POLÍTICA
Individualização e redes sociais dificultam organizações coletivas na UFJF
Mesmo em um cenário de crescimento da ideologia neoliberal, instituição vive hiato de ocupações coletivas pelo movimento estudantil
Por Miguel Baesso

Estudantes da UFJF protestam contra a reforma do ensino médio no calçadão da Rua Halfeld, em 2016 - Foto: Reprodução/Ocupa UFJF
“Ocupação de prédios da UFJF é crime”, disse o advogado e professor de direito penal da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Nilson Rogério Leão no editorial da Tribuna de Minas, publicado em 12 de novembro de 2016, referindo-se à ocupação estudantil dos prédios da UFJF e do Colégio de Aplicação João XXIII no dia 27 de outubro do mesmo ano. Naquele momento, os estudantes se organizaram para protestar contra a Medida Provisória 746, que propunha - dentre outras reformas no ensino médio - o movimento “Escola sem partido”, e contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que visava limitar gastos públicos em diversas áreas, incluindo a educação. A fala de Nilson é um exemplo do processo de criminalização sofrido pelo movimento em Juiz de Fora e também no Brasil.
Quase nove anos depois, a UFJF nunca mais viveu outra movimentação estudantil nos mesmos moldes. Os motivos dessa ausência, segundo especialistas, são variados e representam uma mudança de contexto para as lutas sociais. Com momentos marcantes para os militantes que estiveram nos prédios da universidade, a ocupação de 2016 foi o último grande protesto que mobilizou os universitários em Juiz de Fora. De lá para cá, muita coisa mudou, e a forma como as organizações coletivas atuam também reflete na perspectiva dos estudantes em 2025.
Analisando de forma mais ampla, mobilizações coletivas têm sido cada vez menos comuns, tendo em vista o contexto de crescente disseminação das ideias neoliberais de extrema-direita e a diminuição das ocupações nos espaços físicos pós-pandemia da Covid-19. O cientista político Paulo Roberto Leal confirma esse cenário: “Nesse intervalo houve uma desmobilização não só do movimento estudantil, como de grande parte dos movimentos sociais, ou seja, há uma tendência de migração da organização física para o ambiente digital.”
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Especialistas apontam as redes sociais como uma das causas do individualismo contemporâneo - Foto: Pexels
Essa migração para o espaço digital é natural e acontece com pautas de diferentes esferas da sociedade. Apesar de as redes sociais funcionarem como ferramentas poderosas para a mobilização e divulgação de informações, muitas vezes esses ambientes podem levar à polarização, desinformação e fragmentação de movimentos antes compreendidos como “de massa”. Um artigo publicado pelo pesquisador em comunicação André Derviche no Jornal da Universidade de São Paulo (USP), em 2021, aponta que o que é assunto na internet em um dia, facilmente será esquecido em uma semana. Ainda segundo o texto, o meio virtual pode, sim, potencializar a discussão de certas pautas, mas o isolamento social nas famosas “bolhas” das redes também é um aspecto a ser considerado.
A ocupação do espaço físico e a mobilização estudantil de 2016
“Grupos que se organizam em espaços físicos criam um ambiente fértil para debates internos que, consequentemente, geram pautas de reivindicação. A ideia de que você pode atuar isoladamente não dá conta das possibilidades que a organização coletiva oferece”, argumenta Paulo Roberto Leal. Essa noção fez parte dos movimentos na UFJF em 2016 e outros tantos anteriormente.
Estudantes que vivenciaram a ocupação contam que, naquele momento, o Diretório Central Estudantil (DCE) passava por um hiato organizacional e com menos envolvimento em reivindicações coletivas. O contexto da entidade responsável por representar estudantes em Juiz de Fora não impediu que a mobilização acontecesse.
Após diversas assembleias entre diretórios acadêmicos (DAs) de toda a UFJF e o DCE, na noite do dia 27 de outubro de 2016, movimentos de resistência formados por estudantes secundaristas e universitários, professores e técnicos em educação se uniram para o protesto. De acordo com a jornalista e participante das ocupações daquele ano, e também de anos anteriores, Mylena Melo, a atuação foi intensa. No total, foram 47 dias em que diversos estudantes “praticamente moravam” no prédio onde fica localizada a reitoria da instituição. “Não é fácil manter os alunos mobilizados e garantir recursos necessários para todo esse tempo. Durante a semana, muitos comiam no Restaurante Universitário, mas nos fins de semana servimos café, almoço e janta”, revela Mylena.

Registro de uma das noites de ocupação do prédio da Reitoria da UFJF, em 2016 - Foto: Arquivo pessoal/Mylena Melo
Ela conta que o momento foi de luta, mas também de muito aprendizado para dezenas de pessoas: “O pessoal de comunicação teve uma participação muito ativa nas ocupações. Foi uma escola para mim e muitos outros. Houve um amadurecimento e uma ampliação da nossa área de atuação depois disso.”
Para o egresso do curso de cinema da UFJF Vinícius Resende, a ocupação de 2016 foi menos significativa do que a realizada um ano antes, em 2015, que teve pautas classificadas como “mais locais”. Mas, de acordo com o cineasta de 29 anos, o sentimento em comum entre as duas ocupações foi o de angústia. “Entendemos que os estudantes não tinham voz na universidade e pensamos ‘se não vai rolar conversa, vamos para a luta’. Em 2016, existia uma decadência do governo Dilma, o que levou a uma revolta geral do pessoal da ocupação. De fato, era uma mobilização mais simbólica e com pautas menos palpáveis para a realidade do movimento em Juiz de Fora”, conta.
Ponto fundamental na ocupação de 2016 foi a atuação dos moradores de Nossa Senhora de Fátima, bairro da Zona Oeste de Juiz de Fora, localizado ao lado da UFJF, que concentra muitos universitários. Militantes envolvidos na mobilização contam que foi comum - e recorrente - o movimento receber doações de sopas e outros alimentos durante o período de ocupação. Essa relação de cuidado entre estudantes e comunidade reforça a importância das pautas coletivas na sociedade.
De acordo com Vinícius, o momento já representava um processo de decadência das mobilizações sociais em espaços físicos, sobretudo do movimento estudantil: “Não acredito que a ocupação teve uma força política prática, mas fomos guerrilheiros. Esse sentimento de nos unirmos em prol de algo maior foi o que ficou para a gente, mas não me parece que faz parte do ideário universitário mais.”
A jornalista Mylena Melo também lamenta a perda da cultura de ocupação dos domínios públicos e das ruas, mas reforça que vários movimentos ainda se preocupam com a organização coletiva nesses espaços.
A organização coletiva estudantil em 2025
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Mobilização na UFJF contra a reforma do ensino médio, em 2016 - Foto: Reprodução/Ocupa UFJF
“Eu não sinto que há um incentivo para a atuação política na universidade, tanto por causa do DA, quanto pelo DCE”, afirma a estudante de 21 anos do curso de medicina da UFJF Alice Horta. O sentimento de Alice também é apontado por muitos outros como algo que não faz mais parte da vida universitária. Conforme o cientista político Paulo Roberto Leal, os motivos para a atual realidade da UFJF são variados e não se restringem ao contexto da federal de Juiz de Fora. “Nós vivemos uma era em que há uma vitória ideológica de uma perspectiva individualista”, destaca o especialista.
Um artigo publicado em 2018 pela pesquisadora Solange Miguel Marcondes no periódico da revista Sociedade & Estado aponta que as sociedades contemporâneas enfrentam uma nova onda de individualismo. Entre outras características, o estudo revela um mundo corporativista em rede, com projetos profissionais e pessoais a curto prazo, consumo compulsivo, remodelamento frequente de identidades e cultura terapêutica. O debate fala sobre uma espécie de “conformismo triste”, o que indica - em partes - um possível perfil da atual geração de agentes políticos. Em um mundo onde o indivíduo se torna cada vez mais isolado, as organizações coletivas sofrem por consequência.
O DCE foi procurado para responder sobre como lidar com essas transformações no perfil do movimento coletivo em meio ao contexto de individualização das lutas, mas nossa reportagem não obteve retorno. A questão sobre o que tem sido feito pela entidade para garantir maior participação da comunidade acadêmica em meio às demandas de luta cada vez mais crescentes no contexto atual continua.
“A individualização dos movimentos é danosa, porque não resolve a vida de ninguém. Essa é só mais uma reverberação da perspectiva neoliberal, que hoje é vitoriosa em termos ideológicos. Portanto, recuperar a dimensão coletiva para superar problemas coletivos é a grande batalha que essas organizações vão precisar travar para trazer de volta ações de intervenção na esfera pública, como foi em 2016”, argumenta Paulo Roberto Leal.
Confira a entrevista completa com o doutor em Ciências Políticas Paulo Roberto Leal analisando as principais mudanças que levaram os movimentos coletivos ao atual cenário de derrota ideológica no país e também no mundo:
