo da Universidade da Pensilvânia citado anteriormente — também indicam que a música pode influenciar funções relacionadas à linguagem e à memória. Estudos mostram que pessoas com formação musical tendem a apresentar melhor desempenho em tarefas de discriminação auditiva e processamento linguístico, reforçando a ideia de que música e cérebro mantêm uma relação profunda e complexa.

Entre ciência, arte e saúde, a música continua demonstrando que seu impacto vai muito além do entretenimento. Seja despertando memórias, ajudando na expressão de sentimentos ou contribuindo para processos terapêuticos, ela confirma seu papel como uma poderosa ferramenta de conexão humana e transformação emocional.

Música e espiritualidade

Como observado, a influência dos sons nas emoções humanas é algo peculiar. Para entender isso, foram desenvolvidas muitas explicações, tanto físicas como metafísicas, que remetem a períodos da Antiguidade, desenvolvidas desde a Grécia Antiga, sobre como a combinação dos sons afeta a emoção, o comportamento, e até mesmo o caráter humano. Hoje em dia, é cientificamente comprovado que o modo com que a música e os elementos da linguagem musical — melodia, harmonia, ritmo etc. — se combinam influencia tremendamente as emoções e o próprio comportamento. As festas são um dos principais exemplos de como a presença da música influencia o ser humano. Ainda durante a Antiguidade, os gregos tinham rituais e festas em homenagem ao deus Dioniso — as festas dionisíacas —, sendo o mais famoso os Mistérios Órficos. O filósofo Friedrich Nietzsche relembra, no livro O nascimento da tragédia, o papel primário que a música exercia na própria tragédia grega, sendo, de certo modo, o que garantia o caráter “trágico” ao teatro antigo.

Segundo Rodolfo Valverde, professor de História e Apreciação Musicais na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a expressão artística é fundamental para representar uma necessidade muito peculiar do espírito humano, que o professor chama de “ânsia pela transcendência”, isto é, a busca pelo que não é visível e nem tangível. A música, por operar com o som, é capaz de adicionar ainda mais significados e recursos à espiritualidade humana, e esta, portanto, pode ser lida através da música de determinada sociedade. Em outras palavras, a música é capaz de expressar uma certa faceta humana que não pode ser explicada, justamente porque não é tangível.

O professor ressalta que toda forma de sociedade conhecida até hoje procurou expressar o lado metafísico do espírito humano através da música, mas a maneira como os códigos do discurso musical se organizam em função dessa espiritualidade (isto é, o significado colocado nos sons) é que se diferenciam, evidenciando a questão cultural.

A música como expressão de um tempo

Toda expressão artística reflete uma parte de seu tempo — tanto social, econômica e culturalmente —, o que implica em uma produção e interpretação da arte completamente diferentes. A música tradicional do extremo oriente, por exemplo, possui, para os ouvidos ocidentais, um significado totalmente distinto de sua “intenção original”. Mas o professor Rodolfo explica que existe um elemento essencial na música que, independente da forma como a arte é expressa, pode ser captado e compreendido por qualquer pessoa, de qualquer cultura ou civilização. Por vivermos há mais de dois séculos em uma sociedade pautada pelo comércio, as artes se transformam também em objeto de consumo — perspectiva muito evidente, por exemplo, no pensamento do filósofo alemão Theodor W. Adorno e de outros pensadores da tradição crítica. Estes pensadores destacam que esse movimento provoca um esvaziamento da obra de arte — isto é, a obra não mais como obra, mas como mercadoria. O que a arte se transformou a partir do século XIX, mas especialmente no século XX, demonstra a essência das relações e do pensamento humano ocidental neste tempo, e a hegemonia do pensamento ocidental tornou este comportamento hegemônico em quase todo o mundo. A obra de arte tornou-se apenas um objeto reciclado em consumo constante.

A arte — e a música em particular —, sendo a grande expressão do interior do ser humano, reflete absolutamente tudo. Organização social, caráter, objetivos, significados da existência… através do discurso musical é possível ler completamente uma sociedade e ter uma compreensão absoluta da condição humana num determinado tempo e espaço. As próprias condições de produção da música são completamente diferentes e é também expressa na música: por exemplo, a música do período romântico (século XIX) surge da necessidade burguesa de expressão individual, em contraste com as necessidades aristocráticas dos séculos anteriores, que eram completamente outras e que consequentemente produziam manifestações musicais distintas.

Nos tempos atuais, a música (que, como mencionado anteriormente, se tornou mercadoria) adquire um poder de manipulação muito grande, que nunca encontrou em épocas passadas. Isso significa que o pensamento acrítico de nosso tempo também é manifestado na música, que se torna objeto de dominação quando se quer que algo seja consumido e pensado. O professor Rodolfo cita a música pop americana como principal exemplo de uso da música como dominação do pensamento. Esse gênero musical reflete o poderio econômico do império estético dos Estados Unidos em um momento onde a tecnologia serve como elemento de integração mundial. O brasileiro hoje — assim como quase todos os outros povos do mundo — tem seu pensamento muito mais moldado pela pop music do que qualquer outra tradição, incluindo a música propriamente brasileira em suas origens; e até mesmo a música que é produzida hoje no Brasil é moldada pela música americana.

Para entender melhor a música como expressão de um determinado tempo, separamos algumas obras de períodos distintos, em gêneros estimados em suas respectivas épocas, para uma breve comparação entre a estética musical e, consequentemente, do pensamento, de cada período. A primeira, obra que representa o período clássico, no século XVIII, é a Sinfonia nº 40 de Mozart. Essa peça contém tudo o que o período valoriza: equilíbrio, clareza, ordem, leveza. Todas essas características são evidentes também na estrutura da obra, que coloca a forma acima do conteúdo. O século XVIII, marcado pelos excessos da aristocracia (que, por sua vez, são completamente distintos dos excessos burgueses), é perfeitamente refletido nesta sinfonia.

A segunda, Tristão e Isolda (Tristan und Isolde), do compositor alemão Richard Wagner, representa aqui o período romântico. A obra é uma ópera em três atos, com pouco mais de quatro horas de duração. Por sua longa extensão, apresentamos a seguir o prelúdio e a ária final na performance da West-Eastern Divan Orchestra, regida por Daniel Barenboim. Nesses trechos, fica evidente o caráter expressivo e intimista incorporados pela música. O romantismo, inaugurado com a ascensão da burguesia ao poder entre o final do século XVIII e o início do século XIX, apresenta um notório contraste com a música do período clássico. A natureza arrebatadora da composição de Wagner ilustra um momento peculiar da história, onde a aristocracia se tornava cada vez mais obsoleta e os valores clássicos, como a ordem e a racionalidade, se tornaram ultrapassados. No século XIX, observamos o gradual crescimento do individualismo burguês. Os excessos desta classe, em contraste com os da classe dominante do século XVIII, a aristocracia, se caracterizam por sua forma mais anárquica e pelo desprezo pela forma, priorizando sempre o conteúdo.

Para o terceiro exemplo, não nos limitaremos a uma única obra: basta abrir seu aplicativo de streaming e colocar sua música pop favorita para tocar. A música da segunda metade do século XX e do século XXI é marcada essencialmente pela cultura de massa e pela globalização. Com isso, valores fundamentais de nosso tempo — como a superficialidade, a estima da aparência e a democracia do conhecimento — tornam-se muito evidentes em nossa música, e com certeza se apresentarão na escolhida. Com isso, percebe-se que a arte dos sons não é apenas barulho agradável. Também não é apenas arte. A música é filosofia, vitalidade, pensamento e verdade. Tudo que palavras não podem revelar em um tempo e espaço, a música revela em sua eternidade.

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