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COMPORTAMENTO

Não Monogamia: repensando o amor fora do tradicional

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Por Marcelly Lima e Pietra Mansur

“Não teve um momento exato em que eu decidi. Foi mais um processo. E quando percebi, era para mim.” É assim que Letícia Souza, 20, resume o início do caminho que a levou a recusar a exclusividade amorosa e se encontrar na comunidade que questiona a ideia de que amor verdadeiro precisa ser único e fechado. Mas quem decide viver a não monogamia ainda enfrenta piadas, desinformação e um moralismo que tem bênção da cultura dominante (e até da lei). 


A não monogamia é, em essência, uma forma de organização afetiva e sexual baseada em consentimento, acordos e diálogos. Para Filipe Starling, psicólogo especializado em ética relacional, sexólogo e autor do livro “Não-Monogamia Responsável”, é fundamental separar o conceito de traição da prática não monogâmica: “A traição é a quebra de um acordo. A não monogamia é justamente o contrário: acordar antes, negociar, combinar, conversar”. 


Entre as formas de afeto que não se pautam na exclusividade entre somente duas pessoas, as mais conhecidas são: a não monogamia, quando há vínculos amorosos múltiplos; o relacionamento aberto, geralmente voltado a encontros sexuais fora da relação principal; e a anarquia relacional, que recusa hierarquias entre amizades e afetos. Letícia conta que o primeiro contato com a não monogamia foi por curiosidade na internet: “Eu comecei seguindo um cara que falava de bissexualidade. Um dia ele postou algo sobre não monogamia, eu fui atrás, comecei a ler e fui vendo que aquilo me cabia”. Ela não se recorda de um momento específico de virada de chave, já que começou a se interessar por esse mundo durante a pandemia. “Em 2021, não é como se eu conhecesse pessoas novas, nem nada, eu não saía de casa.” Ela ficou meses apenas lendo, refletindo, amadurecendo a ideia. Quando o mundo reabriu, a decisão já estava tomada: “Eu entrei na pandemia sem nem saber o que era e, quando acabou, saí falando: ‘Isso é pra mim’. E aí eu comecei a vivenciar, tentar pôr na prática o que eu refleti e pensei tanto sobre.”

Por que a não monogamia ainda é tabu?

Para Filipe, um dos principais motivos de a não monogamia ainda ser tabu está na força de mitos que se repetem de geração em geração. “São várias crenças que as pessoas têm, vários julgamentos que elas fazem. Um dos mais comuns é: essa pessoa está num relacionamento não monogâmico porque não ama de verdade. Porque se ela amasse de verdade, nunca iria compartilhar essa pessoa com outra. É quase como se a pessoa fosse um carro, ‘é meu carro, não vou te emprestar, ninguém vai andar no meu carro, só eu dirijo’. Tem uma coisa de propriedade”, Filipe acrescenta. Já Letícia reforça que o tabu em torno deste outro tipo de relação também se alimenta de piadas e confusões intencionais. “Recentemente, a coisa começou a ficar mais falada na internet, mas de uma forma muito superficial. Alguém ouviu alguém falando sobre a não monogamia e resolveu fazer uma piada. E aí o pessoal meio que a conhece pela piada que os caras monogâmicos fazem.” Para ela, isso espalha confusões básicas. “As pessoas misturam não monogamia com poligamia, com relacionamento aberto, e acham que é a mesma coisa. E não é.” Outra confusão frequente é reduzir tudo à promiscuidade: “Acham que o objetivo é ficar com todas as pessoas do mundo. Mesmo que você explique, a pessoa não bota fé.” 
 

Obviamente essa descrença se estende também para o mundo jurídico: o Direito ainda é totalmente estruturado para relações monogâmicas, especialmente no Brasil. Sendo assim, apenas relações entre duas pessoas são reconhecidas para fins legais. Em temas como separação de bens, guarda de filhos e herança, os vínculos afetivos múltiplos simplesmente não existem, o que revela um descompasso entre as estruturas legais e as múltiplas formas de afeto. No entanto, de acordo com o advogado Eduardo Lima, há exceções: alguns tribunais já reconheceram uniões poliafetivas como entidades familiares. “No Brasil, já houve casos de tribunais reconhecerem união estável entre trisais, porém, isso não acontece com frequência”, diz Eduardo. “Quando o tribunal vai julgar esses casos, eles usam princípios de analogia, ou seja, se o casal provar que a relação é contínua, duradoura e com o objetivo de constituir família, talvez o juiz libere a união.” afirma o advogado.

A Sociedade e o Sistema: Quem ganha com a Monogamia?

No livro Anarquia Relacional, de Rafael Lauro, escritor formado em filosofia pela Universidade de São Paulo, o termo “monogamia” surge como uma análise antropológica: “O termo vem para explicar como, nesta sociedade,  se organizam os casais. São em pares ou não?” ele pergunta. Dessa forma, é possível perceber que, ao longo da história, a monogamia não foi sempre uma norma estabelecida como absoluta, mas sim uma construção histórica que surgiu e se consolidou por razões sociais, econômicas, políticas e religiosas. Para Letícia, a monogamia não é instintiva para o ser humano: “isso foi algo forçado por meio da colonização, do cristianismo. Forçar aquilo porque na Bíblia é assim e pronto.” ela diz. “O modelo monogâmico na sociedade, composto por pai, mãe e filhos, apenas serve para favorecer o consumo individualizado e a produção de herdeiros (ou de mão de obra barata).”, conclui a jovem. 
 

Em um dos episódios do podcast "Imposturas Filosóficas", Rafael Lauro traz a reflexão de liberdade e a complexidade que isso tem no âmbito do amor: “o objeto você desconsidera a liberdade. No amor não é assim, envolve lidar com o outro que não é você mesmo, e que você não pode submeter aos seus caprichos” afirma Rafael. Portanto, é necessário entender que o outro não é propriedade, amor não é um serviço, uma relação intensa não se traduz em números, quantidades e comparações.
 

Para o psicólogo Filipe, a não monogamia vai além de um arranjo íntimo: “No fundo, você está questionando os fundamentos da sociedade: patriarcado, machismo estrutural. Tem um componente feminista, anticapitalista.” Letícia concorda e amplia a visão, afirmando que sua escolha é um recado direto ao modelo dominante: “Desde que eu comecei a entender sobre não monogamia, eu via que a monogamia é mais uma forma de opressão dentro do capitalismo.” Para ela, dizer não à exclusividade é dizer não às estruturas que se beneficiam do controle: “A monogamia está para privilegiar, para servir aos homens brancos, ricos. E a não monogamia é olhar para tudo isso e rejeitar. Se alguém não vê a não monogamia como algo político, a gente não está falando da mesma coisa.”, finaliza Letícia

O que a não monogamia  propõe (mesmo para os monogâmicos)?

“Eu vejo relacionamentos não monogâmicos como uma traição consentida”, “Acho que eu não estou evoluído espiritualmente o suficiente pra isso”, “Quem quiser fazer que faça, longe de mim”. Esses trechos foram tirados de uma pesquisa de campo na Universidade Federal de Juiz de Fora, feita pelo jornal, onde 90% dos entrevistados não eram a  favor da não monogamia, 5% não tinham opinião formada e 5% não sabiam o que era esse termo. Para Letícia, esse descaso pelo assunto se dá pela falta de entendimento, mas muito pela falta de vontade de entender. “A impressão que eu tenho é os monogâmicos se sentem ameaçados, eles não querem aprender sobre, não quer que seus parceiros aprendam, porque para elas aquilo vai ameaçar o modelo de relacionamento delas de alguma forma.” Ela continua: “Eu gosto de falar sobre não monogamia não porque quero transformar os monogâmicos, é para tentar criar uma relação de convivência e apagar essa imagem de que não monogâmicos são bagunça. Pra mim, a informação gera compreensão”Então não, a não monogamia não é rival da monogamia, são formas diferentes de enxergar e de conviver no mundo; mesmo assim, não precisam estar distantes em suas reflexões. A forma como é enxergado o conceito de posse, de ciúme e propriedade dentro de relacionamentos não monogâmicos é um ótimo modo de começar a trabalhar em relacionamentos mono. O psicólogo Filipe nos traz um pouco dessa reflexão, ao abordar sobre como o ciúme é algo a ser lidado com nós mesmo e não com o outro: “na não monogamia, a gente não lida com ciúme controlando a outra pessoa, cerceando a liberdade dela. A gente leva pra terapia, tenta trabalhar.” conclui Filipe. Em Anarquia relacional, Rafael Lauro continua e amplia a reflexão: “Ao resgatar o amor da noção de propriedade, estamos inventando um modo micropolítico de nos relacionar. Ao pensar um conceito de amor como alegria-mútua, parando de tratar pessoas como produto, estamos buscando uma fundação afetiva mais interessante para as nossas vidas em sociedade.” 

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