top of page

ESPORTE

A cultura das peladas e sua importância no Brasil

Além da parte cultural, as peladas possuem benefícios sociais e para a saúde dos praticantes; no entanto, cuidados são necessários

Por Arthur Sá Fortes e Felipe Guaraldo

Segundo o dicionário on-line Priberam, o termo pelada é definido como “jogo de futebol informal e amador.” Apesar de verdadeira, a definição não revela todas as nuances dos famosos “rachões”, que simbolizam muito mais do que uma simples partida para seus praticantes. 

“As peladas representam um momento de alegria, onde esqueço todos os problemas da vida e me divirto jogando futebol com meus amigos.” É assim que Alexandre Franco, de 20 anos, definiu a importância do “futebol semanal” no seu dia a dia. O estudante de medicina faz questão de comparecer pelo menos uma vez por semana nos gramados do Rio Branco Soccer, um dos locais mais badalados de Juiz de Fora para essa prática. É ali que o jovem não só se exercita fisicamente, mas também fortalece laços sociais.

Imagem Alexandre_edited.png

Alexandre tem costume de jogar futebol pelo menos uma vez por semana. / Foto: Arquivo pessoal

Fora das quatro linhas

Dentre os pontos positivos, Alexandre destaca, principalmente, esse momento de interação com os amigos e de saída da rotina: “me aproximo das pessoas, faço amizades, fortaleço laços com colegas e tenho sempre um momento para me divertir em grupo”. 

Quem valoriza igualmente este lado social é seu companheiro Rayan Leonel, também de 20 anos. Para o estudante de fisioterapia, a “resenha” é o grande trunfo das peladas: “é a oportunidade de esquecer um pouco da rotina e estar com os amigos, além de conhecer novas pessoas”. 

Mais do que um simples encontro, o futebol é uma forma importante de inclusão e de quebra de barreiras sociais. Fabiano Batista, que organiza um grupo de peladas, conta que o tempo na função lhe ajudou a desenvolver habilidades de gestão de pessoas, fazer novos amigos e aprender a lidar com novos tipos de relacionamentos. Aos 51 anos, relata que joga futebol desde criança, mas está neste grupo há 23, quase metade de sua vida: “já jogo há tanto tempo que faz parte da rotina da família”. 

Apesar dos mesmos objetivos, as formas de organização do futebol variam. As peladas de Rayan e Alexandre, por exemplo, não possuem dia, horário e participantes definidos. O “elenco” é determinado de acordo com a disponibilidade das quadras e dos integrantes, e é decidido através de uma lista preenchida por ordem de chegada no grupo de Whatsapp. Também no aplicativo, Fabiano planeja os encontros da semana. Mas, diferentemente dos jovens, possui uma estrutura maior. “Temos o sistema de mensalistas, em que estes pagam antecipadamente e não necessitam pedir vaga. O grupo fica fechado e só abre nos dias da pelada. Só podem ser feitas postagens relacionadas à pelada quando o grupo é aberto. Os mensalistas só devem avisar quando não vão. Os não mensalistas podem pedir vagas, que serão abertas apenas no caso da ausência de um mensalistas”, explica.  

Mesmo com diferentes formas de organização, o futebol com os amigos cumpre seus objetivos sociais: integração, descontração, alívio na rotina, e claro, a famosa “resenha”.

Pelada Fabiano_edited.jpg

Fabiano (terceiro agachado da direita para a esquerda) tem um método diferente para organizar as peladas. / Foto: Arquivo pessoal

Pelada e saúde

As peladas também exercem um papel importante na saúde e no bem-estar. Segundo Carla Montenegro e Rafael Pitta, educadores físicos do Hospital Albert Einstein, em artigo publicado no site, a prática do futebol auxilia no aumento da capacidade cardiorrespiratória e potência aeróbica. O esporte também fortalece a musculatura, especificamente da coluna e das pernas. Além disso, a prática regular  melhora o equilíbrio, a força, a agilidade e a coordenação.

“Existem benefícios fisiológicos para sensação de bem estar e manejo de estresse através da liberação de hormônios como endorfina, serotonina e dopamina”, ressalta Rafael na reportagem do site do hospital. Isso é corroborado pelos praticantes Rayan, Alexandre e Fabiano. “O futebol me ajuda a aliviar o estresse e a ansiedade do dia a dia, me faz esquecer problemas e eleva meu humor, fazendo com que eu me sinta mais calmo e leve para estudar. Sinto que meu desempenho melhora”, afirma Alexandre. Já Fabiano também menciona o estresse e atribui papel fundamental com relação ao seu psicológico: “ajuda também na minha saúde e higiene mental”.

Por outro lado, a fisioterapeuta Ana Cristina Fonseca indica que a prática semanal do futebol não deve substituir outros tipos de exercícios, como a musculação e o crossfit, por exemplo. “Claro que é válido, mas as peladas devem ser consideradas como recreação, a pessoa deve praticar alguma atividade física no mínimo três vezes por semana para não ser considerada sedentária. O condicionamento ideal só é alcançado com uma maior regularidade da prática”.

Riscos e cuidados

Por mais que os benefícios sejam notórios, Ana Cristina alerta sobre os riscos de “jogar bola” sem nenhum tipo de preparação prévia: “existe o risco de lesões, que é ampliado quando o indivíduo não tem nenhuma outra forma de fortalecimento muscular; estiramentos, principalmente na coxa, panturrilha e virilha, são comuns”. Além disso, lesões no joelho, como no menisco ou no ligamento cruzado anterior, podem ocorrer, ainda mais quando os músculos ao redor não recebem uma preparação maior e são forçados de maneira exagerada durante as partidas, sendo sobrecarregados.

lesao-muscular-perna.jpg

Lesões nos músculos da coxa, panturrilha e virilha são as mais comuns nas peladas. / Foto: Reprodução/Globo Esporte

Para se prevenir destes riscos e diminuir ao máximo as chances de lesão, alguns cuidados são necessários para os “atletas de fim de semana”, antes, durante e depois das partidas. O ideal, segundo Ana Cristina, é praticar algum outro tipo de exercício que fortaleça os músculos da perna, principalmente. Antes de entrar propriamente em campo, é recomendado aquecimento e alongamento, importantes para minimizar as lesões musculares. 


Durante os jogos, a hidratação é fundamental, e não é só com água. Segundo Fábio Krebs, membro do Comitê de Artroscopia e Traumatologia do Esporte da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, em entrevista ao Globo Esporte, durante uma partida de futebol o organismo perde tanto água como também sais minerais e eletrólitos, que precisam ser repostos. Essa reposição pode ser feita com repositores hídricos comerciais que são desenvolvidos levando em conta os sais minerais e carboidratos que o corpo perde durante o esforço. Entretanto, se não estiverem disponíveis, um copo de água com sal e açúcar também consegue auxiliar.


Para depois das partidas é essencial repousar. O descanso é importante para o corpo se recuperar e tratar os microtraumas que ocorrem durante o exercício, que se negligenciados podem acarretar em uma lesão mais grave ao longo do tempo, alerta Krebs. Além disso, o doutor completa que, eventualmente, medidas analgésicas e antiinflamatórias em uma fisioterapia também ajudam na recuperação dos atletas.


As peladas de futebol, passadas ao longo de gerações como tradição e parte da cultura do país, ajudam a criar laços sociais e a fortalecer amizades, e possuem benefícios para a saúde, sendo um escape da rotina tradicional e desempenhando papel importante no lado psicológico dos praticantes. Entretanto, como em qualquer outra atividade, são necessários cuidados e prevenções que evitem que um dos grandes passatempos do povo brasileiro acabe virando dor de cabeça.

bottom of page