SAÚDE
Os riscos por trás da busca por performance e estética
Especialistas alertam para o consumo de suplementos e medicamentos guiados por redes sociais, marketing e conselhos de amigos
Por Ana Clara Xavier e Pedro Dutra

Imagem gerada por IA/Google Gemini
“Usar suplementos sem orientação é um tiro no pé. O que era pra ajudar, pode acabar te prejudicando.” A frase da nutricionista Sabrina Richardelli resume bem um comportamento que vem se tornando comum entre jovens praticantes de atividades físicas. A busca por rendimento, estética ou energia rápida tem levado muita gente a consumir suplementos alimentares, energéticos, isotônicos e até medicamentos, sem qualquer tipo de acompanhamento profissional.
Seja por influência de amigos, perfis fitness no Instagram ou promessas de resultados rápidos, o consumo desses produtos está cada vez mais normalizado dentro das academias. Mas por trás dos rótulos chamativos e slogans de performance, há riscos que passam despercebidos pela maioria. A seguir, dados de uma pesquisa local e relatos de profissionais e praticantes ajudam a entender como o uso de suplementos tem se espalhado nas academias, muitas vezes sem orientação adequada e com riscos pouco conhecidos.
Cultura do “faça você mesmo”
Conversando com frequentadores de uma academia em Juiz de Fora é possível perceber que a maioria faz uso de algum tipo de suplemento alimentar, muitas vezes sem recomendação profissional. Dentre os dez jovens que conversaram com essa reportagem, todos com idades entre 20 e 30 anos, oito usam suplementos, sendo que seis deles por conta própria.

Atleta utilizando suplemento em pó / Imagem: Bluefit
Esse comportamento não surpreende a nutricionista Hilda Henriques. “As redes sociais têm um grande poder de persuasão. A indústria trabalha pesado na propaganda, seja por meio de influenciadores ou anúncios. Isso cria uma ideia distorcida de que a suplementação é simples e segura para qualquer um”, explica.
Produtos como whey protein, multivitamínicos e ômega 3 estão entre os mais populares. “São vendidos como itens quase milagrosos, mas se utilizados sem uma avaliação, podem causar hipervitaminoses e sobrecargas no organismo”, completa Hilda.
Quando a prática atropela a ciência
O personal trainer Ricardo Dornelas, que atua em academias da cidade, observa de perto os efeitos. “A maioria dos alunos começa a usar porque um amigo indicou ou porque viu na internet. Raramente vem de indicação de nutricionista. Vejo, por exemplo, que o pré-treino deixa os alunos mais agitados, mas também mais dispersos”, relata.

Atleta preparando shake para treino / Imagem: Blog Educação Física
A creatina, segundo ele, é um dos suplementos com efeitos mais nítidos: “com o tempo, o aluno realmente ganha força, mas ainda assim precisa estar sob orientação, porque cada corpo reage de um jeito”. Ricardo defende a união entre nutricionistas e educadores físicos para garantir segurança nos treinos e melhores resultados. “São áreas que se complementam.”
O ponto de vista do atleta
Para Pedro Vianna, atleta de triathlon e aluno da Faculdade de Educação Física e Desportos, a suplementação é praticamente uma necessidade em treinos de longa duração. “Uso carboidratos como maltodextrina e palatinose para manter a energia. Hoje tenho acompanhamento de nutricionista, mas no começo tomava por conta própria porque sabia que eram importantes para o desempenho”, conta.

Pedro Vianna após uma prova de triathlon no Rio de Janeiro / Imagem: acervo pessoal @pedro.vianna_tri
Ele destaca que nos esportes de alta performance, a suplementação é praticamente parte da estratégia. “A gente usa fórmulas que já vêm com a proporção ideal de glicose e frutose. Só muda a quantidade conforme o treino”, explica. Apesar da consciência atual, Pedro reconhece que é comum ver atletas ou iniciantes suplementando por impulso. “Vejo muita gente querendo evoluir rápido e confiando no que ouve por aí.”
É farmacêutico ou farmácia de ideias?
Marcelo Silvério, diretor da Faculdade de Farmácia da UFJF, alerta para o papel do farmacêutico como um profissional acessível à população e com capacidade técnica para orientar sobre medicamentos e suplementos. “A farmácia é um dos poucos espaços onde a população pode buscar orientação gratuita, com um profissional qualificado presente o tempo todo”, explica.
Ele também chama a atenção para o consumo impulsivo de produtos adquiridos pela internet, muitas vezes sem a mínima segurança. “A comercialização on-line ainda escapa à regulamentação ideal. Muita gente compra suplementos sem saber a procedência, os componentes ou as contraindicações. Isso é muito perigoso.”
Silvério destaca que muitos pacientes chegam aos consultórios com informações distorcidas. “Eles dizem ‘eu li que isso é bom’, mas não sabem de onde tiraram a informação. Parte da nossa missão como profissionais da saúde é também educar sobre quais fontes são confiáveis e quais não são.”
O que diz a ciência
O artigo científico “Os riscos para a saúde associados ao consumo de suplemento alimentar sem orientação nutricional”, publicado na revista Research, Society and Development, reforça: o uso indiscriminado de suplementos pode causar danos hepáticos, cardiovasculares, neurológicos e renais. A creatina, por exemplo, embora segura em muitos casos, pode gerar disfunções renais quando usada de forma inadequada.
A revisão bibliográfica aponta ainda que 70% dos consumidores de suplementos são influenciados por informações encontradas em rótulos e perfis de redes sociais. Em alguns estudos, até 53% dos usuários entrevistados faziam uso com base em recomendações de influenciadores digitais, e não por profissionais da saúde.
Outro dado que chama atenção: 76% das marcas de suplementos avaliadas em Lavras (MG) estavam em desconformidade com as normas de rotulagem da Anvisa. Isso inclui promessas falsas de emagrecimento, hipertrofia e ausência de advertências sobre efeitos colaterais.

Cientista formulando suplementos / Imagem: Canva
Mais educação, menos improviso
A conclusão é unânime entre os especialistas ouvidos: não existe suplemento milagroso, e sim estratégia bem orientada. Sabrina Richardelli reforça: “o suplemento só entra quando a alimentação não dá conta de suprir uma necessidade específica. E mesmo assim, precisa ser calculado com base em exames, rotina e objetivos.”
O artigo usado como base para esta reportagem defende campanhas educativas em academias e espaços públicos, reforçando que a educação nutricional deve ser uma política constante. O objetivo é gerar autonomia e consciência, especialmente entre jovens que iniciam a prática esportiva já imersos num mar de desinformação digital.
Para quem quer começar a treinar ou já treina e pensa em suplementar, Hilda Henriques dá o conselho mais direto e valioso: “Comece pelo básico bem feito. Uma boa alimentação é o que sustenta qualquer resultado. Suplemento é só a cereja do bolo.”
