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ESPORTE

Revolução em quatro rodas

A trajetória do skate juiz-forano, da marginalização à construção de pistas e fortalecimento da cena local

Por Caio Francis

A palavra “batalha” é algo presente dentro do skateboarding desde seu nascimento na Califórnia, nos EUA, em meados dos anos 1950. A prática que para os mais jovens era vista como algo descolado e radical, não agradava o público mais velho e, principalmente, os órgãos públicos que enxergavam o skate como algo marginalizado e responsável por vandalizar as cidades. Durante o crescente sucesso da prática entre os anos 80 e 90, o preconceito com a modalidade chegou ao ápice, com algumas cidades chegando a proibir que pessoas pudessem andar de skate nas ruas — incluindo a capital de São Paulo. 

 

Em Juiz de Fora, apesar de não ter chegado à proibição, havia pouco interesse em incentivar a prática. Nos anos 1990, a cidade não possuía um local próprio para os skatistas poderem andar. Dessa forma, um antigo estacionamento em frente à Escola Normal, na época, foi transformado em pista de skate, com obstáculos de madeira criados pelos próprios praticantes, mas que eram apreendidos de forma constante pela Polícia Militar por não considerar o local apropriado para a prática do esporte. Ninguém proíbe o jogador de futebol de estar dentro de um campo e muito menos um tenista de estar jogando numa quadra, mas os skatistas não tinham local apropriado e podiam ficar nas ruas.

 

Nesta reportagem, vamos conhecer um pouco da história do movimento e da cultura do skate em Juiz de Fora. Município que hoje conta com a maior pista da Zona da Mata mineira, a Pista Rusível Costa, no bairro Poço Rico, inaugurada em 2024. Além dela, também existem outros 15 locais em diferentes bairros que são aptos para a prática. A valorização e luta pela a cultura fez com que skatistas como o juiz-forano Nicholas Dias pudessem existir e colocar o nome da cidade no cenário mundial. Nick, como é conhecido pela comunidade, já estampou as páginas da revista Thrasher, a maior revista da modalidade, com suas manobras e possui contratos com gigantes do meio como DGK e, atualmente, fechou com a marca japonesa de calçados Asics.

Nascimento da Associação

No início de 1999, as coisas começaram a mudar quando o então vereador Gabriel Rocha apoiou os skatistas que estavam tentando criar uma entidade voltada para oferecer melhorias ao skate juiz-forano. A partir de uma grande mobilização entre os praticantes surgiu a Associação Juizforana de Skate (AJS). Para mostrar a força da cena local, nessa época, cerca de 500 skatistas compareceram em uma audiência pública na Câmara Municipal com intuito de mostrar a importância da construção de lugares adequados para a modalidade. No ano seguinte, foi construída a primeira pista na cidade, localizada na Praça Antônio Carlos (PAC), no centro da cidade. Cerca de dois anos depois, a praça do bairro Vitorino Braga também foi contemplada. Atualmente, a pista da PAC não existe mais, dando lugar à Pista Rusível Costa, no Poço Rico.

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O nome da pista homenageia a memória do jovem skatista Rusível Costa Silva / Fonte: Cida Moreira/Facebook

Salve a PAC

Para a maioria dos skatistas, a rampa da PAC simbolizava a primeira vitória do skate na cidade, como explica João Venâncio, de 25 anos. “Eu comecei a andar de skate lá, chamava alguns amigos e ficávamos horas na rampa. Ela era pequena, mas ainda conseguia proporcionar horas e horas de sessão. A demolição dela significou uma destruição de parte da minha infância e juventude.”

 

A rampa da PAC foi destruída como parte da revitalização da praça proposta em 2020 pelo então prefeito da cidade Antônio Almas. Descontentes, um grupo de skatistas criou uma petição on-line chamada “Salve a PAC” que contou com mais de mil assinaturas. Apesar da demolição, essa mobilização chegou aos ouvidos da prefeita Margarida Salomão que prometeu a entrega da atual pista, próximo dali, no bairro Poço Rico.

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Antiga rampa localizada na Praça Antônio Carlos / Fonte: Ighor Prado e Camila Monteiro

Reconhecimento e Novos Projetos

Depois de um hiato, a Associação Juizforana de Skate (AJS) foi reativada em 2022 com uma nova gestão. O atual presidente da associação, Mateus Gomes, conta que busca sempre proporcionar novos eventos para atrair mais pessoas e mostrar o valor do skate. “A gente tem conseguido realizar diversos eventos, parcerias e projetos. Dentro desses projetos tem o rolê das minas, que já está na sua décima edição, incentivando o skate feminino. E o pessoal tem elogiado bastante”.

Além disso, toda ação relacionada ao skate dentro da cidade é consultada pela própria associação antes de ser efetuada, como explica um dos fundadores da AJS, Brunner Venâncio. “Hoje a Prefeitura tem o hábito de consultar a gente para entender nossas demandas e necessidades. Então nós praticamente ajudamos no desenvolvimento das políticas públicas”. 

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“GoSkateDay é um dos eventos comemorados anualmente pela AJS, no dia 21 de junho / Fonte: @Caleriq/Instagram

Skateshop raiz movimenta a cena

É impossível falar de skate e não citar a cultura das skate shops, são elas as principais incentivadoras do esporte: criando eventos, competições e vídeos que divulgam novos skatistas para o cenário.

 

Em Juiz de Fora, a New Stone Skateboard (NSSB) é referência em manter de pé o skate raiz. A marca, criada em 2006 pelo skatista Thiago Machado, de São João Nepomuceno, originalmente produzia camisetas e calçados voltados para o público que fazia parte da cena local, com preços mais acessíveis comparados a grandes marcas de skate. Então, Thiago enxergou nessa ideia uma possibilidade de ampliar para outros lugares e trabalhar. O conhecimento adquirido na fábrica de confecção em que sua mãe trabalhava ajudou bastante o crescimento da marca.

 

Conforme a New Stone e as ambições de Thiago foram crescendo, ele começou a expandi-lá, deixando de ser apenas uma marca regional e transformando-se em uma skateshop. Atualmente, além de vender seus próprios produtos, a NSSB vende artigos de grandes marcas como: Nike, Baker, April e Zero Skateboards.

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A Skateshop fica logo acima do Experimental Bar / Fonte: Divulgação NSSB

A loja promove atividades que buscam desenvolver ainda mais a cena local e incentivar a progressão dos praticantes. “Os eventos ajudam muito no desenvolvimento e dão aquela moral para a galera tanto das antigas, quanto para os mais novos. Daí tem as premiações e descontos que a galera ama”. O empresário explica que as premiações variam entre dinheiro, roupas ou equipamentos para o skate.

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Thiago vestido de Freddy Krueger no evento de Halloween em colaboração com a Monster Energéticos / Fonte: Matheus Pereira/@pereirpmts

Por gostar de manter o legado do skate, a New Stone busca estar sempre nos holofotes da própria cena e suas principais estratégias para continuar tendo visibilidade é através de vídeos com o time e fazendo pranchas com os artistas da região. 

 

Entretanto, Thiago relata que o sucesso do skate nas Olimpíadas trouxe consequências negativas para skateshops “raizes” como a NSSB. Muitas grandes empresas começaram a entrar no mercado e atrair os novos consumidores, mesmo não compreendendo a cultura. Ele busca se adaptar a esse novo cenário, mas se preocupa com a situação. Empresas como Lakai e DC Shoes são exemplos de marcas que não conseguiram competir com grandes corporações e acabaram entrando em falência. Esse cenário atingiu a comunidade, que respondeu com o movimento voltado em incentivar os praticantes sobre a importância de comprar de lojas focadas em skate. “A nova geração ainda tem que entender muito que uma Skateshop física é muito necessária na cena, e em curto prazo isso pode acabar. Torcemos que não, mas é uma coisa que pode acontecer com as grandes só pensando em lucro e não colocando a grana onde faz a diferença real para o skate”, explica Thiago.

Escola de Skate

Além da loja, a New Stone também possui sua própria escola onde é ensinado como andar de skate, seja como forma de diversão ou para aqueles que desejam aprender a mandar manobras mais complexas. 

 

A ideia inicial na criação das aulas de skate foi de ajudar as pessoas que tinham o interesse de aprender skate, além de mostrar que o esporte não é todo aquele estereótipo que foi criado desde seu início. Hoje em dia suas aulas fazem bastante sucesso, com turmas praticando todos os dias e com diferentes idades. Entretanto, não foi sempre assim, Thiago conta que não era muito a favor da divulgação, mas acabou mudando de ideia: “Meus amigos  ficavam dizendo ‘você precisa divulgar mesmo a escolinha, tem que passar a essência do skate. Mostrar que não é só Olimpíada e tal, que tem toda uma coisa por trás, tem arte, tem música…’ e foi ali que eu comecei a meter marcha”.

Início e Impacto Social

Quando a escola começou a dar seus primeiros passos, os principais desafios foram o preconceito que sempre caminhou junto com o esporte; e a estruturação de obstáculos que são ideias para a prática e ensino. Mas a experiência no Do It Yourself tornou esse segundo desafio menos complicado, lembrando o que era feito em Juiz de Fora nos anos 1990 quando a “pista” era num estacionamento. Pelas redes sociais, é possível ver o próprio Thiago e sua equipe pintando e atualizando sua própria pista de skate, que fica localizada atrás do Experimental Container Bar, na Avenida Rio Branco.

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Pista da New Stone / Fonte: NSSB/Instagram

O empresário conta que não existe idade certa para começar a andar de skate. “Recomendamos sempre a partir dos 3 anos, mas não é uma regra, pois temos alunos de 2 anos e meio até 63 anos. O nível e a expectativa vai de cada aluno e do que eles almejam com o skate, desde aprender para se divertir até o aluno que busca aprender as manobras mais difíceis.” Ele completa falando sobre a importância social e o bem estar que a modalidade traz aos praticantes. “A gente é uma família, cada um que entra aqui faz parte dela, e o skate é uma ferramenta sensacional para autoestima, para superação dos próprios medos e ajuda a fazer amizades verdadeiras para o resto da vida.”

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Nunca é tarde para aprender a andar de skate / Fonte: NSSB/Instagram

De JF para o mundo

Morador da zona norte de Juiz de Fora, Nicholas Dias começou a andar de skate depois que um colega pegou seu tênis emprestado para poder andar e devolver o calçado todo destruído. Furioso, Nicholas pegou o skate do garoto e nunca mais devolveu e, depois de um tempo, começou a se interessar pela cultura. 

 

Hoje em dia, Nick conta com mais de 100 mil seguidores no Instagram e viaja pelo mundo mandando manobras e gravando vídeos para as marcas que o patrocina. A sua moral é tamanha que o juiz-forano é garoto propaganda da marca de streetwear Jacker, da França, fundada na capital da moda, Paris. Para saber mais da carreira de Nicholas, você pode ouvir a conversa com ele no podcast “De Tabela” produzido por alunos da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (FACOM - UFJF).

Conversa Nicholas
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