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EDUCAÇÃO

O espectro do pertencimento:

A Revolução da Inclusão na UFJF

Por João Deiss e Júlia Eymard

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Simone Aparecida Souza Teodoro acompanha diariamente a filha, Samiris de Souza Teodoro, estudante de Artes Visuais da UFJF, em sua trajetória acadêmica. Foto: Arquivo Pessoal.

Desde a criação da Lei Brasileira de Inclusão (2015) e a Lei de Cotas (2016) o número de estudantes PCDs em universidades públicas teve um salto significativo, aumentando de aproximadamente 10,400 em 2013 para quase 40.000 em 2023 segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Entre o crescimento exponencial de matrículas e o desafio da acessibilidade plena, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) consolida-se como uma referência de políticas para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Por meio do olhar do Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI) e da história de Samiris e Simone, Estudante com TEA e sua Mãe que todo dia a acompanha para a faculdade, a instituição redefine o que significa ensinar e aprender na diversidade.

 

A jornada universitária, marcada por leis, adaptações pedagógicas e o apoio incondicional da família, revela que a inclusão não é um destino final, mas um processo contínuo de escuta e transformação da estrutura acadêmica. Da porta de entrada no Programa de Ingresso Seletivo Misto (PISM) ou no Sistema de Seleção Unificada (SISU) ao sonho da formatura, acompanhe os bastidores de um sistema que busca garantir que nenhum estudante seja invisível.

O Ingresso: O Primeiro Degrau da Autonomia

A entrada de Samiris de Souza Teodoro, hoje com 23 anos, na graduação em Artes Visuais da UFJF não foi apenas uma conquista individual, mas o resultado de um planejamento familiar e institucional rigoroso. Após concluir o ensino médio em plena pandemia, o diagnóstico de autismo não foi uma barreira, mas um norteador. "Ela me disse na mesma hora: Quero fazer cursinho", relembra a mãe, Simone Aparecida Souza Teodoro. O caminho passou pelo cursinho popular da prefeitura e por um processo seletivo que, na UFJF, é acompanhado de perto por especialistas em acessibilidade.

 

Na UFJF, o ingresso de pessoas com deficiência (PCD), incluindo TEA, ocorre principalmente por duas frentes: o SISU e o PISM. Enquanto o SISU é nacional, o PISM permite uma intervenção direta da instituição. Aline Garcia Rodero Takahira, coordenadora do NAI e professora de Letras Libras, explica que o trabalho começa meses antes das provas. "Desde agora, a gente já está em contato com a Coordenação Geral de Processos Seletivos (Copese) prestando auxílio nas medidas de acessibilidade que são necessárias", revela Aline.

 

A legislação brasileira é o alicerce desse acolhimento. A Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA (Lei nº 12.764/2012) e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) garantem direitos fundamentais que se materializam no ato do vestibular. Para o estudante autista, durante as provas do PISM, isso significa o direito a uma hora a mais de tempo (dilatação), salas separadas com menos estímulos sensoriais e o acompanhamento de ledores e transcritores especializados. "As pessoas com TEA podem ocasionalmente desregular no dia da prova. Por isso, temos salas já organizadas para caso elas precisem se retirar e ficar ali até se autorregularem novamente", conta Aline.

“O ingresso na Educação Superior é repleto de desafios em relação ao processo de transição e adaptação ao âmbito acadêmico, especialmente daqueles com deficiência."

— Aline Takahira, coordenadora do Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI)

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Aline Garcia Rodero Takahira, professora da Faculdade de Letras da UFJF e coordenadora do Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI). Foto: Arquivo Pessoal.

Samiris encontrou sua vocação quase por acaso, influenciada por seu hiperfoco na cantora cristã Eyshila. Após cogitar direito e psicologia para seguir os passos da ídola, aceitou a sugestão da mãe para cursar artes visuais, enxergando ali uma oportunidade de profissão autônoma. Esse tipo de transição é um dos momentos mais críticos apontados pela literatura acadêmica. Segundo artigo publicado pelas psicólogas Camila Santos e Ketlin Pedro em 2024, o ingresso no ensino superior é repleto de desafios de adaptação, especialmente para quem possui deficiências, exigindo uma readequação dos modelos tradicionais de ensino.

 

No ato da matrícula, a UFJF utiliza um sistema de autodeclaração. Ao clicar na opção de pessoa com deficiência, um "pop-up" informa ao estudante sobre a existência do NAI. No entanto, a invisibilidade ainda é um fantasma. Muitos alunos, por receio de estigmas, optam por não tornar público o diagnóstico inicialmente, o que dificulta o mapeamento prévio das necessidades. Afinal, a UFJF não oferece apoio a todos que se autodeclaram PCD, somente aos que procuram pelo NAI em qualquer momento do curso.

A Permanência: Construindo Pontes no Cotidiano Acadêmico

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Simone Teodoro acompanha diariamente a filha, Samiris Teodoro, em sua rotina acadêmica na UFJF. Foto: Arquivo Pessoal.

Uma vez dentro dos muros da universidade, o desafio deixa de ser o conteúdo da prova e passa a ser o manejo da rotina. A UFJF vive o que Aline Takahira chama de "boom" de atendimentos. Em apenas dois anos, o número de alunos acompanhados pelo NAI saltou de 40 em 2022 para mais de 170 em 2024. Esse aumento reflete não apenas o avanço das leis, mas o alargamento dos critérios diagnósticos de autismo no Brasil.

 

Para a estudante Samiris, a permanência é um exercício diário de superação. Simone, sua mãe, é presença constante no campus, monitorando desde o trajeto de ônibus — dificultado pelas chuvas recentes em Juiz de Fora — até a segurança física da filha em sala de aula. No curso de Artes Visuais, Samiris utiliza objetos cortantes em certas disciplinas, o que exigiu do NAI a disponibilização de cuidadoras para auxílio no manuseio seguro desses materiais.

 

O suporte do NAI é multifuncional. Após o ingresso, o aluno passa por um acolhimento pedagógico: uma entrevista detalhada para entender suas potencialidades e barreiras. "A gente conversa com a pessoa sobre como que é o desenvolvimento dela no dia a dia, o que funcionou e o que não funcionou na educação básica", explica Aline. A partir daí, são emitidas orientações aos professores para flexibilizar prazos e adaptar conteúdos e avaliações. "O aluno vai fazer a mesma prova, terá o mesmo conteúdo, mas adaptado de uma forma diferente. Às vezes o problema é a socialização: ele não consegue apresentar na frente da sala, então avaliamos apenas para o professor."

"O NAI não é o dono da acessibilidade e da inclusão. Não é o único responsável. Todos nós somos agentes responsáveis pela acessibilidade e inclusão da pessoa com deficiência."

— Aline Takahira, coordenadora do NAI

A questão da socialização é, talvez, o ponto mais sensível. A literatura indica que prejuízos na comunicação e padrões repetitivos de comportamento são marcas do TEA. Na UFJF, isso é combatido com estratégias práticas. O Guia de Orientações para Acessibilidade da instituição recomenda que docentes evitem metáforas, ambiguidade e mudanças bruscas de rotina, prezando pela previsibilidade. Outra inovação é a implementação de "salas calmas" em locais como a Biblioteca Central, oferecendo um refúgio com poucos estímulos visuais e sonoros para momentos de crise sensorial.

 

Um caso de sucesso dentro da UFJF é a Comissão de Apoio à Inclusão na Matemática (COMAI). Iniciativa dos próprios docentes do departamento, a comissão oferece monitoria especializada, onde o monitor recebe treinamento diferenciado para atender um aluno de forma individualizada, fugindo dos plantões coletivos que podem ser caóticos para estudantes autistas.

Perspectivas Futuras: O Amanhã da Inclusão

Simone relata com orgulho que Samiris já começa a colher os frutos dessa estrutura. "Os professores dizem que ela está indo bem, os colegas dizem que ela pergunta as coisas em sala de aula", relata a mãe, emocionada por ver a filha ocupando um espaço que "vai calar a boca de muitas pessoas que não acreditavam nela".

 

O horizonte da inclusão na UFJF aponta para uma profissionalização ainda maior. Aline Takahira destaca que o NAI está em processo de expansão, aguardando reformas físicas e verbas do Ministério da Educação (MEC) para a aquisição de tecnologias assistivas de ponta, como impressoras Braille e lupas eletrônicas. Mais do que equipamentos, a meta é a mudança de mentalidade. "O NAI não é o dono da acessibilidade. Todos nós somos agentes responsáveis", enfatiza a coordenadora.

 

A formação continuada de professores é vista como a "semente" para o futuro. Muitos docentes com décadas de casa não tiveram disciplinas de diversidade em sua grade curricular original. Por isso, o "NAI Itinerante" visita coordenações de curso para prestar consultoria direta sobre como lidar com cada aluno específico.

No plano pessoal, o futuro de Samiris e Simone é de simbiose acadêmica. Simone, que nunca havia cursado o ensino superior, fez o ENEM em 2025 e aguarda na lista de espera para cursar Artes Visuais, mesmo curso da filha. "Quero fortalecer ela em tudo o que já fez até agora e, no futuro, trabalharmos juntas", projeta Simone. Ela sonha em ver a filha formada, exercendo a docência ou a arte de forma autônoma.

 

As psicólogas Ketlen e Camila concluem em seu estudo que, embora o acesso esteja garantido, a permanência plena exige uma articulação entre os diversos atores do meio acadêmico e o reconhecimento das necessidades individuais. A jornada de Samiris prova que, com o apoio correto, o estudante autista deixa de ser um "paciente" para se tornar um agente do seu próprio discurso acadêmico.

"O segredo é ter fé, acreditar, incentivar e apoiar. Estamos vencendo, estamos caminhando."
— Simone Teodoro, mãe de estudante TEA

A história desta mãe e filha, entrelaçada com o crescimento técnico do NAI, desenha um futuro onde o Transtorno do Espectro Autista não seja visto como uma limitação, mas como uma forma diferente de processar o conhecimento. Na UFJF, a inclusão passou a ser um objetivo da instituição.

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Samiris de Souza Teodoro durante uma das aulas do curso de Artes Visuais da UFJF. Foto: Arquivo Pessoal.

Para mais informações e contato com o NAI

O Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI) da UFJF está localizado no Campus Universitário, situado na Rua José Lourenço Kelmer, s/n, no bairro São Pedro, em Juiz de Fora (CEP 36036-900). O contato pode ser feito pelo telefone e Whatsapp (32) 2102-3944, por mensagem de texto, áudio e vídeo, ou através de e-mails específicos: 

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