COMPORTAMENTO
Tatuagem como reconstrução da autoestima
Entenda como elementos simbólicos recuperam a autoestima por meio da representação da identidade
Por Ana Elisa Mello
“Eu tinha 60 anos quando fiz minha primeira tatuagem. Minha família me criticou muito, mas eu gostei. E me senti linda de novo com as minhas flores”, conta a aposentada Maria do Carmo, apontando que foi um resgate de sua autoestima.
Ela amava tirar fotos, sempre posava com o braço apoiado na cintura, mas, em um acidente no restaurante onde trabalhava como cozinheira, queimou a parte superior do antebraço. Depois disso, Maria não conseguia mais tirar suas fotos. “Ficou uma marca muito feia e quando ia tirar a foto havia aquela mancha ‘marrom’. Por isso eu fiz a tatuagem de uma rosa, aí tampou a cicatriz.” Hoje, ela posa ainda mais para as fotos, que inclusive adora tirar. “Eu gosto de flores, acho lindo!” afirma.

Maria do Carmo vai à academia diariamente, linda com suas tatuagens. Foto: Ana Elisa Mello
A partir dessa história, é interessante perceber o potencial da tatuagem, seja para recuperar o amor-próprio, seja para demonstrar a essência de cada um, no sentido estético ou representativo. Para Maria do Carmo, a tatuagem é, sim, uma grande aliada da autoestima: “Você se sente mais bonita!”.
Já para a estudante Carolina Gamarano, a tatuagem foi fundamental para resgatar a autoconfiança. “Quando eu estava crescendo, tive estrias que, apesar de serem normais em todo ser humano, me deixaram muito chateada. Por isso, aos 20 anos, resolvi fazer uma tatuagem maior na cintura, que é um hibisco, minha flor favorita”, conta, ressaltando o quanto se sentiu melhor consigo mesma. A partir dessas histórias, fica evidente o potencial reparador que a tatuagem proporciona.
Instrumento de significado
Além da questão estética, a tatuagem também pode ser um meio de expor crenças pessoais e reafirmar gostos, sendo uma forma de expressão da identidade, que também se relaciona com a autoestima.
A tatuadora Maria Isabel Nascimento afirma: “A tatuagem tem esse poder de mostrar para o mundo as coisas que você gosta. É uma linguagem não verbal que comunica visualmente sobre quem você é”. Ela atua na área há dois anos e considera que esta arte está muito ligada à representação e serve para mostrar algo que “não conseguimos explicar de outras formas”. Portanto, nesse aspecto, torna-se um elemento representativo e simbólico.
“Transmite um pouco do que se é, sem ter que falar.”
Maria Isabel Nascimento, tatuadora.
Já para a estudante Laila Costa, nem sempre é importante haver um significado. “Eu fiz uma para simbolizar meus pais e minha cachorra, mas a minha preferida é uma que eu apenas achei bonita e fiz.”
A tatuadora Yasmin Oliveira dos Santos acredita ainda que a tatuagem, além de comunicar gostos pessoais, também está ligada ao coletivo. Ou seja, ela pode ser um elemento comum de uma tribo urbana, ou de determinados grupos organizados dentro da sociedade. “É como se cada estilo representasse uma ‘personalidade’ ou um grupo. Por exemplo, vejo mulheres que gostam de fazer timeline”, afirma.

Para Yasmin, a tatuagem também é uma representação de ideais coletivos. Foto: Ana Elisa Mello.
O que pode influenciar na escolha da tatuagem?
Além da própria vontade de se tatuar, vários outros fatores impactam a escolha do desenho. A tatuadora Yasmin Oliveira dos Santos também menciona que a mídia pode influenciar muito o estilo, a imagem e até o local onde será feito. Além disso, o grupo social no qual a pessoa está inserida também pode ser um fator importante, tanto para ser aceito quanto para reafirmar o pertencimento a determinado segmento da sociedade.
O tatuador Lauro Cesar Costa Júnior, também conhecido como “Kaveira”, trabalha há 20 anos na área e concorda com essa perspectiva. Para ele, a tatuagem teve outro papel após a chegada das redes sociais. “Antes, as pessoas queriam algo próprio, único e individual. Agora, querem frequentemente reproduzir um estilo que já existe”. Isso, em sua visão, é cada vez mais influenciado pelas redes sociais.
A influência das redes sociais na escolha de estilos pode ser compreendida à luz dos conceitos de segmentação de grupo. No universo digital, plataformas digitais favorecem a formação de comunidades com gostos e valores semelhantes, criando verdadeiras “bolhas”, onde o indivíduo consome e se expressa de forma alinhada ao grupo. Essa dinâmica dialoga com o pensamento do filósofo alemão Peter Sloterdijk, que propõe a existência de bolhas simbólicas que podem moldar nossa percepção da realidade. Assim como nas redes sociais, essas bolhas criam um senso de pertencimento e proteção, mas também podem limitar o acesso a novas referências, influenciando diretamente escolhas estéticas, como as tatuagens.
Autoestima e ressignificação
A tatuagem está muito ligada a processos internos e pessoais. Por isso, após alguma mudança de personalidade ou de perspectiva, pode surgir o desejo de remover ou cobrir, justamente para realinhar a imagem externa com a individualidade interna. Nesse sentido, “Kaveira”, que também é especialista em cobertura de tatuagem, acredita que o desenho e o profissional devem ser escolhidos com cuidado, justamente para evitar que isso aconteça. Além disso, a influência da mídia também pode ser negativa, porque, para ele: “nas redes sociais vemos o que está na moda, mas a moda passa e a pessoa pode se arrepender depois”.

Kaveira, trabalha há 20 anos como tatuador e é especialista em cobertura, estilo oriental e estilo old school. Foto: Ana Elisa Mello.
Logo, sob a lógica do conceito de cultura de bolhas, em vez das tatuagens expressarem singularidade, muitas vezes os desenhos podem seguir tendências validadas por determinados grupos, revelando como a construção da identidade pode ser condicionada por ambientes sociais fechados - um ponto que pode levar ao arrependimento. Nesse contexto, pensar a tatuagem como linguagem simbólica é também refletir sobre a influência do coletivo em uma escolha individual.

Maria Izabel Nascimento, tatua desde os 18 anos de idade. Foto: Ana Elisa Mello.
Para evitar arrependimentos, “Kaveira” aconselha pesquisar um bom profissional dentro do estilo desejado. “Preço nem sempre é vantagem dentro da tatuagem”. Por isso, é importante considerar principalmente a habilidade de cada tatuador.
A tatuadora Maria Isabel também tem diversas tatuagens por todo o corpo e menciona: “Eu amo as minhas tatuagens e me sinto linda com elas, mas, assim que puder, quero remover algumas do braço, pois elas já não fazem mais sentido com quem eu sou”. Assim, o arrependimento e a vontade de cobrir uma tatuagem também se relacionam com a autoestima, pois é justamente a partir desse gesto que ela também pode ser restaurada.
